quinta-feira, 28 de julho de 2016
Mentiras Eleitorais
Avizinham-se as eleições municipais e, com elas, começam a pulular os candidatos e suas soluções mirabolantes.
Mentem que dá gosto, e o povo, ingênuo, insiste em acreditar, pois anda de braços com a famosa Esperança, essa dama encantada.
Pode ser que trovejando chova...
Entretanto, considerando que sou filiada a um partido político há mais de vinte anos, e há oito trabalho no serviço público exercendo cargo de confiança, não acredito naquele(a) candidato(a) que vem com velhos chavões e discursinho pronto pra lá de demagógico de que irá trabalhar de sol a sol, enxugar secretarias municipais, cortar gastos, trazer muitos investimentos, não terá CCs, e cujo governo será pautado pela estrita observância dos princípios que regem a Administração Pública.
Talvez isso valha para algum lugar perdido, onde a maldade política ainda não tenha aportado e se aplique o velho ditado de que " em terra de cegos, o torto é rei".
Se não, vejamos:
Você poderá ganhar as eleições, mas se você não tiver maioria na Câmara de Vereadores, estará frito, já que seus projetos não andarão.
Essa de cortar secretarias, meu amigo, é só no começo. Deixa o camarada tomar pé da situação e encontrará a necessidade de ampliar o quadro.
Em relação aos gastos, idem. Ninguém governa sozinho, e os servidores tem deveres, é verdade, mas também tem direitos. Isso passa por reposição salarial, treinamentos e outros quetais, e nada disso é baratinho.
Em relação aos CCs, beira às raias da idiotice aquele candidato(a) que diz que vai reduzir CCs.
Não vai, não senhor!
Pois não se esqueça que, se o senhor(a) se elegeu, foi graças ao trabalho dos seus cabos eleitorais, dos seus simpatizantes e daquelas pessoas que o(a) apoiaram e, desde a indicação do seu nome, batalharam por ele na convenção, analisaram documentos, bateram de porta em porta com a bandeira do seu partido e levaram seu nome adiante como o grande salvador(a) da Pátria.
E aí, depois de eleito(a), vai esquecer dos companheiros?
Não vai agradecer o apoio recebido, o trabalho desenvolvido? As horas gastando sola de sapato, comendo poeira por todas as ruas sem calçamento - que, aliás, agora, o senhor(a) irá asfaltar?
Ah....então, vai ter que ter um CC...
Um não, vários!
Outra coisa: se o senhor(a) residir longe de Porto Alegre, ou de Brasília, vai precisar ir até lá.
Vai viajar a serviço do seu município sem receber diária?
Ah....ué, mas e o corte de gastos?
Não ia trazer fábricas? Indústrias? Gerar emprego e renda?
Sem sair do município, as coisas não acontecem.
E as costuras políticas?
Após a vitória nas urnas, aparece a fatura.
A conta sempre é alta e salgada.
Ademais, não se pode olvidar que o Tribunal de Contas, a Câmara de Vereadores, a oposição e a comunidade estão todos olhando para o senhor(a).
Então, candidato(a), faz assim: não mente.
Faz um trabalho digno e limpo e sem falsas promessas que, por força das disposições vertidas na Constituição Federal, na Lei de Responsabilidade Fiscal, na Lei de Licitações e em outros diplomas legais, não terás como cumprir.
Não ilude o povo.
Não te pinta de Messias, pois não és.
És um ser humano dotado de caráter, ambição, vontade de trabalhar pela tua comunidade, disposição, ideias novas.
Bem.
Excelente.
Só não te transformes num mentiroso(a), no descobridor da roda, pois o eleitor é um ser insaciável, embora digam que o povo sempre esquece...
Esquece, talvez.
Mas perdoar, não perdoa.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Que Tonteria!
Como assim? Que tonteria es esto?
Resulta que faz mais de mês um zumbido tem me atucanado os ouvidos, desses que a gente sente após uma noitada de música alta.
Algo pelo estilo.
Então, em pleno meio dia de um domingo, senti tudo girando a minha volta, e não consegui enxergar o chão.
Fiteira de carteirinha, em meio ao verdadeiro caos que se instalou no meu ser, de cara pensei: tô indo pro andar de cima, vou fazer a passagem; aqui, sozinha na sala de casa, sem testemunha alguma.
Ciao, mondo cane.
