quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Memórias Afetivas
As razões pelas quais eu não gosto mais de ir a Santa Catarina , bueno, isso é outra história.
Ficou curioso?
Quem sabe um dia eu escreva sobre isso.
Mas o fato é que, como sou altamente democrática e não me agrada fazer o papel daquela que põe areia nos planos, fui.
Em nome da parceria e da unidade, fui.
Mas confesso que fui de má vontade, com o pezinho atrás.
Tanto falaram sobre Bombinhas, alçada à categoria de nona maravilha do mundo que não seria eu, uma reles mortal, a dizer o contrário.
Então, sucedeu-se isto:
Saímos de Porto Alegre pela manhã cedinho, até chegarmos, no início da tarde, a Bombinhas.
Aí começou o suplício: carros, carros, carros e mais carros; primeira, segunda, pára; primeira, segunda, pára. E eu ali, firme na paçoca, mas a procissão ia por dentro, isto é, comecei a xingar mentalmente aquele trânsito todo e a mim mesma, por ter a mania de ceder quando não estou a fim de ceder.
Lá pelas folhas tantas, chegamos.
A pousada, belíssima, realmente. A vista, idem.
Mas a praia, meu amigo, a praia, a praia é uma bomba!
Corta: eu, quando vou à praia, gosto de ir à praia, ou seja, quero andar pela areia, sentindo-a sob os pés, quero me estirar numa cadeira e me torrar ao sol, quero, mais tarde, bem mais tarde, saborear uma caipirinha, quero entrar e sair da água. Não sou como algumas mulheres que vão à praia para ficar plantando flores em seus jardins ou recebendo no final da tarde, cheias de jóias e penduricalhos, cabelinhos escovados.
Na praia, torno-me um bugre, não sei que horas são e nem tampouco me interessa, sei lá que roupa vestirei, aliás, levo pouquíssimas, haja vista que irei comprar, sem dúvida, uns vestidinhos floridos do primeiro ambulante que passar.
Feitos os esclarecimentos, vamos aos fatos:
Faixa de areia estreita, e aquilo já me deixou meio assim, afinal, veraneio no Rio Grande do Sul há décadas, com seu marzão e sua faixa de areia enorme, larga, fresquinha.
Completando o quadro, havia uma horda de hunos modernos - os argentinos, que fumavam um cigarro atrás do outro, como se estivessem na sala de suas casas, soltando aquela fumaça fétida de cigarro mata rato.
E o mar?
Bem, eu tinha a memória de um mar azul, transparente e convidativo, mas o que vi foi uma água marrom esverdeada, igualzinha a do meu amado Rio Uruguai viejo.
Ué, mas Bombinhas não era uma maravilha? eu pensava, quieta, ruminando, sob o calor abafado, que nem ventinho fresco soprava.
Nem tudo foi ruim.
No dia seguinte, fomos para Quatro Ilhas, esse sim, um lugar lindo, agradável, uma praia com cara de praia.
No quinto dia, deu-se que amanheci enjoada e aí começou o vomitório e não parou mais.
Resumo da ópera, voltamos para Porto Alegre, eu com febre e devolvendo até a água mineral que tomava e, claro, jurando a pies juntilhos que nunca jamais em tempo algum retornaria a Bombinhas, mas vão para o diabo que os carregue, praia suja, forrada de coliformes fecais, barulhenta, poeirenta, enfim, um nojo.
Dias depois, já recuperada, fui para Capão da Canoa.
No hotel que conheço, na praia que adoro.
Quando, no final da tarde, sentada num banco de uma pracinha senti aquela brisa maravilhosa vinda do mar, concluí que a intuição não falha e que as memórias afetivas, também não.
Não tinha como dar certo a minha ida a Santa Catarina.
Já em Capão da Canoa, só coisas boas vivi, momentos espetaculares passei, junto com amigos, família, conhecidos, enfim.
E ali, tudo fluiu.
Estava tão bom, que até o mar vestiu-se de um azul transparente para me esperar.
Uma semana deliciosa, que me fez esquecer Bombinhas, a bomba, e me fez prestar muita atenção àquela vozinha interior que, muitas vezes, teimo em não querer atender.
Essa foi a primeira lição de 2016: ouça mais a si mesma, menina.
Separe o joio do trigo.
Abrace suas memórias boas.
E as ruins, que se explodam.
Como Bombinhas, a bomba.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
La Espiral
Lembro que, nas noites de verão na casa de minha avó materna, Adelaida, que ficava em Alvear, usavam um repelente para mosquitos chamado Espiral.
