A gente conversa com uns e outros e todos são unânimes quando afirmam que nada é por acaso.
Nesta minha jornada em busca da cura tenho experimentado sensações dignas de nota, e o objetivo de por no papel as vivências desses dias difíceis é dividi-las e quem sabe poder ajudar outras pessoas, ainda que de uma pequena maneira.
O corpo físico fica decrépito, feio, sem viço, sente os traumas.
O espírito, entretanto, embora acabrunhado num primeiro momento, logo se reergue, apoiado em nossas crenças, na fé que nutrimos e alimentamos dia após dia, mesmo naquelas horas negras em que só fazemos chorar.
Duvidar do poder Divino, jamais!
Assim aconteceu comigo, e faço este relato para que fique gravado:
Internada para exames pré operatórios uma semana antes da cirurgia, vivi dias tristes, cinzentos, onde sentia um profundo desespero e uma vontade infernal de cortar a pulseira de identificação de paciente e sair em desabalada carreira rumo à liberdade.
Que liberdade? Eu estava doente e precisava permanecer ali.
Não tem plano B, me disse uma amiga.
Verdade.
Não havia escapatória.
Das janelas amplas do corredor do andar onde eu estava olhava a rua, de uma lado, e a parte interna do hospital, do outro lado.
Decidi me exercitar.
Subia e descia a escada entre os andares, várias vezes ao dia.
Olhava pelas janelas e agradecia a Deus por mais um dia, por estar sendo cuidada, por ter bons médicos, pela minha disposição de lutar e de vencer, pois se não havia plano B para sair dali, tampouco eu pensava em outra coisa que não a cura completa.
Lutar e lutar até vencer.
Lembrava de meus avós e de suas vidas, de meus tios e tias, de meu Pai e de minha Mãe, e pedia forças.
Pedia e pedia, pois acreditava, e acredito.
E fui atendida, regiamente recompensada.
Refiro-me, aqui, às sincronias que aconteceram.
Havia uma enfermeira que olhava para mim e sorria. Sentia pena, eu sei, pois ela via meu sofrimento.
Certa noite ficamos no corredor conversando abobrinhas e, a certa altura, ela me perguntou: de que signo tu és?
E eu: de gêmeos.
E tu?
Sou do dia 21 de junho.
Amigos, 21 de junho era o dia do aniversário de meu avô paterno, Atílio.
Na hora, pensei, e falei a ela: meu avô Atílio está aqui, me dando força através de ti.
E ela: nada é por acaso...
Na véspera de um dos tantos exames que fiz passei uma noite insone, a tal ponto que desisti de tentar dormir e fiquei recostada na cama, esperando o dia chegar, mas num certo momento cochilei, e sonhei, vi, e senti:
Recostado sobre a janela do quarto, em pé, olhando para mim estava Emanuel, com suas vestes brancas.
Olhava, sério, e não dizia nada, mas estava ali.
Logo após, meu grande e amado amigo Michel Ayub, que não está mais aqui há mais de vinte anos surgiu ao lado e, rindo, me disse, " não te preocupa com isso, tu não tens nada, que bobagem, ficar preocupada", e continuou rindo, a tal ponto que senti um sopro de ar morno em meu ouvido direito.
De fato, meu exame do dia seguinte não apresentou nenhuma alteração, tudo certo.
Estava liberada, e teria que retornar em dois dias para a cirurgia.
Já em casa, minha filha Marina me presenteou com uma sessão de Reiki e lá fui, feliz da vida, pois estar no espaço de terapia alternativa de minha querida amiga Renata Duarte é uma bênção e um luxo.
Ao término da sessão, ela encerrou com a Oração de Proteção a São Miguel Arcanjo.
Fiquei tão impressionada com seu conteúdo que fui pesquisar e, por óbvio, também passei a rezar e a pedir por sua intercessão.
São Miguel Arcanjo, o Príncipe das Milícias Celestes, o Guardião do Paraíso, o Anjo mais próximo a Deus, invocado para por quem necessita de cura e de força para enfrentar uma dura batalha, cujo nome, em árabe, é Michel...e o meu amigo Michel era árabe...
Emanuel, que significa " Deus está conosco"...
E, já no bloco cirúrgico, veio falar comigo o anestesista, e me contou que é uruguaio e eu disse a ele que minha Mãe era argentina e ele, prontamente, me abraçando, começou a cantarolar uma música que ela cantava para mim quando eu, criança, me machucava ou ficava doente: sana sana, culito de rana, si no sana hoy sanará mañana.
Não tive como não pensar que, com milhares de anestesistas, me tocara justamente aquele, que cantou para mim uma musiquinha infantil em espanhol, a língua materna...
Estaria minha Mãe ali comigo, sabendo de toda minha aflição e medo?
Esses fatos aconteceram comigo e hoje, quatro dias após a cirurgia, considerada um sucesso pelos médicos, estou em casa me recuperando, me recompondo e, mais do que nunca, firme em minha fé em Deus e em seus Anjos e Santos, em meus seres de luz que, de uma ou de outra forma, se fizeram presentes nos momentos mais duros da minha vida.
Realmente, queridos amigos, nada é por acaso!
segunda-feira, 16 de abril de 2018
quarta-feira, 21 de março de 2018
A Fé Que Nos Sustenta
Quando nos deparamos com um diagnóstico ruim, vários caminhos surgem a nossa frente.
Em um primeiro momento, o impacto causado pela notícia de que estamos doentes nos empurra para um abismo que se abre diante de nossos pés, e onde só há escuridão.