Mas como sou metida a esperta e não me entrego asi no más, fui indo do jeito que deu até a porta da rua, pensando, e agora José, eu vou é sair daqui e gritar por socorro, minha adorada vizinha haverá de escutar, e pouco me importa que estou de pijama e completamente escabelada, sem uma gota de nada no rosto já nem tão viçoso que dispense um mínimo de make, mas vá lá, que importância tem isso agora, trata logo de abrir a porta e de sair, te mexe...
Mexer como?
As pernas não me obedeciam, eu queria ir para a direita e saía para o outro lado, enquanto na cabeça pipocavam sons estranhos, como de água borbulhando, estalos e apitos.
Que sensação terrível, a de não conseguir visualizar o chão.
Eis que cheguei à porta da rua e, abrindo-a, nela me escorei, olhando o dia lindo que girava doidamente a minha frente, sem conseguir chamar por ninguém, apenas esperando o marido chegar do super, e esse tempo me pareceu enorme, embora tenha sido de poucos minutos.
Fui parar no Hospital São Patrício e lá, disse-me a médica, teria que ficar fazendo uma medicação diluída no soro.
Que desastre!
Fiquei bem quieta.
Obedeci.
Mas, tão logo me colocaram o soro, comecei a me rebelar: a troco de que santo preciso ficar aqui com esta agulha espetada no braço? se minha pressão está ótima, batimentos, açúcar...
Vou sai daqui!
Enfermeira!
Por favor, amiga, tira este negócio do meu braço. Já me sinto bem. Vou embora.
Ela me olhou, um misto de espanto e pena, e disse: mas a senhora está com o soro faz 5 minutos...
É, eu sei, mas estou bem, pode tirar.
Ela tirou.
Mas me disse: fique aqui que eu já volto.
E voltou.
Com a médica.
Que, de cara, foi mandando, coloca de volta o soro, e a senhora fica aí bem quietinha e vai fazer to-
da essa medicação até o final. Não vai sair agora de jeito nenhum.
Aquilo foi uma ordem e eu me entreguei.
Estendi meu braço com cara de ré para a enfermeira que, triunfante, recolocou tudo no lugar outra vez.
Desaforo!
Inferno!
Odeio isto!
Quem sabe eu mesma arranco este negócio? E a voz interior "...tu não sabe fazer isso, idiota.Vai que entra ar na tua veia e aí, sim!"
Tenta pensar em coisas boas.
Na praia! Areia, sol, calor, céu azul, mar...
Respira...
Tá melhorado...
Pensando bem, sou uma pessoa de sorte.
Moro em uma cidade pequena, o nosso Hospital é ótimo, fui prontamente atendida, estou medicada, então....acho que vou dormir um pouco...
Saí de lá duas horas depois.
E aí voltamos ao começo desta postagem, onde o médico que consultei na segunda feira me sentenciou: nada de dirigir, etc, etc.
É triste isso.
Voltei para casa e por mais que tentasse me consolar, dessa vez não rolou.
O que rolou foi muita lágrima, isso sim.
Pois não poder sair por aí cuándo se me antoje soou à prisão, à controle, a todas essas coisas impostas que detesto.
Entretanto, é algo temporário.
Trinta dias. Apenas trinta dias!
Dos quais passaram-se três.
Enquanto isso, vamos driblando o tempo, curando a labirintite e dando uma gambeta na vontade de tanquear o carro, calibrar os pneus e zarpar, rumo à estrada, só o som do vento e a imensidão dos campos que se estendem a perder de vista...espetacular!
Ainda bem que os dias passam, céleres.
Ainda bem!
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Quo Vadis?
terça-feira, 3 de maio de 2016
Estofado
E por isso entende-se que vamos precisar de um quilo de carne para bife, cebola, pimentão, tomate, batata e cenoura.
Un poquito de sal y pimienta.
Acrescento à receita algo que aprendi com a melhor cozinheira que já conheci, e que viveu toda sua vida na casa de meus Avós paternos: Heloísa Chavaré, a Mãe Gija: uma pitada de canela em pó, e um cravo da índia.
Passemos ao modo de preparo:
Tempere os bifes e doure-os em um fio de azeite;
acrescente uma camada de cebolas, cortadas em rodelas, uma camada de pimentão, uma camada de tomate, uma camada de batatas e uma de cenouras, fatiadas;
cubra tudo um pouco de água, coloque a pimenta, a canela em pó e o cravo, baixe o fogo, tampe a panela e deixe cozinhar por uns 40 minutos.