Era uma espiral verde, pequena, engatada num pedacinho de metal. Acendiam a ponta daquela coisa fedorentíssima, a qual transformava-se em brasa e passava a queimar, lentamente, durante toda a noite.
Era um cheiro insuportável, mistura de flit com cheiro de queimado , e meu nariz, imediatamente, entupia.
Tá aí uma coisa que sempre detestei, dormir longe de casa.
Mas minha mãe maravilha adorava.
Para ela, era um programa e tanto ir passar unos dias en Alvear, en mi casa paterna, como ela dizia, à guiza de explicação.
Ocorre que não há, efetivamente, lugar melhor de se estar que na casa que nos viu nascer, crescer e embalar sonhos.
Eu, na condição de filha mais nova, criança ainda, com meus sete, oito anos, era arrastada, a contragosto para aquela
temporada, só que nada podia fazer.
Meu pai ficava no Itaqui, fulo da vida, mas não dizia nada, e nem precisava, apenas olhava para minha mãe com olhos de fogo.
O Alvear de minha infância era triste e poeirento, com seu silêncio de sepulcro na hora da sesta, momento venerado pelos argentinos mas por mim detestado, eu queria brincar, correr, nadar, mas precisava ficar quietinha, estirada sobre uma colcha que minha mãe colocava sobre o chão de ladrilhos vermelhos do corredor de entrada da casa da avó, el saguan.
Não se podia dar um pio, ou apareceriam Carlanco e Cambireca, um casal que ficava andando sob o sol escaldante do verão apenas para levar consigo crianças teimosas que não queriam sestear.
Passava o dia, naquela base, mas o brabo, mesmo, era a noite.
Sentavan -se todos na calçada sob a luz da lua e das estrelas, pois havia uma única lâmpada no meio da rua, destinada a iluminar toda a quadra.
Os mosquitos zuniam adoidado, mas ninguém parecia se importar com eles, a conversa e as risadas ecoavam, minhas tias Alba e Maria Luísa, a avó Adelaida e minha mãe, uma alegre reunião das mulheres Fernández.
Chegava a hora de dormir e o tormento começava, lembro-me tão bem da voz de minha avó para minha mãe, Kila, prede la Espiral.
Noite dos infernos, eu passava, chorando baixinho, louca de saudades do meu pai, da nossa casa, da minha cama.
Passados dois ou três dias, voltávamos para Itaqui.
Eu chegava e me atirava nos braços do meu pai, chorando e reclamando muito, e ele ria, ria a bandeiras despregadas, uma vez que ele, por seu lado, igualmente detestava o cheiro de espiral.
Muitos anos depois, me apaixonei por um argentino e aí, o Alvear transformou-se na cidade mais linda do mundo, e o cheiro de espiral ou de flit que minha tia Maria Luísa colocava no quarto usado por mim em nada me incomodava.
Eu chegava ao raiar do dia e, depois de ter dançado a noite inteira nos braços de aquel morocho divino, me jogava na cama e dormia sorrindo, inebriada com tanta felicidade.
O que não faz o amor, hem?
Mas essa é uma outra história.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
A Sapatilhazinha
Um tombo estúpido, aquela queda inocente que, num primeiro momento nos faz rir para, logo após, chorar.
Chorar de dor.
Há exatos 21 dias, caí da cadeira da cozinha.
Brincando com o gato fui, sem perceber, ladeando o corpo para um lado até que a cadeira foi para outro.
Pá!!!
Caí sentada, com toda esta almofada que carrego há dez mil anos, senti que bati forte, ouvi o barulho e pensei, te ralaste, amiga, que a pancada foi grande.
Mas, como sou uma pessoa teimosa e ignorante e acho que me curo sozinha, fui procurar o médico somente quinze dias depois, já pedindo água.
Resultado:
precisei fazer um raio x, que ainda não está pronto e, provavelmente, terei que fazer uma ressonância magnética.
Esse, o preço da glória.
Haja paciência para suportar a dor mas, acima dela, estar sem poder fazer tudo o que gosto: andar, pular, arrastar meus potes de plantas, ir ao Pilates, voltar à mil e dar uma corridinha, não está sendo nada fácil este repouso forçado.
Ponho-me a pensar nas pessoas que precisam ficar meses a fio fazendo tratamento.
Elas são um monumento à coragem e à força de vontade.
Também conclui o que todos sabemos mas que, na prática, adquire outra conotação: saúde é tudo.
