quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Perdimentos e Reencontros

Durante longo tempo, cavalguei num Tordilho todo enfeitado.
Fiz questão de adornar meu cavalo negro com as plumas da arrogância e da insensatez e saí, mundo afora, sem olhar para os lados e, muito menos, para trás.
Não pensava no dia de amanhã, qual o quê!
Batia, em meu rosto, o vento morno da indiferença para com meus semelhantes e seus males.
Imaginava, em minha completa ignorância, que fazer caridade, ser "bom" e ir a Missa regularmente seria uma espécie de salvo conduto que me livraria "de todo o mal, amém".
Naquele tempo de tamanho perdimento existencial,  exibir-me com meu corcel emplumado, andando para lá e para cá, acompanhada pela cegueira do egoísmo, era o que me bastava.
Eu pensava que era boazinha e que o fato de não praticar atos ruins e cruéis seria suficiente.
Ledo engano.
Percorri anos a fio esse caminho, impulsionada pela soberba e, tão deslumbrada estava que não me dava conta que ia deixando, por onde passava, partes de mim, e me perdendo dos outros, ignorava solenemente os que encontrava ao longo desta via chamada Vida.
Quando, um belo dia, surgiu a minha frente um obstáculo que me obrigou a interromper, subitamente e sem aviso a marcha da vaidade, o Tordilho se empinou e quase me derrubou.
Ficamos parados ali, nós dois, olhando a cena que começava a se desenrolar a nossa frente.
Desci do cavalo, e rápido, pois não houve tempo para questionamentos.
Pouco a pouco, livrei-o dos seus muitos adereços, todos eles, concluía eu naqueles momentos, absolutamente inúteis: a arrogância saiu de fininho, envergonhada; a insensatez cedeu lugar às interrogações; a indiferença deu passo à solidariedade e me fez enxergar coisas dantes nunca vistas; o egoísmo, apavorado, escafedeu-se.
O Tordilho confundiu-se com o pretume da noite sem Lua, e também desapareceu.
A pé e sem enfeites me vi, diante de um caminho desconhecido e assustador.
Noite escura, breu, e a solidão e o medo.
Muito medo.
Para onde irei?
Eis que, pouco a pouco, começaram a aparecer algumas luzes.
E pessoas, muitas pessoas!
Cada uma delas segurou minhas mãos e foram me impelindo a seguir adiante, um passo e outro passo, um dia e outro dia.
De repente, não estava mais só.
A beleza da amizade, a pureza dos amores, o abraço solidário e desinteressado e sincero devolveram-me tantas coisas que eu havia perdido pelo caminho que, desse reencontro comigo mesma, resgatei um valor esquecido, mas fundamental: a humildade.
Agora, ando sobre minhas próprias pernas, de mãos estendidas para os outros, com os outros e pelos outros.
Não mais me interessam as futilidades que tanta energia me roubaram, menos ainda, tordilhos ajaezados.
Há tantas riquezas a nossa volta que, quando olhamos de cima, sequer percebemos: nossos bichos de estimação, flores, um céu lindo e um sol radiante, a chuva que cai e renova tudo, estar ao lado de quem amamos,ajudar quem não conhecemos...
Este é o primeiro capítulo de uma história de muitos reencontros.
Aguardem os próximos!










quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Missa De Formatura

Ontem foi a Missa de Formatura de minha filha Karina, Formanda no curso de Nutrição.
Chegar a PUCRS, por si só já é algo que me emociona.
Ali estudei, fiz amigos, namorei muito um estudante de jornalismo da FAMECOS, ri a bandeiras despregadas a ponto de o professor de Processo Civil me pedir para que eu me retirasse da sala de aula, chorei quando tirei quatro em Direito Tributário, chorei quando tirei dez em Direito Comercial mas chorei, mesmo, quando vi meu nome na lista dos que haviam concluído a graduação.
De tudo isso lembrei quando entrei, pela quarta vez, na Capela da universidade.
Minha Missa de Formatura foi às dez horas de uma manhã quente, mas meus Pais e eu estávamos tão felizes que não nos preocupamos com o calor.
Não havia ar condicionado, quiçá tivesse uma meia dúzia de ventiladores, mas nós, apinhados ali - turma grande, mais familiares, apenas sentíamos a ventura de poder agradecer a Deus.
Era o que bastava, era a medida perfeita.
Passaram-se trinta e quatro anos daquele 29 de dezembro de 1983 e, até a presente data, formei três filhas na mesma universidade.
Uma glória, admito, sem qualquer modéstia.
Pois não foi fácil para mim, mãe italianíssima e argentina, ver minhas filhas saírem de casa para escrever suas próprias histórias e começar a semear no campo de sonhos, iniciando a arquitetura de seus destinos com a semeadura de todos os dias, das noites passadas em claro estudando para provas, dos domingos e feriados inexistentes, da saudade de casa, das massas miojo, salsicha e ovo cozido, do estágio obrigatório, da elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, da correria para conseguir conciliar estágio remunerado, estágio obrigatório, apresentação do TCC, provas finais e, finalmente, poder dizer, com aquela felicidade sem igual: "terminei, conclui, acabou, agora, só pela Formatura"!
Quem viveu esses momentos únicos sabe do que estou falando.
E eis que, mais uma vez, de outra Missa de Formatura me toca participar.
Quanta emoção ao entrar naquela Capela linda!
Sou chorona de carteirinha mas banquei a forte, afinal, quantas vezes vi esse filme, disse a mim mesma...
Não!
Nada de forte, nada de "sem lágrimas", nem pensar.
Não vou fingir que sou outra pessoa.
Aqui está uma mãe agradecida a Deus por todo esse caminho percorrido, orgulhosa de suas filhas, feliz.
Portanto, quando o coro iniciou " Tu és, Senhor, o meu Pastor, por isso nada, em minha vida, faltará", abri as comportas.
A maquiagem foi pro brejo, os olhos ficaram vermelhos, meras insignificâncias ante a celebração de mais uma vitória da persistência, da tenacidade, do estudo, da busca incessante pelo saber, do amor pelos livros.
Saboreei cada minuto daquele encontro com Deus e com as coisas que elevam nosso espírito.
Saí da Missa de Formatura com o coração alegre e sereno, sentindo na boca o gosto de uma fruta bem doce, colhida após anos de árdua semeadura.

















quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O Movimento Do Rio

Hoje acordei e meu pensamento foi ao encontro de todas as pessoas que não estão mais aqui e lembrei, com certa inquietação, a data marcada no calendário: Dia De Finados.
Tomei meu sagrado mate bem quieta, espiando a manhã de sol, ouvindo o trinar dos pássaros e o som do vento.
Muito vento, aliás; vento norte, daquele que faz redemoinhos de poeira nas esquinas.
Tenho duas alternativas, conclui:  rendo-me à tristeza e à melancolia e sigo aqui, sentadita, ou subverto a ordem das coisas e saio para uma bela caminhada, e não será um vento qualquer que me deterá.
Assim fiz, mas sem deixar de sentir aquela sensação, escondida em um canto da alma e que, volta e meia, vinha cochichar nos meus ouvidos, hoje é Dia de Finados, hoje é Dia de Finados...
Fiz ouvidos de mercador e tomei o rumo de um parque onde costumo caminhar.
Entretanto, entretanto...
Geminiana, sou geminiana...
Fui para a direção oposta, e andei, andei, até chegar na beira do rio.
 Meu Rio Uruguai amado, e tenho a audácia de chamá-lo de "meu" porque sim, temos uma comunhão de toda a vida.
Lá estava ele, lindo, imponente e revolto, agitado pelo vento, a cor marrom escuro (embora tenha dias em que está verde) e suas águas, para lá e para cá, soberanas, indiferentes às horas, aos dias e ao tempo.
Sempre andando, em contínuo movimento.
Parei, absorvendo aquele ar e sentindo o cheiro inconfundível do rio, mistura de terra, água e peixe.
Lindo, lindo!
Olhei para o outro lado da margem, onde fica a cidade de Alvear, República Argentina, berço de minha Mãe, de meus Avós e Tios, lugar de amores.
Nenhuma dessas pessoas está mais lá.
Passaram, como as águas do rio.
Mas deixaram em mim sua marca e seu legado.
Ocorreu, então, dessas magias que muitas vezes nos alcançam, e aquela sensação que eu trouxera comigo num canto escondido da alma e que insistia em cochichar para mim saiu  e foi-se embora, carregada pela correnteza.
Inspirei com força, mais uma vez, aquele ar puro e límpido, e empreendi o caminho de volta para casa.
Junto comigo vinham, de mãos dadas, as lembranças de todos as pessoas que amei, amo e amarei até fim dos meus dias e a força que todos eles, sem exceção, me transmitiram e me transmitem, diariamente.
De um outro plano, de novos lugares, mas a energia é palpável.
Suas presenças, inconfundíveis.
A melhor forma de homenagear a memória daqueles que me são caros, pensei, é vivendo.
Viver com alegria,  intensamente, celebrando todos os dias o milagre da vida, enfrentando com galhardia os ventos nortes que surgirem.
Como o movimento do rio, cujas águas sempre se renovam, a vida exige que sigamos e nos impulsiona na direção dos muitos caminhos que, diariamente, se abrem para nós.
Finda a caminhada, persistia o vento norte, mas tampouco ele me incomodou, ao contrário: lembrei da frase de Fernando Pessoa,  que serviu como uma luva para mim:
" Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".









terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Fim Dos Românticos

Haverá, ainda, algum romântico?
Restará alguém que ainda acredita na magia de um encontro onde somente os olhos dirão o que desejamos?
Pequenos gestos, fisicamente quase que imperceptíveis, mas reconhecidos pelo coração?
Terá restado um homem ou uma mulher que goste de dançar de rosto colado?
Andamos tão ocupados com as redes sociais e em aparentar, sofregamente, uma pseudo felicidade, que esquecemos as pessoas que estão ali, em carne e osso.
Há uma pressa desmedida em chegar a algum lugar, ao que parece.
Mas, amigos, onde ficaria esse paraíso, que seria a coroação de tamanho apuro?
Constato, não sem uma ponta de tristeza, que os poucos românticos que porventura sobreviveram a essa avalanche de falsidades publicadas estão cada vez mais isolados em seus delírios e lembranças de um tempo que, definitivamente, terminou.
Uma lástima, na verdade.
Hoje, ao que tudo indica,  não há motivo algum para celebrar o amor romântico, aquela maravilha de sensação, que enlevava a alma e fazia sonhar.
Não mais!
Nos dias atuais, precisa ser discutida a conta da luz, o salário parcelado, os rumos da política e suas implicações, o gás que subiu, a destinação do lixo...
Tudo politicamente correto, sim, só que ninguém lembrou de deixar um espaço para o romantismo.
De igual modo,  vejo que, em razão de tantos apelos e facilidades de toda ordem, e em nome de uma igualdade em tudo e por tudo, conquistar ( conquistar? que palavrão é esse?) alguém é tão fácil como ir até a padaria da esquina e comprar um quilo de pão.
Lamentável, mas é o que se vê.
Aos românticos, uma vez decretado o seu fim, nada mais restou, a não ser  ir parar em  outro planeta e lá,  na voz incomparável de Ella Fitzgerald,  ouvir Isn't it Romantic e dançar abraçados, levados pela "magia na noite, um sonho pode ser ouvido".






sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Novas Histórias de Lucrécia, A Peidorreira