Você vai obter um molho espesso e muito saboroso.
Sirva com arroz branco e delicie-se con una copita de vino tinto, para arrematar.
Enquanto cozinhava, meu pensamento voou atá a grande cozinha da casa que um dia foi minha mas, principalmente, viajei até o Alvear, direto à casa de minha Avó Adelaida, a que adorava gatos, a que sabia preparar delícias em seu fogão à lenha e que ensinou tudo para minha Mãe, que me ensinou.
Não pude deixar de pensar, meu Deus, há quanto tempo não as vejo?
Que falta me fazem seus abraços e beijos, e aquele amor desinteressado que jamais em tempo algum voltei a experimentar.
Pois saibam, amigos que, apesar da saudade y de la nostalgia que me invadem nestas datas, faço de tudo para viver com alegria e determinação, olhando sempre para a frente.
E é bem verdade que consigo, pois o que me sustenta e mantém é o amor que recebi daquelas mulheres que fizeram parte de minha vida e às quais devo tudo o que hoje sou: minha Avó Adelaida, minha Mãe, minhas Tias...
No me puedo quejar, pois fui muito amada por todas elas.
E esse legado de afeto o tempo não corrompe, a distância não tem o poder de desbotar, a separação física não consegue apagar, uma vez que a memória do coração não falha e nem esquece e a tudo recorda, nos mínimos detalhes: os lugares, a luz, as cores, os sons, o cheiro.
Sei que, de algum lugar, todas elas, as muitas mães que tive, estão sempre segurando minha mão.
Hoje, me levaram até a cozinha para fazer un estofado.
Uma forma de tê-las mais perto de mim, de evocar os momentos fantásticos que com elas vivi.
Tantas lições venho aprendendo nesta caminhada solitária sem minha Mãe e sem as mulheres da minha vida que até Deus duvida.
Uma coisa, porém, tenho sempre presente: por elas e por mim mesma, esmorecer, nunca!
Há muitas formas de cultivar os amores e uma delas, por mais simples que possa parecer, é preparar uma receita de família, aquele prato que, quando saboreado, te fará suspirar e pensar que, afinal de contas - e não me canso de repetir, o amor é o sentimento maior, é o que permanece e perdura.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Um Dia de Brucutu
Um verdadeiro brucutu, um homem daquele tipo que bate e depois vê o que acontece.
Aquele tipo de pessoa que não se importa, a bem da verdade: passa de trator, depois dá uma olhadinha para trás, só pra ver o resultado.
Pois creiam, amigos que eu, uma pacata cidadã de 1m64 e 70 kg, que adora salão de beleza, cremes, perfumes, sapatos e bolsas, livros, música, cinema, cristais e porcelanas, ontem eu teria dado tudo para, por um par de segundos - tempo suficiente para resolver a questão, ter me transformado em um brutamontes.
Certo é que avaliei as possibilidades, mas a chance de dar uma tunda de laço no verme que tem a ousadia de me atazanar era ínfima.
Ainda mais agora, com o cóccix quebrado.
É, porque se eu não estivesse quebrada, não sei não.
Eu tenho um desafeto.
Uma pessoa desprezível que, sempre que pode, faz um gesto de desdém em relação a minha pessoa.
Larga uma piadinha.
Ri, debochadamente.
Balança a cabeça quando me enxerga, e sorri, de forma irônica.
Ou, o que é infinitamente pior, sob o ângulo que se analise, persigna-se.
Faz o sinal da cruz, vejam!
Logo ele, esse ser do mal.
Sei, também, que anda por aí, fuçando, qual porco no meio da sujeira, procurando algum fato de minha vida, perguntando.
Sei de tudo, de tudinho.
Pueblo chico, infierno grande.
Pensa ele, quem sabe, que sou um lixo, uma pessoa solta no mundo, indefesa, uma completa imbecil.
Pois não sou, e talvez aí resida a origem para tanta bronca: uma inveja insuportável deve corroer o traste, um completo ignorante, burro de dar dó, esse ser opaco e insignificante.
E ontem, estando eu na casa dos meus Pais - porque é, e sempre será a casa dos meus Pais e, por tabela, a minha casa, embora a documentação diga o contrário, e já afirmo também que não estou nem aí para o que dizem os papéis...pois bem, eis que surge este Lúcifer.
Primeiro, a surpresa e o olhar de ódio, pois não esperava me ver ali, pachorrentamente sentada na cozinha, conversando e rindo.