Sem ela, não fazemos nada.
É, tenho pensado muito.
Penso, inclusive, nas coisas que são, para mim, urgentes: amor, carinho, afeto, amizade, companheirismo.
Considero-me afortunada, pois meu maridão faz o que pode para me agradar e levantar o astral, um tanto quanto baixo, pois não se pode pretender que uma geminiana fique lá muito alegre, olhando a caravana passar.
Soma, para meu quase ataque histérico - eufemisticamente falando, claro, sou extremamente calma...o fato de estar longe das minhas filhas: meus três amores no Portinho e eu aqui e, numa hora destas, eu quero e preciso de um colinho de filha.
Entretanto, como não tem tu, vai tu mesmo, então, dou uma de Poliana e procuro contentar-me com o que tenho à mão, e que também não é pouco: um ótimo livro, um filme, a parceria dos amigos e, claro, meu indefectível matecito.
O pior de tudo, entretanto, é que fui obrigada a comprar um sapato sem salto: uma sapatilha.
Mas é a treva!!!
Que coisa feia e sem graça inventaram, esse tipo de calçado só fica bem para quem tem 1,70m e 60 quilos, e está na faixa dos quinze aos trinta e cinco anos.
Depois, fica estranho, e por favor, não me apedrejem, estou impossibilitada de reagir.
É brincadeira, amigos!
Ocorre que eu não tinha, até a semana passada, um único sapato que não tivesse salto e agora, obrigada a usar a sapatilhazinha infame, desejo, ardentemente, poder voltar aos meus gloriosos saltos.
Quando chegar esse dia maravilhoso que, espero, seja em breve, levarei a sapatilha para lugar incerto e não sabido e que, Deus me ajude, não precise mais dela.
Porque machucada, ainda passa.
Mas ter de usar sapatilha...aí já é castigo!
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Abotoadinha
Às vezes, um par de dias e uma mudança de ambiente costumam fazer milagres.
Passar por situações que nunca imaginou vivenciar, conhecer pessoas diferentes daquelas com quem convive há tempos levam você a pensar que, se faltava alguma coisa para fazê-lo sair de sua zona de conforto e mudar de atitude em relação à vida, pronto, esse era o impulso necessário.
Durante anos, ficamos num emprego onde não nos valorizam, num relacionamento médio, numa cidade que nos deprime, aturando o vazio em que se transformou nossa vida, até perceber que as oportunidades são infinitas, desde que haja, fundamentalmente, duas coisas:vontade e coragem para mudar.
O que virá depois, só Deus sabe, mas tudo é melhor que viver estagnado e com a terrível sensação de que você é uma pessoa descartável, dispensável, e que deve ficar bem quietinha ouvindo pito e opiniões de quem pensa que está por cima só porque grita mais.
Quando você tem o prazer de rebentar a corda que está te enforcando e coloca um ponto de basta no tempo que passou abotoadinha, presa a circunstâncias que um dia foram ótimas mas que, por uma ou outra razão, deixaram de sê-lo e poder voltar a ser quem você realmente é, resgatando a si mesma é como respirar um ar novo e puro.
Poder mirar -se no espelho e enxergar a sua imagem verdadeira, livre daquela roupagem velha, incômoda e bolorenta é uma sensação de leveza indescritível.
Que tenhamos, sempre, a ventura de poder abraçar o novo!
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
E O Cordão...
Questionei-o sobre a pontuação obtida na prova e ele, com um sorriso de orelha a orelha, tascou: com esse sorriso e essas tuas covinhas, não precisas te preocupar com nota!
Nos tempos atuais, uma atitude assim, tão descarada, seria impensável.
Certamente a história iria parar nas redes sociais e aí, seria um salve-se quem puder, ou melhor, o professor estaria sumariamente reduzido a pó de traque.
E minha resposta, qual foi?
Do alto de meus vinte aninhos, encarei o professor figurão, quarentão, bonitão, e falei: sim, mas minhas covinhas, e todo o resto, não são para o teu bico! Quero saber a razão de ter tido minha nota alterada.
Bueno.
Com isso quero dizer que, desde sempre, nunca fui puxa saco.
E, quando vejo alguém que tem esse hábito, primeiro sinto nojo.
Depois, raiva.
Por último, pena.
Não há necessidade alguma de puxar o saco do chefe para manter o cargo.
Pois o que, de fato, faz diferença, é o potencial de cada um.