Um torvelinho de emoções desencontradas passa por nossa cabeça, um sem fim de questionamentos vêm à tona, e o que sobressai, sem sombra de dúvidas, é o medo.
Medo do que teremos que enfrentar, da longa e desconhecida estrada que precisaremos percorrer, e de não termos mais o controle de nossas vidas.
Não podemos mais dispor do tempo como dantes.
O relógio está correndo e os ponteiros enlouqueceram, pois quando precisamos que o tempo passe rápido, ele teima em ficar se arrastando; se queremos detê-lo, o dia seguinte chegou.
Sem embargo da negritude inicial, um dia acordamos e enxergamos pequenas chamas que brilham: são as escolhas, acenando para nós.
Embora elas estejam ao nosso alcance, somos capazes de ficar chorando muito em um dia lindo de verão, diluindo-o em lágrimas que não cessam de cair e ensopam o rosto, a blusa, a saia, a almofada...
Depois de longo tempo, sobram olhos vermelhos e inchados, um nariz roxo, e uma sensação de vazio.
Esses são os primeiros dias.
Mais adiante, num segundo momento, começamos a reagir.
Lentamente, é verdade, pois há noites insones, nas quais o sono vem mas logo vai embora e ficamos perdidos num redomoinho de pensamentos lúgubres.
Entretanto, o pânico vai cedendo lugar a uma certa serenidade, e eis que vão surgindo ao longo desse percurso pessoas que nos estendem as mãos, verdadeiros anjos, muitos deles anônimos que sequer nos conhecem, mas fazem questão de dizer aquela palavra solidária e afetiva.
A família e os amigos se manifestam e, no dizer de Cícero, " E quando você menos espera, um abraço te surpreende com poder de cura".
Sim, os abraços são curativos!
Mas o que realmente nos impulsiona para a frente e nos faz sair da condição paralisante imposta pelo medo é a fé.
A fé, em suas mais distintas manifestações e singularidades e formas de expressão é a via que nos leva a acreditar novamente em coisas boas, a ir à luta, a sair do torpor e a encarar de frente todos, mas absolutamente todos os desafios.
Todos os caminhos levam a Deus, essa Energia Divina que nos faz acordar e enxergar um novo dia.
É Deus quem nos dá a força necessária para transpormos as pedras e os obstáculos ao longo da via.
Postos à prova, nosso maior pilar de sustentação é a Fé.
Essa Fé nos afasta do abismo, das noites de triste vigília, dos dias em que tentamos parar de chorar e simplesmente não conseguimos, cedendo lugar a um tempo novo.
Optamos por sorrir e vestir a roupa da coragem, tendo a Fé como escudo protetor e a esperança como fiel escudeira.
Escolhemos repensar nossos valores e atitudes, valorizando cada minuto desta dádiva chamada Vida.
Em um primeiro momento, o impacto causado pela notícia de que estamos doentes nos empurra para um abismo que se abre diante de nossos pés, e onde só há escuridão.
Um torvelinho de emoções desencontradas passa por nossa cabeça, um sem fim de questionamentos vêm à tona, e o que sobressai, sem sombra de dúvidas, é o medo.
Medo do que teremos que enfrentar, da longa e desconhecida estrada que precisaremos percorrer, e de não termos mais o controle de nossas vidas.
Não podemos mais dispor do tempo como dantes.
O relógio está correndo e os ponteiros enlouqueceram, pois quando precisamos que o tempo passe rápido, ele teima em ficar se arrastando; se queremos detê-lo, o dia seguinte chegou.
Sem embargo da negritude inicial, um dia acordamos e enxergamos pequenas chamas que brilham: são as escolhas, acenando para nós.
Embora elas estejam ao nosso alcance, somos capazes de ficar chorando muito em um dia lindo de verão, diluindo-o em lágrimas que não cessam de cair e ensopam o rosto, a blusa, a saia, a almofada...
Depois de longo tempo, sobram olhos vermelhos e inchados, um nariz roxo, e uma sensação de vazio.
Esses são os primeiros dias.
Mais adiante, num segundo momento, começamos a reagir.
Lentamente, é verdade, pois há noites insones, nas quais o sono vem mas logo vai embora e ficamos perdidos num redomoinho de pensamentos lúgubres.
Entretanto, o pânico vai cedendo lugar a uma certa serenidade, e eis que vão surgindo ao longo desse percurso pessoas que nos estendem as mãos, verdadeiros anjos, muitos deles anônimos que sequer nos conhecem, mas fazem questão de dizer aquela palavra solidária e afetiva.
A família e os amigos se manifestam e, no dizer de Cícero, " E quando você menos espera, um abraço te surpreende com poder de cura".
Sim, os abraços são curativos!
Mas o que realmente nos impulsiona para a frente e nos faz sair da condição paralisante imposta pelo medo é a fé.
A fé, em suas mais distintas manifestações e singularidades e formas de expressão é a via que nos leva a acreditar novamente em coisas boas, a ir à luta, a sair do torpor e a encarar de frente todos, mas absolutamente todos os desafios.
Todos os caminhos levam a Deus, essa Energia Divina que nos faz acordar e enxergar um novo dia.
É Deus quem nos dá a força necessária para transpormos as pedras e os obstáculos ao longo da via.
Postos à prova, nosso maior pilar de sustentação é a Fé.
Essa Fé nos afasta do abismo, das noites de triste vigília, dos dias em que tentamos parar de chorar e simplesmente não conseguimos, cedendo lugar a um tempo novo.
Optamos por sorrir e vestir a roupa da coragem, tendo a Fé como escudo protetor e a esperança como fiel escudeira.