Lucrécia decidira candidatar-se a prefeita.
Depois de muito pensar e de consultar as bases, estava decidida a lançar-se a mais esse desafio.
Foi fácil passar pela Convenção do seu Partido, o PUNM (o nome era uma infame coincidência que nada tinha a ver com o hábito pouco ortodoxo de Lucrecita, de peidar siempre que se le dava la gana)) - Partido da União Nacional das Manobras, muito embora alguns invejosos de plantão e outros tantos burraldos tivessem torcido o nariz quando ela, microfone em punho, apresentara sua plataforma eleitoral.
Foi um coro de "ohhhh e ahhhh" que, ao fim e ao cabo ela não sabia bem se eram de aprovação ou escárnio, mas o fato é que agora ela era candidata.
C a n d i d a t a.
Sacramentada essa condição, jogou-se com tudo na busca pelo voto, dentro da mais absoluta legalidade, evidentemente, eis que não queria incômodos.
E do que ela mais gostava era de participar dos comícios que, durante a semana aconteciam  nos bairros da cidade.
Sempre acompanhada de sua fiel escudeira, sua mãe, la señora Babu a qual, de tanto caminhar pelas ruas sem calçamento e tapadas de buracos, torcera um dos joelhos.
Lucrécia tinha advertido, "Mãe, não tens condições de andar assim, horas a fio, comendo poeira e ralando os pés".
Não teve argumento, pois la señora Babu  alegava que nada costumava escapar de seus olhos de lince.
Ademais, precisava estar junto para tentar controlar Lucrécia, a incontrolável peidorreira.
Aquilo ficava chato, afinal.
Lucrécia, como sempre,  nem tava!
Caminhava rápido com uma enorme bandeira do PUNM tremulando ao vento e, a cada passo dado, peido largado.
Uma vergonha!
Será que ela pensava que ninguém ouvia aqueles sons?
Azar do guarda, andam comigo por que querem e sabem do meu valor, do tamanho dos meus projetos, o resto é figuração.
A campanha ia de vento em popa e Lucrecita era líder em todas as pesquisas:
" a candidata mais votada", diziam, a boca miúda; "ganha de lavada", vaticinavam.
A chegada de Lucrécia aos  comícios era uma verdadeira apoteose, todos queriam vê-la e ouvir suas promessas, pouco importando quão mentirosas fossem:
- Educação para todos!
E o povo gritava: huhuhuhuhuhuhuhu!!!
- Asfalto!
Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!
- Saúde!
Rufar de tambores!!!
Lucrécia, radiante, acenava para todos do alto do palanque.
Aquilo, para ela, era uma cachaça: adorava!
Ao término de cada comício, chegava em casa destruída, suada, coberta de pó e sem voz.
La senõra Babu vinha logo com uma gemada, à qual misturava um cálice de vinho do Porto.
Para recuperar a voz e o ânimo, dizia.
Y, claro, algo más: prrrrrrrrrrr
No último comício, realizado na praça da cidade, compareceram todos os caciques do Partido, além de vários deputados estaduais e federais, candidatos a vereador e assessores da campanha.
Lucrécia queria impressionar, e conseguiu.
Surgiu no palanque usando um conjunto branco de calça e blazer, apesar do calorão.
Era chique usar somente uma cor, dissera-lhe a assessora para assuntos institucionais e outras ervas.
Não convinha mostrar muito os braços, falara outra.
Ninguém ousava fazer a complexa recomendação: contenha-se, candidata; não peide...
Tratando-se da indomável Lucrécia sabiam que de nada adiantaria, pois nela ninguém conseguira, até o momento, colocar freio.
Compareceram naquele memorável comício em torno de duas mil pessoas, a quais acotovelavam-se para ver e ouvir a que seria, sem sombra de dúvidas, a próxima prefeita.
A balbúrdia era grande: misturavam-se os sons das palmas, os gritos, parte de uma bateria da escola de samba de  Lucrécia ( sim, ela era a l u c i n a d a por Carnaval), as bombas, o apito dos  pipoqueiros, dos vendedores de algodão doce e de churrasquinho.
Milhares de bandeiras do PUNM tremulavam, alegremente.
Lucrécia, a última a falar naquela noite fantástica, foi recebida com uma ovação do público que mais parecia um tsunami:
 Lucrécia, Lucrécia, Lucrécia, gritava o povo, alucinado.
E ela, enrolada na bandeira do Partido, tão feliz estava que soltou todos os peidos possíveis e imagináveis, ria sem parar olhando, de esguelha, as caras constrangidas dos expoentes da política remexendo-se, loucos para sair dali.
Sou coerente, ela pensava: afinal, a política está, ou não está, uma podridão?
Por essa razão entrei nesta briga: vou mudar esse estado de coisas!
O resultado de tamanha empatia com sua gente não poderia ter sido outro.
Lucrécia, a Peidorreira, sagrou-se vencedora e, no primeiro dia de janeiro do ano seguinte, tomou as rédeas do município!
Imagine, querido leitor(a), quantas histórias virão por aí...



















Traga-me Uma Flor

Traga-me uma flor
Surpreenda-me
Colha para mim
a florzinha do jasmim

Traga-me uma flor
Presenteie-me
Pode ser a margarida
alegre e cheia de vida

Traga-me uma flor
Encante-me
Vá lá e colha uma rosa
De qualquer cor
Poderosa

Traga-me uma flor
Quem sabe uma sempre-viva
Para que eu possa sentir
A magia do amor