Seus olhos soltavam faíscas.
A boca, retorcida, não conseguia articular palavra.
O ar ficou tão pesado que chegava a doer.
Então, balbuciou algumas palavras para os demais que ali estavam e, para não perder o costume, largou uma farpa na saída.
Falou baixo, o desgraçado, o covarde, o alcaide.
Falou baixo.
Quase um resmungo.
Mas ouvi, eis que ouço muito bem, graças a Deus.
Ouvi, e não gostei, e me estragou a tarde e a noite e a madrugada, pois não há coisa pior que dormir com raiva entalada.
Ali, num átimo, eu teria dado tudo, mas tudo, para voar sobre essa asquerosa cria de Satanás e surrar muito o ordinário, pois tenho certeza que lhe faltou foi laço, quando era criança.
Freio, quando era jovem.
E vergonha na cara e falta de caráter, agora que é homem.
Homem?
Não, aquilo ali pode ser qualquer coisa, menos um homem.
Homens com H, que fazem jus ao que tem no meio das pernas não se comprazem em infernizar alguém pelo simples prazer de infernizar.
Não mesmo!
Homens com H são dignos.
Respeitam.
Sabem o que precisam fazer, onde e quando, e de que forma.
Aquilo não é homem.
É, no máximo, um homúnculo.
E nem isso não é!
Como sempre, senti uma saudade insuportável do meu Pai.
Chorei muito.
Hoje cedo, entretanto, recuperada ( pela milésima vez), retomei a antiga e saborosa ideia de comprar um relho.
Um relho...
Como aquele que meu Pai tinha.
Eu vou comprar um relho.
Porque da próxima vez - que espero, ardentemente, que não aconteça - que esse muquirana de quinta tiver a audácia de me perturbar, eu vou me transformar num brucutu.
Vou ter 1m90 de altura e 120 kg.
Vou esquecer os perfumes e os cristais, a cultura e a finesse.
Anos a fio aturando deboche, fofocas, intrigas e maledicências desse jumento recalcado e maligno precisam ter um fim.
Terão.
E seremos, eu e o meu relho, os que iremos colocar o ponto final.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Contra as Probabilidades
Algo assim como decidir entre ir ou ficar, abrir o verbo e falar tudo o que via e sentia, ou optar por uma outra via de acesso.
Quem sabe, fechar todas as vias e selar um determinado período de minha vida profissional.
Angustiei-me com tais pensamentos durante meses, não vou mentir a vocês.
Cedinho, com meu inseparável companheiro de tantos carnavais - meu tradicional matecito, pensava, pesava, media, mas conclusão que é bom, nada.
Apelei, por óbvio, aos meus Santos e Santas, que a fé não costuma falhar.
E, vendo aproximar-se a data em que precisaria dar meu veredicto resolvi, de cuia e terço em punho, ter uma conversa franca com meu Deus, Aquele que tudo pode e que me fortalece; primeiro para agradecer, pois assim me foi ensinado, agradecer sempre, para depois pedir.
Chegado o dia da reunião, depois de uma noite mal dormida, levantei-me de madrugadinha e ali, no silêncio da manhã, reforcei minhas preces.
Minha cabeça estava vazia, creiam-me.
Não pensava em nada, nem sombra de discurso ou atitude a tomar apareciam.
Saí, rumo à reunião.
Eis que, no meio do caminho, precisei parar pois o trânsito havia sido interrompido por uma caminhão, no qual lia-se, em letras garrafais, a palavra mudança.
O rumo e o norte para minha fala veio num átimo, como se fosse um raio.
Senti, nitidamente, meu Pai, meu amado Pai, o meu Dr. Edgard, de um lado e, de outro, meu tio Carlos Alberto o qual, no último ano de sua vida, me fez sofrer, o que não vem ao caso agora, apenas vejo que o amor e o perdão são infinitamente mais fortes e supremos que a maldade, então, também ele, meu tio, estava ao meu lado, aconselhando-me.
Entrei para a sala da reunião e não pude deixar de notar os olhares curiosos - o que será que vai acontecer?
Eis que, contra todas as probabilidades, palpites furados e apostas, minha fala enveredou pelo lado oposto do que era esperado: o do diálogo, da união, da gratidão e do afeto.
Aqueles que foram armados até os dentes, renderam-se.
A outra banda - a podre, a maligna, essa levou uma bofetada com luvas de pelica que até os dias atuais deve estar sem entender patavina do sucedido.