Escolhemos repensar nossos valores e atitudes, valorizando cada minuto desta dádiva chamada Vida.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Batida de Banana
Dia desses, estava com minha Nutricionista favorita - minha filha Karina, trocando ideias sobre alimentos saudáveis, refeições, lanches e outros que tais quando, lá pelas tantas, ela sugeriu que, no meio da tarde, quando eu sentisse fome, fizesse uma batida de banana, e me deu uma explicação técnica sobre os benefícios da banana adicionada ao leite.
De férias e com as tardes de verão que convidam à preguiça, estirada sobre o sofá e lendo minha ZH que amo...
Parentese: observem, queridos leitores, como sou saliente e chamo de "meus" objetos que, de forma alguma, me pertencem: o ônibus que vai de Itaqui a Porto Alegre e vice versa, meu glorioso Planaltão, o Jornal Zero Hora...é que faz tanto tempo que convivo com eles...
Enfim.
Devo estar ficando um pouco louca.
Voltemos à batida de banana.
O ar da praia dá muita fome.
Comecei a pensar em sair assim, sem pressa alguma, de chinelinho de dedo, vestidinho solto, cabelo preso, zero make, brincos e outras ervas, nem pensar, e ir até a padaria comprar alguns salgadinhos: empadinhas, croquetes, pastelzinho de massa folhada e uma coca cola bem gelada.
Que coisa boa!!!
Comentei com minha Nutri o desejo de me atracar nessas delícias e ela, com toda a calma, sugeriu:
Faz uma batida de banana.
Sem graça!
Foi o que pensei, mas resolvi aderir, escolhi uma bela banana, leite gelado, pronto, feita a batida.
Geladinha, com muita espuma, comecei a tomar e a memória foi retrocedendo até encontrar um outro dia, num outro tempo.
Meu Pai adorava batida de banana!
Cada vez que íamos a Uruguaiana, ele fazia questão de ir até uma padaria onde, dentre outras delícias, serviam batida de banana, morite!
Sentávamos, os dois, numa estreita mesinha e ele, com seu vozeirão, pedia: " companheiro, me vê duas batidas de bananas, uma para mim e outra para esta moça aqui", e ria!
Ria de pura alegria, e eu ria também, ele com sua moça de dez anos de idade, e eu com meu herói.
Era uma delícia, aquela batida de banana, cuja espuma nos deixava com bigodes brancos.
Durava uma meia hora, aquela volta toda!
Saíamos de lá de mãos dadas, felizes e cheios de energia, rindo à toa.
A receita na minha Nutri deu certo: fiz a batida, tomei três copos e aqui me encontro, com muitos planos e um gás extra.
Seria a bebida da felicidade?
Não sei.
O complemento foi um pão torrado com muito patê de fígado e requeijão.
Talvez esse seja o segredo, a final: as coisas simples da vida são as melhores!
De férias e com as tardes de verão que convidam à preguiça, estirada sobre o sofá e lendo minha ZH que amo...
Parentese: observem, queridos leitores, como sou saliente e chamo de "meus" objetos que, de forma alguma, me pertencem: o ônibus que vai de Itaqui a Porto Alegre e vice versa, meu glorioso Planaltão, o Jornal Zero Hora...é que faz tanto tempo que convivo com eles...
Enfim.
Devo estar ficando um pouco louca.
Voltemos à batida de banana.
O ar da praia dá muita fome.
Comecei a pensar em sair assim, sem pressa alguma, de chinelinho de dedo, vestidinho solto, cabelo preso, zero make, brincos e outras ervas, nem pensar, e ir até a padaria comprar alguns salgadinhos: empadinhas, croquetes, pastelzinho de massa folhada e uma coca cola bem gelada.
Que coisa boa!!!
Comentei com minha Nutri o desejo de me atracar nessas delícias e ela, com toda a calma, sugeriu:
Faz uma batida de banana.
Sem graça!
Foi o que pensei, mas resolvi aderir, escolhi uma bela banana, leite gelado, pronto, feita a batida.
Geladinha, com muita espuma, comecei a tomar e a memória foi retrocedendo até encontrar um outro dia, num outro tempo.
Meu Pai adorava batida de banana!
Cada vez que íamos a Uruguaiana, ele fazia questão de ir até uma padaria onde, dentre outras delícias, serviam batida de banana, morite!
Sentávamos, os dois, numa estreita mesinha e ele, com seu vozeirão, pedia: " companheiro, me vê duas batidas de bananas, uma para mim e outra para esta moça aqui", e ria!
Ria de pura alegria, e eu ria também, ele com sua moça de dez anos de idade, e eu com meu herói.
Era uma delícia, aquela batida de banana, cuja espuma nos deixava com bigodes brancos.
Durava uma meia hora, aquela volta toda!
Saíamos de lá de mãos dadas, felizes e cheios de energia, rindo à toa.
A receita na minha Nutri deu certo: fiz a batida, tomei três copos e aqui me encontro, com muitos planos e um gás extra.
Seria a bebida da felicidade?
Não sei.
O complemento foi um pão torrado com muito patê de fígado e requeijão.
Talvez esse seja o segredo, a final: as coisas simples da vida são as melhores!
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
Perdimentos e Reencontros
Durante longo tempo, cavalguei num Tordilho todo enfeitado.
Fiz questão de adornar meu cavalo negro com as plumas da arrogância e da insensatez e saí, mundo afora, sem olhar para os lados e, muito menos, para trás.
Não pensava no dia de amanhã, qual o quê!
Batia, em meu rosto, o vento morno da indiferença para com meus semelhantes e seus males.