Traga-me uma flor
Qualquer flor
Não importa
Pois quem bate a minha porta
Com uma flor na mão
Traz o que há de mais belo
Puro, lindo e singelo
Toca meu coração
















terça-feira, 3 de outubro de 2017

Piccolomini Caleche

Impressionante como um simples objeto pode evocar tantas recordações e me fazer sentir saudade.
Saudade da minha Mãe Maravilha, já estamos em outubro, talvez seja isso, memórias de um lapso de tempo que foi tão difícil para ela e para todos nós, e mal sabíamos que também ela iria logo embora.
Certo dia falei a uma amiga: eu era uma Lia, agora sou outra.
Com eles.
Sem eles.
Às vezes, sequer me reconheço.
Acredito que aprendi a viver longe deles.
Mas é, no mínimo, complexo.
A saudade, entretanto, aparece quando menos se espera.
Um dia tão lindo de primavera e eu ali, organizando alguns enfeites, e eis que me deparo com um pequeno pratinho, de fundo branco, onde de vê, pintada em tons de verde,  uma pequena carruagem e a inscrição: Piccolomini Caleche.
Eu sempre tive predileção por esse pratinho, o qual ficava, na casa da Mãe,  sobre em um móvel, equilibrando-se num suporte.
Decidi guardá-lo dentro de uma armário, talvez por medo que se quebrasse, e acabei esquecendo e hoje, justo hoje, me cai nas mãos o prato, lindo como sempre, perfeito em sua expressiva simplicidade.
Então fiquei repetindo, em voz baixa, piccolomini caleche, piccolomini caleche, e nada mais foi necessário para que as lágrimas começassem a cair.
Tirei o prato e o respectivo suporte do armário e coloquei-o sobre uma mesinha, bem à vista.
Ele é tão belo que não merece ficar encerrado, para que ninguém o veja.
Vou cuidar para que não se quebre, para que permaneça inteiro como o amor que sinto e que distância alguma será capaz de fazer diminuir ou desbotar.
A saudade é assim, quando menos se espera, vem.
Eu bem que tentei fugir dela, escondendo-me aqui e ali.
Não adiantou.
Ela chegou, pegou a minha mão e, sentadas lado a lado,  entabulamos uma silenciosa troca, suave e leve como o andar de uma piccolomini caleche.
Da mesma forma que chegou ela foi embora,  não sem antes secar minhas lágrimas e deixar um rastro de perfume no ar.
O perfume da minha Mãe, aquele cheiro de alfazema que só ela tinha.
Mãe, tenho absoluta certeza que, de onde estás, teu amor me ampara e me protege.
Pois, como afirmei incontáveis vezes, o amor nunca morre.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Gerúndio E O Tempo

Vento norte assoviando
temporal se aproximando
tudo se movimentando
E Gerúndio só olhando
Pensando que era passado
E por isso acomodado
Inerte só observando
Ficava ali bem sentado
Parado sem se mexer
Não sabia o que fazer

E o Tempo disse a Gerúndio
Estou aqui observando
A medida que vou passando
O quanto você se detém
Num chatíssimo vai e vem
Procurando e indagando
Enquanto isso vou passando
E até zombando de você

Vá achando
Que é meu dono
Não é não!

E Gerúndio despertando
Desafiou o Tempo
E pensando
Viu passar
A tempestade
Concluindo que a bondade
O afeto
E o amor
Afastando todo o mal
Mudaram o tempo verbal

O Tempo, admirado
Curvou-se ante Gerúndio
E para ele falou
Você não está passando
Tampouco você passou
Estou do seu lado agora
Vamos passear mundo afora
E ver que tudo mudou


















quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A Lagartixa do Teatro

Manu nasceu e se criou no Teatro Prezewodowski.
Desde pequena, embrenhava-se pelas cortinas do palco e passava despercebida das pessoas que, diariamente, apareciam por ali.
Não que ela sentisse medo, mas sua mãe, a lagartixa Tibérei, que viera do mundo das fadas, dissera-lhe que deveria ter muito cuidado com os humanos, para que estes não a machucassem.
Entre luzes e sombras Manu passava seus dias, encerrada em seu pequeno mundo, caçando mosquitos, moscas e outros insetos que habitavam por ali.
No verão, dona Cotinha, a encarregada da faxina, abria todas as janelas e a luz do sol e a brisa do dia inundavam todos os espaços, trazendo uma sensação agradável que fazia Manu suspirar, e sonhar.
Sonhar, era o que ela mais fazia.
Acreditava que lá fora, para além do Teatro, certamente descortinava-se um outro mundo.
Entretanto, sentia medo.
Ficava insegura pois não sabia o que poderia haver para além das cortinas, que a deixavam invisível, o que não deixava de ser confortável; de suas velhas conhecidas, as paredes, nas quais dependurava-se quando queria; dos estofados onde, no inverno, petiscava uma que outra baratinha.
Entretanto, Manu cresceu e aquela inquietação só fez aumentar, e chegou ao ápice no dia em que, deslumbrada, assistiu a um espetáculo de balé, um show de luzes e cores que fez seus olhinhos arderem, mas ela não conseguiu parar de olhar.
Colada na cortina do palco, viu toda a movimentação dos bailarinos, as entradas e as saídas, os passos, os giros, os saltos.
Escutou a música inebriante, os aplausos e a alegria ao término do espetáculo e ali, naquele instante, resolveu que desceria da cortina, caminharia até a porta e iria embora do Teatro.
Passara toda sua vida sem correr qualquer risco.
Por um lado, pensava ela,  isso era muito bom: a previsibilidade dos dias.
Por outro lado, tal inércia não lhe permitia conhecer novos palcos e, via de consequência, comungar de outros espetáculos.
Quando se fecharam as cortinas, Manu permaneceu ali, quieta.
E, à primeira claridade do dia que nascia, esgueirou-se Teatro afora, e saiu.
A luz do dia quase a cegou, mas logo ela encontrou o tronco de uma árvore e, dali, abraçou o mundo.
Adaptou-se às mudanças, e quando sentiu o gosto incomparável da liberdade, jurou para si mesma que nunca mais permaneceria escondida pelas cortinas: nascera para ser protagonista, e não coadjuvante!






segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Outra vez, é Primavera!

Depois de um tempo fora,  período que entendi necessário para conseguir lidar com questões de difícil trato, eis-me aqui.
Eu sei que neste mundo virtual a medida do tempo é feita de forma instantânea.
Paciência.
Antes de mais nada, agradeço a minha meia duzia de fãs de gatos pingados que, insistentemente, me cobravam postagens, fato que me deixa feliz.
Mas a minha escrita é assim, geminiana como eu: dias em que está a fim, horas em que se recolhe para elucubrações e movimentos internos.
Refugia-se em algum lugar onde o acesso está interrompido e somente os pensamentos podem entrar, estes últimos nem sempre bons.
Pesados, tristes, lúgubres e sem encontrar a porta de saída, perdidos em labirintos escuros.
Em nada combinavam, tais pensamentos, com minha forma de encarar a vida.
Entretanto, há momentos em que precisamos mergulhar e ir até o fundo, onde há areia, ou sedimentos, ou pedregulho.
Ou o nada.
Ou o vazio.
Mas a descida é inevitável, um processo onde não há controle e nem deve haver, pois para que possamos novamente ver a luz,  é necessário mergulhar nas profundezas.
Desnuda-se a alma, sente-se o frio da incerteza, da falta de respostas, das indefinições.
E a gente segue descendo, de início distanciando-se da luminosidade, que está logo ali, acima, mas continuamos a descida rumo às respostas que desejamos ter, ou ver.
Há um momento libertador em que, chegados ao final dessa trajetória, há dois caminhos: permanecer no escuro, ou buscar a luz.
Esse tempo de reclusão e de busca, de auto conhecimento foi fundamental para mim.
Divisor de águas.
Muito mais fácil seria permanecer em minha zona de conforto, sem questionar nada,  contentando-me com a falta do riso escancarado, da alegria.
Mas quem disse que a vida é fácil?
Quem afirmou que viver não implica desafios constantes, e uma coragem que muitas vezes não temos e nem sabemos de onde tirar?
Eu, quando me deparo com situações complexas, me recolho.
Recolho-me a minha insignificância.
Vou até o fundo do poço, desço, me rebento toda, me debato com um sem número de fatos, com uma lista de cobranças internas as quais somente eu tenho acesso.
Como disse, esse processo faz parte do meu "eu".
Não sei vivenciar mudanças apenas movimentando móveis e adornos, pois o primeiro movimento há de ser - e é, o interior.
Feito isso, zeradas as pendências, retorno.
E, não por acaso, findou o inverno e começou a primavera.
As estações do ano, neste ano, me acompanharam.
Após um outono gris e um gelado inverno, volto na estação das flores, onde tudo renasce e floresce novamente, sob a luz mágica do sol.
Minha alma e meu coração reencontraram-se outra vez e,  ao olhar para trás, dou-me conta do quanto caminhei e do esforço que fiz para nadar, nadar, e chegar outra vez na praia.
Por que sou assim: " aprendi, com as Primaveras, a me deixar cortar, e voltar sempre inteira."
Então, queridos leitores, me aguardem, pois muitas histórias virão por aí.
Um beijo em cada um de vocês!