Não existe coisa melhor para o ego de alguém que dar uma surra de relho nos desafetos!
Aquele episódio foi uma recolocação das coisas em seus devidos lugares, um novo desenho de forças.
Saí do local renovada e leve, com a sensação de ter atravessado uma tormenta e de ter chegado ilesa, sem nenhum arranhão.
Já na rua, não senti mais a presença dos meus seres de luz, que tinham ficado ao meu lado o tempo todo naquela manhã memorável.
Compartilho esta vivência com vocês, queridos amigos, para dizer-lhes, primeiramente que a fé, a toda certeza, remove montanhas: as montanhas da vida.
Em segundo lugar, que a força e o caráter legados por nossos antepassados emerge, nos momentos de crise, qual estrela luminosa a nos apontar o caminho.
Por fim, repriso: ante o poder do amor e do afeto, depõe-se as armas.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Memórias Afetivas
As razões pelas quais eu não gosto mais de ir a Santa Catarina , bueno, isso é outra história.
Ficou curioso?
Quem sabe um dia eu escreva sobre isso.
Mas o fato é que, como sou altamente democrática e não me agrada fazer o papel daquela que põe areia nos planos, fui.
Em nome da parceria e da unidade, fui.
Mas confesso que fui de má vontade, com o pezinho atrás.
Tanto falaram sobre Bombinhas, alçada à categoria de nona maravilha do mundo que não seria eu, uma reles mortal, a dizer o contrário.
Então, sucedeu-se isto:
Saímos de Porto Alegre pela manhã cedinho, até chegarmos, no início da tarde, a Bombinhas.
Aí começou o suplício: carros, carros, carros e mais carros; primeira, segunda, pára; primeira, segunda, pára. E eu ali, firme na paçoca, mas a procissão ia por dentro, isto é, comecei a xingar mentalmente aquele trânsito todo e a mim mesma, por ter a mania de ceder quando não estou a fim de ceder.
Lá pelas folhas tantas, chegamos.
A pousada, belíssima, realmente. A vista, idem.
Mas a praia, meu amigo, a praia, a praia é uma bomba!
Corta: eu, quando vou à praia, gosto de ir à praia, ou seja, quero andar pela areia, sentindo-a sob os pés, quero me estirar numa cadeira e me torrar ao sol, quero, mais tarde, bem mais tarde, saborear uma caipirinha, quero entrar e sair da água. Não sou como algumas mulheres que vão à praia para ficar plantando flores em seus jardins ou recebendo no final da tarde, cheias de jóias e penduricalhos, cabelinhos escovados.
Na praia, torno-me um bugre, não sei que horas são e nem tampouco me interessa, sei lá que roupa vestirei, aliás, levo pouquíssimas, haja vista que irei comprar, sem dúvida, uns vestidinhos floridos do primeiro ambulante que passar.
Feitos os esclarecimentos, vamos aos fatos:
Faixa de areia estreita, e aquilo já me deixou meio assim, afinal, veraneio no Rio Grande do Sul há décadas, com seu marzão e sua faixa de areia enorme, larga, fresquinha.
Completando o quadro, havia uma horda de hunos modernos - os argentinos, que fumavam um cigarro atrás do outro, como se estivessem na sala de suas casas, soltando aquela fumaça fétida de cigarro mata rato.
E o mar?
Bem, eu tinha a memória de um mar azul, transparente e convidativo, mas o que vi foi uma água marrom esverdeada, igualzinha a do meu amado Rio Uruguai viejo.
Ué, mas Bombinhas não era uma maravilha? eu pensava, quieta, ruminando, sob o calor abafado, que nem ventinho fresco soprava.
Nem tudo foi ruim.
No dia seguinte, fomos para Quatro Ilhas, esse sim, um lugar lindo, agradável, uma praia com cara de praia.
No quinto dia, deu-se que amanheci enjoada e aí começou o vomitório e não parou mais.
Resumo da ópera, voltamos para Porto Alegre, eu com febre e devolvendo até a água mineral que tomava e, claro, jurando a pies juntilhos que nunca jamais em tempo algum retornaria a Bombinhas, mas vão para o diabo que os carregue, praia suja, forrada de coliformes fecais, barulhenta, poeirenta, enfim, um nojo.
Dias depois, já recuperada, fui para Capão da Canoa.
No hotel que conheço, na praia que adoro.