Imaginava, em minha completa ignorância, que fazer caridade, ser "bom" e ir a Missa regularmente seria uma espécie de salvo conduto que me livraria "de todo o mal, amém".
Naquele tempo de tamanho perdimento existencial, exibir-me com meu corcel emplumado, andando para lá e para cá, acompanhada pela cegueira do egoísmo, era o que me bastava.
Eu pensava que era boazinha e que o fato de não praticar atos ruins e cruéis seria suficiente.
Ledo engano.
Percorri anos a fio esse caminho, impulsionada pela soberba e, tão deslumbrada estava que não me dava conta que ia deixando, por onde passava, partes de mim, e me perdendo dos outros, ignorava solenemente os que encontrava ao longo desta via chamada Vida.
Quando, um belo dia, surgiu a minha frente um obstáculo que me obrigou a interromper, subitamente e sem aviso a marcha da vaidade, o Tordilho se empinou e quase me derrubou.
Ficamos parados ali, nós dois, olhando a cena que começava a se desenrolar a nossa frente.
Desci do cavalo, e rápido, pois não houve tempo para questionamentos.
Pouco a pouco, livrei-o dos seus muitos adereços, todos eles, concluía eu naqueles momentos, absolutamente inúteis: a arrogância saiu de fininho, envergonhada; a insensatez cedeu lugar às interrogações; a indiferença deu passo à solidariedade e me fez enxergar coisas dantes nunca vistas; o egoísmo, apavorado, escafedeu-se.
O Tordilho confundiu-se com o pretume da noite sem Lua, e também desapareceu.
A pé e sem enfeites me vi, diante de um caminho desconhecido e assustador.
Noite escura, breu, e a solidão e o medo.
Muito medo.
Para onde irei?
Eis que, pouco a pouco, começaram a aparecer algumas luzes.
E pessoas, muitas pessoas!
Cada uma delas segurou minhas mãos e foram me impelindo a seguir adiante, um passo e outro passo, um dia e outro dia.
De repente, não estava mais só.
A beleza da amizade, a pureza dos amores, o abraço solidário e desinteressado e sincero devolveram-me tantas coisas que eu havia perdido pelo caminho que, desse reencontro comigo mesma, resgatei um valor esquecido, mas fundamental: a humildade.
Agora, ando sobre minhas próprias pernas, de mãos estendidas para os outros, com os outros e pelos outros.
Não mais me interessam as futilidades que tanta energia me roubaram, menos ainda, tordilhos ajaezados.
Há tantas riquezas a nossa volta que, quando olhamos de cima, sequer percebemos: nossos bichos de estimação, flores, um céu lindo e um sol radiante, a chuva que cai e renova tudo, estar ao lado de quem amamos,ajudar quem não conhecemos...
Este é o primeiro capítulo de uma história de muitos reencontros.
Aguardem os próximos!
Fiz questão de adornar meu cavalo negro com as plumas da arrogância e da insensatez e saí, mundo afora, sem olhar para os lados e, muito menos, para trás.
Não pensava no dia de amanhã, qual o quê!
Batia, em meu rosto, o vento morno da indiferença para com meus semelhantes e seus males.
Imaginava, em minha completa ignorância, que fazer caridade, ser "bom" e ir a Missa regularmente seria uma espécie de salvo conduto que me livraria "de todo o mal, amém".
Naquele tempo de tamanho perdimento existencial, exibir-me com meu corcel emplumado, andando para lá e para cá, acompanhada pela cegueira do egoísmo, era o que me bastava.
Eu pensava que era boazinha e que o fato de não praticar atos ruins e cruéis seria suficiente.
Ledo engano.
Percorri anos a fio esse caminho, impulsionada pela soberba e, tão deslumbrada estava que não me dava conta que ia deixando, por onde passava, partes de mim, e me perdendo dos outros, ignorava solenemente os que encontrava ao longo desta via chamada Vida.
Quando, um belo dia, surgiu a minha frente um obstáculo que me obrigou a interromper, subitamente e sem aviso a marcha da vaidade, o Tordilho se empinou e quase me derrubou.
Ficamos parados ali, nós dois, olhando a cena que começava a se desenrolar a nossa frente.
Desci do cavalo, e rápido, pois não houve tempo para questionamentos.
Pouco a pouco, livrei-o dos seus muitos adereços, todos eles, concluía eu naqueles momentos, absolutamente inúteis: a arrogância saiu de fininho, envergonhada; a insensatez cedeu lugar às interrogações; a indiferença deu passo à solidariedade e me fez enxergar coisas dantes nunca vistas; o egoísmo, apavorado, escafedeu-se.
O Tordilho confundiu-se com o pretume da noite sem Lua, e também desapareceu.
A pé e sem enfeites me vi, diante de um caminho desconhecido e assustador.
Noite escura, breu, e a solidão e o medo.
Muito medo.
Para onde irei?
Eis que, pouco a pouco, começaram a aparecer algumas luzes.
E pessoas, muitas pessoas!
Cada uma delas segurou minhas mãos e foram me impelindo a seguir adiante, um passo e outro passo, um dia e outro dia.
De repente, não estava mais só.
A beleza da amizade, a pureza dos amores, o abraço solidário e desinteressado e sincero devolveram-me tantas coisas que eu havia perdido pelo caminho que, desse reencontro comigo mesma, resgatei um valor esquecido, mas fundamental: a humildade.
Agora, ando sobre minhas próprias pernas, de mãos estendidas para os outros, com os outros e pelos outros.