Ainda hoje observo, abismada, como tem gente que se presta para fazer qualquer coisa, a fim de manter o status quo.
Como é possível?
Pior é que o puxa saquismo é tão evidente que todos, absolutamente todos, se dão conta da situação.
Mas, enfim, caráter não se aprende na Faculdade.
Entretanto, embora em um primeiro momento o puxa saco pareça estar por cima da carne seca, olhando para os demais como se fossem uma bolachinha quebrada, outros olhos o observam, e veem suas deploráveis atitudes.
Melhor dizendo, a falta de.
Portanto, quando me deparo com um puxa saco, sinto pena: de tão incompetente, precisa estar sempre bajulando o superior, senão, balança e cai.
Ainda não me convenceram de que o estudo, a dedicação e o trabalho técnico valem menos que uma boa puxada de saco.
Não me convenceram!
Lamentavelmente, o que se vê é que o cordão dos puxa saco cada vez aumenta mais.
Sorte que - podem me taxar do que quiserem, dele nunca fiz, não faço e, se Deus quiser, não farei parte.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Réquiem Para os Livros
Quero crer que sim, adorável Santinha.
Tocou-me a triste tarefa de separar os livros que eram de meu Pai, documentos de antanho, pastas, fotografias, notas, bilhetes, recibos.
Foram dias separando tudo e, se não fosse pela ajuda que recebi do marido e de três fiéis funcionários, não teria conseguido, devido à extraordinária carga emocional que aquilo me trouxe.
Passei mais de semana chorando e pensava, queria escrever sobre tudo aquilo mas não tinha coragem, pois seria pesado demais.
Doloroso é ter que dar um fim a objetos que simbolizaram parte da história de nossas vidas mas que, por força das circunstâncias e do decurso do tempo, tornaram-se obsoletos e sem serventia.
Acumulavam pó, nada mais.
Simples assim, e extremamente triste, pois todos aqueles livros, coleções inteiras cuidadosamente enfileiradas nas estantes, um dia foram úteis e tiveram seu passado de glória, lidos à exaustão, horas e horas de pesquisa, para que pudéssemos apresentar um trabalho digno e limpo.
Um trabalho bom.
Meu Pai, a toda certeza, logrou êxito em sua missão de operador do Direito.
Sobre a minha pessoa, o tempo dirá.
Mas o fato é que havia a necessidade de tirar todos os livros daquele local onde um dia foi o escritório de advocacia do Dr. Edgard.
Não foi possível fazê-lo de maneira rápida, o que talvez deixasse o processo menos dolorido.
Foram necessários vários dias e muitos ajustes, até que a última caixa saiu, e fechei a porta.
E como doeu!
Foi muito, muito difícil ver todos aqueles livros sendo tocados por mãos que não as do meu Pai, pois ele foi quem os adquiriu, cuidou, colecionou, limpou.
Livros de toda a vida!
Religiosamente, uma vez por semestre, ele contratava uma pessoa que ia lá para o escritório limpar os livros, um a um.
Que tarefa!
Ele tinha adoração por aqueles livros e eis que a mim, justo a mim, que amava e amo e sempre amarei meu Pai, e adoro livros, a mim coube tirá-los de circulação.
E, ao passo que via como iam sendo levados, vinha a minha cabeça, de maneira recorrente, uma cena triste daquelas carruagens de antigamente, carregando pessoas.
Um réquiem para os livros.
Chorei uma semana, chorei no cantinho, na sala, da rua, na chuva e na fazenda, antes de dormir, e até dormir de tanto chorar, chorei no café da manhã, chorei tudo o que tinha para chorar.
Mas aí, como é de minha natureza, um belo dia eu acordei muito bem, e com uma energia nova.
Havia passado por mais uma prova, dessas que Ele me manda, e eu passo, pois não sou de fugir.
Fiz novos arranjos, perfumei a casa.
Levantei a cabeça e saí, para seguir em frente.
Sim, adorável Santinha, tens razão: tudo passa. Só Deus não muda.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
De Mão No Bolso
Quem assistiu ao filme Para Sempre Alice, agora também pelo Netflix, não ficou imune àquela história, baseada em fatos reais.
Alice, uma Professora universitária de renome depara-se, aos 50 anos, com um diagnóstico de Alzheimer e o que se vê, da metade do filme em diante, é uma história triste, deveras mas, acima de tudo, de superação e dos novos arranjos familiares que, necessariamente, tiveram de ser feitos.
Triste e muito real, pode acontecer com qualquer um de nós.