Quando, no final da tarde, sentada num banco de uma pracinha senti aquela brisa maravilhosa vinda do mar, concluí que a intuição não falha e que as memórias afetivas, também não.
Não tinha como dar certo a minha ida a Santa Catarina.
Já em Capão da Canoa, só coisas boas vivi, momentos espetaculares passei, junto com amigos, família, conhecidos, enfim.
E ali, tudo fluiu.
Estava tão bom, que até o mar vestiu-se de um azul transparente para me esperar.
Uma semana deliciosa, que me fez esquecer Bombinhas, a bomba, e me fez prestar muita atenção àquela vozinha interior que, muitas vezes, teimo em não querer atender.
Essa foi a primeira lição de 2016: ouça mais a si mesma, menina.
Separe o joio do trigo.
Abrace suas memórias boas.
E as ruins, que se explodam.
Como Bombinhas, a bomba.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
La Espiral
Lembro que, nas noites de verão na casa de minha avó materna, Adelaida, que ficava em Alvear, usavam um repelente para mosquitos chamado Espiral.
Era uma espiral verde, pequena, engatada num pedacinho de metal. Acendiam a ponta daquela coisa fedorentíssima, a qual transformava-se em brasa e passava a queimar, lentamente, durante toda a noite.
Era um cheiro insuportável, mistura de flit com cheiro de queimado , e meu nariz, imediatamente, entupia.
Tá aí uma coisa que sempre detestei, dormir longe de casa.
Mas minha mãe maravilha adorava.
Para ela, era um programa e tanto ir passar unos dias en Alvear, en mi casa paterna, como ela dizia, à guiza de explicação.
Ocorre que não há, efetivamente, lugar melhor de se estar que na casa que nos viu nascer, crescer e embalar sonhos.
Eu, na condição de filha mais nova, criança ainda, com meus sete, oito anos, era arrastada, a contragosto para aquela
temporada, só que nada podia fazer.
Meu pai ficava no Itaqui, fulo da vida, mas não dizia nada, e nem precisava, apenas olhava para minha mãe com olhos de fogo.
O Alvear de minha infância era triste e poeirento, com seu silêncio de sepulcro na hora da sesta, momento venerado pelos argentinos mas por mim detestado, eu queria brincar, correr, nadar, mas precisava ficar quietinha, estirada sobre uma colcha que minha mãe colocava sobre o chão de ladrilhos vermelhos do corredor de entrada da casa da avó, el saguan.
Não se podia dar um pio, ou apareceriam Carlanco e Cambireca, um casal que ficava andando sob o sol escaldante do verão apenas para levar consigo crianças teimosas que não queriam sestear.
Passava o dia, naquela base, mas o brabo, mesmo, era a noite.
Sentavan -se todos na calçada sob a luz da lua e das estrelas, pois havia uma única lâmpada no meio da rua, destinada a iluminar toda a quadra.
Os mosquitos zuniam adoidado, mas ninguém parecia se importar com eles, a conversa e as risadas ecoavam, minhas tias Alba e Maria Luísa, a avó Adelaida e minha mãe, uma alegre reunião das mulheres Fernández.
Chegava a hora de dormir e o tormento começava, lembro-me tão bem da voz de minha avó para minha mãe, Kila, prede la Espiral.
Noite dos infernos, eu passava, chorando baixinho, louca de saudades do meu pai, da nossa casa, da minha cama.
Passados dois ou três dias, voltávamos para Itaqui.
Eu chegava e me atirava nos braços do meu pai, chorando e reclamando muito, e ele ria, ria a bandeiras despregadas, uma vez que ele, por seu lado, igualmente detestava o cheiro de espiral.
Muitos anos depois, me apaixonei por um argentino e aí, o Alvear transformou-se na cidade mais linda do mundo, e o cheiro de espiral ou de flit que minha tia Maria Luísa colocava no quarto usado por mim em nada me incomodava.
Eu chegava ao raiar do dia e, depois de ter dançado a noite inteira nos braços de aquel morocho divino, me jogava na cama e dormia sorrindo, inebriada com tanta felicidade.
O que não faz o amor, hem?
Mas essa é uma outra história.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
A Sapatilhazinha
Um tombo estúpido, aquela queda inocente que, num primeiro momento nos faz rir para, logo após, chorar.
Chorar de dor.
Há exatos 21 dias, caí da cadeira da cozinha.