Não mais me interessam as futilidades que tanta energia me roubaram, menos ainda, tordilhos ajaezados.
Há tantas riquezas a nossa volta que, quando olhamos de cima, sequer percebemos: nossos bichos de estimação, flores, um céu lindo e um sol radiante, a chuva que cai e renova tudo, estar ao lado de quem amamos,ajudar quem não conhecemos...
Este é o primeiro capítulo de uma história de muitos reencontros.
Aguardem os próximos!
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
Missa De Formatura
Ontem foi a Missa de Formatura de minha filha Karina, Formanda no curso de Nutrição.
Chegar a PUCRS, por si só já é algo que me emociona.
Ali estudei, fiz amigos, namorei muito um estudante de jornalismo da FAMECOS, ri a bandeiras despregadas a ponto de o professor de Processo Civil me pedir para que eu me retirasse da sala de aula, chorei quando tirei quatro em Direito Tributário, chorei quando tirei dez em Direito Comercial mas chorei, mesmo, quando vi meu nome na lista dos que haviam concluído a graduação.
De tudo isso lembrei quando entrei, pela quarta vez, na Capela da universidade.
Minha Missa de Formatura foi às dez horas de uma manhã quente, mas meus Pais e eu estávamos tão felizes que não nos preocupamos com o calor.
Não havia ar condicionado, quiçá tivesse uma meia dúzia de ventiladores, mas nós, apinhados ali - turma grande, mais familiares, apenas sentíamos a ventura de poder agradecer a Deus.
Era o que bastava, era a medida perfeita.
Passaram-se trinta e quatro anos daquele 29 de dezembro de 1983 e, até a presente data, formei três filhas na mesma universidade.
Uma glória, admito, sem qualquer modéstia.
Pois não foi fácil para mim, mãe italianíssima e argentina, ver minhas filhas saírem de casa para escrever suas próprias histórias e começar a semear no campo de sonhos, iniciando a arquitetura de seus destinos com a semeadura de todos os dias, das noites passadas em claro estudando para provas, dos domingos e feriados inexistentes, da saudade de casa, das massas miojo, salsicha e ovo cozido, do estágio obrigatório, da elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, da correria para conseguir conciliar estágio remunerado, estágio obrigatório, apresentação do TCC, provas finais e, finalmente, poder dizer, com aquela felicidade sem igual: "terminei, conclui, acabou, agora, só pela Formatura"!
Quem viveu esses momentos únicos sabe do que estou falando.
E eis que, mais uma vez, de outra Missa de Formatura me toca participar.
Quanta emoção ao entrar naquela Capela linda!
Sou chorona de carteirinha mas banquei a forte, afinal, quantas vezes vi esse filme, disse a mim mesma...
Não!
Nada de forte, nada de "sem lágrimas", nem pensar.
Não vou fingir que sou outra pessoa.
Aqui está uma mãe agradecida a Deus por todo esse caminho percorrido, orgulhosa de suas filhas, feliz.
Portanto, quando o coro iniciou " Tu és, Senhor, o meu Pastor, por isso nada, em minha vida, faltará", abri as comportas.
A maquiagem foi pro brejo, os olhos ficaram vermelhos, meras insignificâncias ante a celebração de mais uma vitória da persistência, da tenacidade, do estudo, da busca incessante pelo saber, do amor pelos livros.
Saboreei cada minuto daquele encontro com Deus e com as coisas que elevam nosso espírito.
Saí da Missa de Formatura com o coração alegre e sereno, sentindo na boca o gosto de uma fruta bem doce, colhida após anos de árdua semeadura.
Chegar a PUCRS, por si só já é algo que me emociona.
Ali estudei, fiz amigos, namorei muito um estudante de jornalismo da FAMECOS, ri a bandeiras despregadas a ponto de o professor de Processo Civil me pedir para que eu me retirasse da sala de aula, chorei quando tirei quatro em Direito Tributário, chorei quando tirei dez em Direito Comercial mas chorei, mesmo, quando vi meu nome na lista dos que haviam concluído a graduação.
De tudo isso lembrei quando entrei, pela quarta vez, na Capela da universidade.
Minha Missa de Formatura foi às dez horas de uma manhã quente, mas meus Pais e eu estávamos tão felizes que não nos preocupamos com o calor.
Não havia ar condicionado, quiçá tivesse uma meia dúzia de ventiladores, mas nós, apinhados ali - turma grande, mais familiares, apenas sentíamos a ventura de poder agradecer a Deus.
Era o que bastava, era a medida perfeita.
Passaram-se trinta e quatro anos daquele 29 de dezembro de 1983 e, até a presente data, formei três filhas na mesma universidade.
Uma glória, admito, sem qualquer modéstia.
Pois não foi fácil para mim, mãe italianíssima e argentina, ver minhas filhas saírem de casa para escrever suas próprias histórias e começar a semear no campo de sonhos, iniciando a arquitetura de seus destinos com a semeadura de todos os dias, das noites passadas em claro estudando para provas, dos domingos e feriados inexistentes, da saudade de casa, das massas miojo, salsicha e ovo cozido, do estágio obrigatório, da elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, da correria para conseguir conciliar estágio remunerado, estágio obrigatório, apresentação do TCC, provas finais e, finalmente, poder dizer, com aquela felicidade sem igual: "terminei, conclui, acabou, agora, só pela Formatura"!
Quem viveu esses momentos únicos sabe do que estou falando.
E eis que, mais uma vez, de outra Missa de Formatura me toca participar.
Quanta emoção ao entrar naquela Capela linda!