Saí pensativa do cinema, pois o filme nos leva à reflexão e não há como não imaginar-se em um quadro como o dela.
Cinquenta anos e eu, 54.
Nada me assusta mais que perder a compostura.
A lucidez, esse seria o termo correto.
Depender da bondade e da paciência dos demais para realizar as mais triviais tarefas deve ser algo muito aterrador para alguém acostumado a caminhar com as próprias pernas.
Por isso eu, que observo muito o que me rodeia, fico deveras impressionada com algumas pessoas que conheço e, depois que se aposentam, parece que também deixaram de lado a vida.
Explico-me.
Eu vou para o trabalho todos os dias e, num determinado ponto do caminho, passo por um senhor, recostado no muro de sua casa, parado, mãos nos bolsos das calças, observando o vai e vem das pessoas e dos carros.
Quando chego no trabalho, deparo-me com um outro cidadão, recostado no muro da Prefeitura, parado, com as mãos nos bolsos das calças, observando o vai e vem das pessoas e dos carros.
Eu sinto uma vontade incomensurável de gritar, tiraaaaa a mãoooo do bolsssooo, e vai arrumar um pátio pra capinar!!!
Meu Deus do céu., como é possível que um ser consiga ficar parado, olhando, numa posição de completa inutilidade, a vida passar?
Os modelos que carregamos nos fazem criar imagens do que é certo ou errado e isso, definitivamente, não está correto.
Eu tenho um modelo familiar de avós, pais, tios e irmãos altamente produtivos.
Portanto, causa-me espécie quando vejo um homem paradito, olhando...
Sim, isso me dá vontade de gritar: tiraaaaa...
Por sorte, o mecanismo de controle que me foi ensinado ainda funciona e fico a pensar, cada vez que observo ditas cenas - todos os dias, por sinal, que nada, absolutamente nada tenho a ver com a atitude de contemplação de tais pessoas.
Nadica de nada.
Porém, rogo a Deus (além de não perder a compostura):
Ó Senhor, não deixes que me transforme em uma senhora aposentada, parada, recostada numa parede, olhando a vida passar. Livrai-me do mal da inutilidade.
Amém!
Gavetinhas
O meu fã clube de meia dúzia de gatos pingados, não raro, vêm se insurgindo com a escassez de publicações o que, por um lado, me honra e envaidece mas, por outro, preocupa-me.
Ocorre que tive a ideia de criar um blog e fiquei meses a fio ruminando qual seria o título, os temas que abrangeria, a forma da escrita, enfim.
Conclusão: a forma de escrever é a minha e não há cursinho ou dica que me faça mudar o jeito e o modo de fazê-lo.
Não sei se isso é bom ou ruim, fato é que não há como dissociar o meu eu e a forma como encaro a vida, o trabalho e as relações pessoais daquilo que escrevo.
A raiz disso, aliás, lembrei-me que, aos nove, dez anos, costumava escrever redações e hoje, por incrível que pareça, quando recordo dos conteúdos, vejo que nada mudou.
Por tais razões, este meu jeito não irá sofrer alterações uma vez que, para mim, escrever é um ato sublime, recuso-me a fazê-lo sem vontade ou apenas para, com o perdão da expressão, encher linguiça, que pese as reclamações do meu fã clube às quais, comovida, agradeço.
É que a escrita é caprichosa, fato que já comentei em postagem anterior, ela não é um botão automático que ligado, dá início a uma produção em série.
Ao menos para mim, não é assim que funciona.
Por outro lado, preciso registrar que, ocupada com tantos assuntos, as postagens começaram a empilhar-se num escaninho da mente há dias, e ali ficaram, me cutucando...e aí, não vai escrever hoje? como assim? ué, sais, abandonou o barco?
Algo como se meu cérebro fosse composto por gavetinhas que se abrem e se fecham e, ali, as ideias vão se misturando e se sobrepondo, caso não decida colocá-las no papel.
Um inferno na torre!
Confesso que, em determinados momentos, aí sim, eu gostaria que minha mente tivesse um botãozinho de desligado.
Não tem.
Para evitar que as gavetinhas fiquem por demais bagunçadas, tomei uma decisão. a fim de por ordem na coisa, ou melhor, na mente, vamos esvaziar as gavetinhas!
E o resultado dessa movimentação interna, espero, para o bem dos queridos leitores, e para o meu próprio, que nos seja propício.