Brincando com o gato fui, sem perceber, ladeando o corpo para um lado até que a cadeira foi para outro.
Pá!!!
Caí sentada, com toda esta almofada que carrego há dez mil anos, senti que bati forte, ouvi o barulho e pensei, te ralaste, amiga, que a pancada foi grande.
Mas, como sou uma pessoa teimosa e ignorante e acho que me curo sozinha, fui procurar o médico somente quinze dias depois, já pedindo água.
Resultado:
precisei fazer um raio x, que ainda não está pronto e, provavelmente, terei que fazer uma ressonância magnética.
Esse, o preço da glória.
Haja paciência para suportar a dor mas, acima dela, estar sem poder fazer tudo o que gosto: andar, pular, arrastar meus potes de plantas, ir ao Pilates, voltar à mil e dar uma corridinha, não está sendo nada fácil este repouso forçado.
Ponho-me a pensar nas pessoas que precisam ficar meses a fio fazendo tratamento.
Elas são um monumento à coragem e à força de vontade.
Também conclui o que todos sabemos mas que, na prática, adquire outra conotação: saúde é tudo.
Sem ela, não fazemos nada.
É, tenho pensado muito.
Penso, inclusive, nas coisas que são, para mim, urgentes: amor, carinho, afeto, amizade, companheirismo.
Considero-me afortunada, pois meu maridão faz o que pode para me agradar e levantar o astral, um tanto quanto baixo, pois não se pode pretender que uma geminiana fique lá muito alegre, olhando a caravana passar.
Soma, para meu quase ataque histérico - eufemisticamente falando, claro, sou extremamente calma...o fato de estar longe das minhas filhas: meus três amores no Portinho e eu aqui e, numa hora destas, eu quero e preciso de um colinho de filha.
Entretanto, como não tem tu, vai tu mesmo, então, dou uma de Poliana e procuro contentar-me com o que tenho à mão, e que também não é pouco: um ótimo livro, um filme, a parceria dos amigos e, claro, meu indefectível matecito.
O pior de tudo, entretanto, é que fui obrigada a comprar um sapato sem salto: uma sapatilha.
Mas é a treva!!!
Que coisa feia e sem graça inventaram, esse tipo de calçado só fica bem para quem tem 1,70m e 60 quilos, e está na faixa dos quinze aos trinta e cinco anos.
Depois, fica estranho, e por favor, não me apedrejem, estou impossibilitada de reagir.
É brincadeira, amigos!
Ocorre que eu não tinha, até a semana passada, um único sapato que não tivesse salto e agora, obrigada a usar a sapatilhazinha infame, desejo, ardentemente, poder voltar aos meus gloriosos saltos.
Quando chegar esse dia maravilhoso que, espero, seja em breve, levarei a sapatilha para lugar incerto e não sabido e que, Deus me ajude, não precise mais dela.
Porque machucada, ainda passa.
Mas ter de usar sapatilha...aí já é castigo!
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Abotoadinha
Às vezes, um par de dias e uma mudança de ambiente costumam fazer milagres.
Passar por situações que nunca imaginou vivenciar, conhecer pessoas diferentes daquelas com quem convive há tempos levam você a pensar que, se faltava alguma coisa para fazê-lo sair de sua zona de conforto e mudar de atitude em relação à vida, pronto, esse era o impulso necessário.
Durante anos, ficamos num emprego onde não nos valorizam, num relacionamento médio, numa cidade que nos deprime, aturando o vazio em que se transformou nossa vida, até perceber que as oportunidades são infinitas, desde que haja, fundamentalmente, duas coisas:vontade e coragem para mudar.
O que virá depois, só Deus sabe, mas tudo é melhor que viver estagnado e com a terrível sensação de que você é uma pessoa descartável, dispensável, e que deve ficar bem quietinha ouvindo pito e opiniões de quem pensa que está por cima só porque grita mais.
Quando você tem o prazer de rebentar a corda que está te enforcando e coloca um ponto de basta no tempo que passou abotoadinha, presa a circunstâncias que um dia foram ótimas mas que, por uma ou outra razão, deixaram de sê-lo e poder voltar a ser quem você realmente é, resgatando a si mesma é como respirar um ar novo e puro.
Poder mirar -se no espelho e enxergar a sua imagem verdadeira, livre daquela roupagem velha, incômoda e bolorenta é uma sensação de leveza indescritível.
Que tenhamos, sempre, a ventura de poder abraçar o novo!