Sou chorona de carteirinha mas banquei a forte, afinal, quantas vezes vi esse filme, disse a mim mesma...
Não!
Nada de forte, nada de "sem lágrimas", nem pensar.
Não vou fingir que sou outra pessoa.
Aqui está uma mãe agradecida a Deus por todo esse caminho percorrido, orgulhosa de suas filhas, feliz.
Portanto, quando o coro iniciou " Tu és, Senhor, o meu Pastor, por isso nada, em minha vida, faltará", abri as comportas.
A maquiagem foi pro brejo, os olhos ficaram vermelhos, meras insignificâncias ante a celebração de mais uma vitória da persistência, da tenacidade, do estudo, da busca incessante pelo saber, do amor pelos livros.
Saboreei cada minuto daquele encontro com Deus e com as coisas que elevam nosso espírito.
Saí da Missa de Formatura com o coração alegre e sereno, sentindo na boca o gosto de uma fruta bem doce, colhida após anos de árdua semeadura.
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
O Movimento Do Rio
Hoje acordei e meu pensamento foi ao encontro de todas as pessoas que não estão mais aqui e lembrei, com certa inquietação, a data marcada no calendário: Dia De Finados.
Tomei meu sagrado mate bem quieta, espiando a manhã de sol, ouvindo o trinar dos pássaros e o som do vento.
Muito vento, aliás; vento norte, daquele que faz redemoinhos de poeira nas esquinas.
Tenho duas alternativas, conclui: rendo-me à tristeza e à melancolia e sigo aqui, sentadita, ou subverto a ordem das coisas e saio para uma bela caminhada, e não será um vento qualquer que me deterá.
Assim fiz, mas sem deixar de sentir aquela sensação, escondida em um canto da alma e que, volta e meia, vinha cochichar nos meus ouvidos, hoje é Dia de Finados, hoje é Dia de Finados...
Fiz ouvidos de mercador e tomei o rumo de um parque onde costumo caminhar.
Entretanto, entretanto...
Geminiana, sou geminiana...
Fui para a direção oposta, e andei, andei, até chegar na beira do rio.
Meu Rio Uruguai amado, e tenho a audácia de chamá-lo de "meu" porque sim, temos uma comunhão de toda a vida.
Lá estava ele, lindo, imponente e revolto, agitado pelo vento, a cor marrom escuro (embora tenha dias em que está verde) e suas águas, para lá e para cá, soberanas, indiferentes às horas, aos dias e ao tempo.
Sempre andando, em contínuo movimento.
Parei, absorvendo aquele ar e sentindo o cheiro inconfundível do rio, mistura de terra, água e peixe.
Lindo, lindo!
Olhei para o outro lado da margem, onde fica a cidade de Alvear, República Argentina, berço de minha Mãe, de meus Avós e Tios, lugar de amores.
Nenhuma dessas pessoas está mais lá.
Passaram, como as águas do rio.
Mas deixaram em mim sua marca e seu legado.
Ocorreu, então, dessas magias que muitas vezes nos alcançam, e aquela sensação que eu trouxera comigo num canto escondido da alma e que insistia em cochichar para mim saiu e foi-se embora, carregada pela correnteza.
Inspirei com força, mais uma vez, aquele ar puro e límpido, e empreendi o caminho de volta para casa.
Junto comigo vinham, de mãos dadas, as lembranças de todos as pessoas que amei, amo e amarei até fim dos meus dias e a força que todos eles, sem exceção, me transmitiram e me transmitem, diariamente.
De um outro plano, de novos lugares, mas a energia é palpável.
Suas presenças, inconfundíveis.
A melhor forma de homenagear a memória daqueles que me são caros, pensei, é vivendo.
Viver com alegria, intensamente, celebrando todos os dias o milagre da vida, enfrentando com galhardia os ventos nortes que surgirem.
Como o movimento do rio, cujas águas sempre se renovam, a vida exige que sigamos e nos impulsiona na direção dos muitos caminhos que, diariamente, se abrem para nós.
Finda a caminhada, persistia o vento norte, mas tampouco ele me incomodou, ao contrário: lembrei da frase de Fernando Pessoa, que serviu como uma luva para mim:
" Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".
Tomei meu sagrado mate bem quieta, espiando a manhã de sol, ouvindo o trinar dos pássaros e o som do vento.
Muito vento, aliás; vento norte, daquele que faz redemoinhos de poeira nas esquinas.
Tenho duas alternativas, conclui: rendo-me à tristeza e à melancolia e sigo aqui, sentadita, ou subverto a ordem das coisas e saio para uma bela caminhada, e não será um vento qualquer que me deterá.
Assim fiz, mas sem deixar de sentir aquela sensação, escondida em um canto da alma e que, volta e meia, vinha cochichar nos meus ouvidos, hoje é Dia de Finados, hoje é Dia de Finados...
Fiz ouvidos de mercador e tomei o rumo de um parque onde costumo caminhar.
Entretanto, entretanto...
Geminiana, sou geminiana...
Fui para a direção oposta, e andei, andei, até chegar na beira do rio.
Meu Rio Uruguai amado, e tenho a audácia de chamá-lo de "meu" porque sim, temos uma comunhão de toda a vida.
Lá estava ele, lindo, imponente e revolto, agitado pelo vento, a cor marrom escuro (embora tenha dias em que está verde) e suas águas, para lá e para cá, soberanas, indiferentes às horas, aos dias e ao tempo.
Sempre andando, em contínuo movimento.
Parei, absorvendo aquele ar e sentindo o cheiro inconfundível do rio, mistura de terra, água e peixe.
Lindo, lindo!