* Uma feliz e abençoada semana a todos!!!
quinta-feira, 2 de julho de 2015
A Vaga Comprada
Não estranho: se você tem um pai e uma mãe que vão até uma universidade tentar comprar uma vaga pra você, o que eles estão dizendo? que o dinheiro compra tudo.
Mas será que compra mesmo?
A suprema ventura de entrar e sair da faculdade pela porta da frente, sem nunca ter precisado valer-se de qualquer ardil para conseguir o ingresso, ah, isso, o vil metal não compra!
Pensando No Meu Pai
Quando estou triste, idem.
E quando preciso, desesperadamente, de um ombro amigo e de um conselho daqueles que recebemos só de quem nos ama muito, sem pedir contrapartida, penso nele.
Aliás, dias há em que consigo senti-lo tão perto que poderia, quiçá, tocá-lo, chego a ouvir sua risada alta, alegre, que não deixava dúvidas, sim, ele estava de bem com a vida.
Hoje lembrei-me dele logo que acordei, saí para o pátio gelado, cedinho da manhã, para observar o dia e o céu lindo do meu Itaqui.
Parêntese:
Eu ando, viro, vou e volto, e sempre vejo-me a pensar no quão ligada estou a esta terra.
Adoro viajar, é verdade, é um privilégio poder visitar lugares, conhecer novas paisagens, rever amigos, fazer programas diferentes.
Mal chego, ponho-me a matutar sobre o próximo destino.
Só tem uma coisa: lá pelas folhas tantas, eu quero voltar.
Quero voltar para o Itaqui.
Preciso rever a Praça com suas árvores majestosas, olhar para o prédio da Prefeitura, passar pela Igreja Matriz de São Patrício, encontrar meus amigos e afetos, conhecidos, ir até a padaria, ao Salão de Beleza que frequento há mais de 12 anos, eu preciso.
Cada vez que volto do Porto Alegre, o povo de lá me questiona: por que não vem de muda para cá?
E eu, realmente, sinto-me tentada, não vou mentir.
Entretanto, há algo que não me deixa partir: são minhas raízes.
Eu nasci e me criei no Itaqui, aqui criei minhas filhas, a maior parte de minha história de vida está aqui.
Tudo isso veio à baila por uma razão mui simples: preciso tomar decisões e não posso errar.
Não devo errar, isso é um luxo permitido a quem tem 20 anos, não a quem está com 54.
Será?
Fecha parêntese.
Voltemos ao início: quando estou alegre, lembro-me do meu Pai.
Quando estou triste, idem.
Ao ter que decidir sobre determinada questão, pensei nele ainda mais, em sua figura ímpar, no seu abraço.
Que falta tremenda me faz o seu abraço!
Vejam vocês, queridos amigos, como são as coisas.
Eu saí para o trabalho matutando, falando mentalmente com ele, contando a ele de algumas amarguras e aborrecimentos, e dessa forma fui indo.
Quando desci do carro, quase de imediato, um amigo me avistou e veio ao meu encontro, de braços abertos, e me deu o popular abraço de urso, tão apertado que quase sufoquei, e ali ficamos conversando, na calçada da prefeitura, por alguns minutos.
Não pude deixar de pensar que aquele abraço do meu amigo era muito parecido com o do meu Pai.
Quem sabe um recado...
E, como já postei aqui outras vezes, o poder do abraço e sua força são como um remédio para a alma e para o coração.
E, de acabrunhada que vinha, passei a sentir uma grande alegria.
Um par de horas depois, eis que surge a resposta para minhas dúvidas e questionamentos, tão fácil e simples que até me pareceu um verdadeiro milagre.
E o notável é que, a todo instante, sentia a presença do meu Pai do meu lado, a me amparar e confortar, como nos velhos tempos.
Há certas coisas que não conseguimos explicar.
Apenas sentimos.
O que posso dizer, então, é que há uma energia, emanada do amor, que permanece e, de alguma forma, se comunica, não importa o tempo ou o lugar.
E hoje pela manhã, recebi uma mensagem muito clara dele: primeiro, através do abraço do meu amigo e, depois, pela notícia, há meses esperada.
Também pensei em sua tenacidade e perseverança, nos tempos difíceis de sua vida, na força com a qual enfrentava ventos e tempestades.
Ele era um lutador, portador de uma fé inquebrantável.
Aprendi tanto com meu Pai.
Continuo aprendendo.
Grandes lições trouxe-me o dia de hoje.
Encerro, alegre e, como não poderia deixar de ser...pensando no meu Pai.