Olhei para o outro lado da margem, onde fica a cidade de Alvear, República Argentina, berço de minha Mãe, de meus Avós e Tios, lugar de amores.
Nenhuma dessas pessoas está mais lá.
Passaram, como as águas do rio.
Mas deixaram em mim sua marca e seu legado.
Ocorreu, então, dessas magias que muitas vezes nos alcançam, e aquela sensação que eu trouxera comigo num canto escondido da alma e que insistia em cochichar para mim saiu e foi-se embora, carregada pela correnteza.
Inspirei com força, mais uma vez, aquele ar puro e límpido, e empreendi o caminho de volta para casa.
Junto comigo vinham, de mãos dadas, as lembranças de todos as pessoas que amei, amo e amarei até fim dos meus dias e a força que todos eles, sem exceção, me transmitiram e me transmitem, diariamente.
De um outro plano, de novos lugares, mas a energia é palpável.
Suas presenças, inconfundíveis.
A melhor forma de homenagear a memória daqueles que me são caros, pensei, é vivendo.
Viver com alegria, intensamente, celebrando todos os dias o milagre da vida, enfrentando com galhardia os ventos nortes que surgirem.
Como o movimento do rio, cujas águas sempre se renovam, a vida exige que sigamos e nos impulsiona na direção dos muitos caminhos que, diariamente, se abrem para nós.
Finda a caminhada, persistia o vento norte, mas tampouco ele me incomodou, ao contrário: lembrei da frase de Fernando Pessoa, que serviu como uma luva para mim:
" Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".
terça-feira, 31 de outubro de 2017
O Fim Dos Românticos
Haverá, ainda, algum romântico?
Restará alguém que ainda acredita na magia de um encontro onde somente os olhos dirão o que desejamos?
Pequenos gestos, fisicamente quase que imperceptíveis, mas reconhecidos pelo coração?
Terá restado um homem ou uma mulher que goste de dançar de rosto colado?
Andamos tão ocupados com as redes sociais e em aparentar, sofregamente, uma pseudo felicidade, que esquecemos as pessoas que estão ali, em carne e osso.
Há uma pressa desmedida em chegar a algum lugar, ao que parece.
Mas, amigos, onde ficaria esse paraíso, que seria a coroação de tamanho apuro?
Constato, não sem uma ponta de tristeza, que os poucos românticos que porventura sobreviveram a essa avalanche de falsidades publicadas estão cada vez mais isolados em seus delírios e lembranças de um tempo que, definitivamente, terminou.
Uma lástima, na verdade.
Hoje, ao que tudo indica, não há motivo algum para celebrar o amor romântico, aquela maravilha de sensação, que enlevava a alma e fazia sonhar.
Não mais!
Nos dias atuais, precisa ser discutida a conta da luz, o salário parcelado, os rumos da política e suas implicações, o gás que subiu, a destinação do lixo...
Tudo politicamente correto, sim, só que ninguém lembrou de deixar um espaço para o romantismo.
De igual modo, vejo que, em razão de tantos apelos e facilidades de toda ordem, e em nome de uma igualdade em tudo e por tudo, conquistar ( conquistar? que palavrão é esse?) alguém é tão fácil como ir até a padaria da esquina e comprar um quilo de pão.
Lamentável, mas é o que se vê.
Aos românticos, uma vez decretado o seu fim, nada mais restou, a não ser ir parar em outro planeta e lá, na voz incomparável de Ella Fitzgerald, ouvir Isn't it Romantic e dançar abraçados, levados pela "magia na noite, um sonho pode ser ouvido".
Restará alguém que ainda acredita na magia de um encontro onde somente os olhos dirão o que desejamos?
Pequenos gestos, fisicamente quase que imperceptíveis, mas reconhecidos pelo coração?
Terá restado um homem ou uma mulher que goste de dançar de rosto colado?
Andamos tão ocupados com as redes sociais e em aparentar, sofregamente, uma pseudo felicidade, que esquecemos as pessoas que estão ali, em carne e osso.
Há uma pressa desmedida em chegar a algum lugar, ao que parece.
Mas, amigos, onde ficaria esse paraíso, que seria a coroação de tamanho apuro?
Constato, não sem uma ponta de tristeza, que os poucos românticos que porventura sobreviveram a essa avalanche de falsidades publicadas estão cada vez mais isolados em seus delírios e lembranças de um tempo que, definitivamente, terminou.
Uma lástima, na verdade.
Hoje, ao que tudo indica, não há motivo algum para celebrar o amor romântico, aquela maravilha de sensação, que enlevava a alma e fazia sonhar.
Não mais!
Nos dias atuais, precisa ser discutida a conta da luz, o salário parcelado, os rumos da política e suas implicações, o gás que subiu, a destinação do lixo...
Tudo politicamente correto, sim, só que ninguém lembrou de deixar um espaço para o romantismo.
De igual modo, vejo que, em razão de tantos apelos e facilidades de toda ordem, e em nome de uma igualdade em tudo e por tudo, conquistar ( conquistar? que palavrão é esse?) alguém é tão fácil como ir até a padaria da esquina e comprar um quilo de pão.
Lamentável, mas é o que se vê.
Aos românticos, uma vez decretado o seu fim, nada mais restou, a não ser ir parar em outro planeta e lá, na voz incomparável de Ella Fitzgerald, ouvir Isn't it Romantic e dançar abraçados, levados pela "magia na noite, um sonho pode ser ouvido".
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Novas Histórias de Lucrécia, A Peidorreira
Lucrécia decidira candidatar-se a prefeita.
Depois de muito pensar e de consultar as bases, estava decidida a lançar-se a mais esse desafio.
Foi fácil passar pela Convenção do seu Partido, o PUNM (o nome era uma infame coincidência que nada tinha a ver com o hábito pouco ortodoxo de Lucrecita, de peidar siempre que se le dava la gana)) - Partido da União Nacional das Manobras, muito embora alguns invejosos de plantão e outros tantos burraldos tivessem torcido o nariz quando ela, microfone em punho, apresentara sua plataforma eleitoral.
Foi um coro de "ohhhh e ahhhh" que, ao fim e ao cabo ela não sabia bem se eram de aprovação ou escárnio, mas o fato é que agora ela era candidata.
C a n d i d a t a.
Sacramentada essa condição, jogou-se com tudo na busca pelo voto, dentro da mais absoluta legalidade, evidentemente, eis que não queria incômodos.
E do que ela mais gostava era de participar dos comícios que, durante a semana aconteciam nos bairros da cidade.
Sempre acompanhada de sua fiel escudeira, sua mãe, la señora Babu a qual, de tanto caminhar pelas ruas sem calçamento e tapadas de buracos, torcera um dos joelhos.
Lucrécia tinha advertido, "Mãe, não tens condições de andar assim, horas a fio, comendo poeira e ralando os pés".
Não teve argumento, pois la señora Babu alegava que nada costumava escapar de seus olhos de lince.
Ademais, precisava estar junto para tentar controlar Lucrécia, a incontrolável peidorreira.
Aquilo ficava chato, afinal.
Lucrécia, como sempre, nem tava!
Caminhava rápido com uma enorme bandeira do PUNM tremulando ao vento e, a cada passo dado, peido largado.
Uma vergonha!
Será que ela pensava que ninguém ouvia aqueles sons?
Azar do guarda, andam comigo por que querem e sabem do meu valor, do tamanho dos meus projetos, o resto é figuração.
A campanha ia de vento em popa e Lucrecita era líder em todas as pesquisas:
" a candidata mais votada", diziam, a boca miúda; "ganha de lavada", vaticinavam.
A chegada de Lucrécia aos comícios era uma verdadeira apoteose, todos queriam vê-la e ouvir suas promessas, pouco importando quão mentirosas fossem:
- Educação para todos!
E o povo gritava: huhuhuhuhuhuhuhu!!!
- Asfalto!
Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!
- Saúde!
Rufar de tambores!!!
Lucrécia, radiante, acenava para todos do alto do palanque.
Aquilo, para ela, era uma cachaça: adorava!
Ao término de cada comício, chegava em casa destruída, suada, coberta de pó e sem voz.
La senõra Babu vinha logo com uma gemada, à qual misturava um cálice de vinho do Porto.
Para recuperar a voz e o ânimo, dizia.
Y, claro, algo más: prrrrrrrrrrr
No último comício, realizado na praça da cidade, compareceram todos os caciques do Partido, além de vários deputados estaduais e federais, candidatos a vereador e assessores da campanha.
Lucrécia queria impressionar, e conseguiu.
Surgiu no palanque usando um conjunto branco de calça e blazer, apesar do calorão.
Era chique usar somente uma cor, dissera-lhe a assessora para assuntos institucionais e outras ervas.
Não convinha mostrar muito os braços, falara outra.
Ninguém ousava fazer a complexa recomendação: contenha-se, candidata; não peide...
Tratando-se da indomável Lucrécia sabiam que de nada adiantaria, pois nela ninguém conseguira, até o momento, colocar freio.
Compareceram naquele memorável comício em torno de duas mil pessoas, a quais acotovelavam-se para ver e ouvir a que seria, sem sombra de dúvidas, a próxima prefeita.
A balbúrdia era grande: misturavam-se os sons das palmas, os gritos, parte de uma bateria da escola de samba de Lucrécia ( sim, ela era a l u c i n a d a por Carnaval), as bombas, o apito dos pipoqueiros, dos vendedores de algodão doce e de churrasquinho.
Milhares de bandeiras do PUNM tremulavam, alegremente.
Lucrécia, a última a falar naquela noite fantástica, foi recebida com uma ovação do público que mais parecia um tsunami:
Lucrécia, Lucrécia, Lucrécia, gritava o povo, alucinado.
E ela, enrolada na bandeira do Partido, tão feliz estava que soltou todos os peidos possíveis e imagináveis, ria sem parar olhando, de esguelha, as caras constrangidas dos expoentes da política remexendo-se, loucos para sair dali.
Sou coerente, ela pensava: afinal, a política está, ou não está, uma podridão?
Por essa razão entrei nesta briga: vou mudar esse estado de coisas!
O resultado de tamanha empatia com sua gente não poderia ter sido outro.
Lucrécia, a Peidorreira, sagrou-se vencedora e, no primeiro dia de janeiro do ano seguinte, tomou as rédeas do município!
Imagine, querido leitor(a), quantas histórias virão por aí...
Depois de muito pensar e de consultar as bases, estava decidida a lançar-se a mais esse desafio.
Foi fácil passar pela Convenção do seu Partido, o PUNM (o nome era uma infame coincidência que nada tinha a ver com o hábito pouco ortodoxo de Lucrecita, de peidar siempre que se le dava la gana)) - Partido da União Nacional das Manobras, muito embora alguns invejosos de plantão e outros tantos burraldos tivessem torcido o nariz quando ela, microfone em punho, apresentara sua plataforma eleitoral.
Foi um coro de "ohhhh e ahhhh" que, ao fim e ao cabo ela não sabia bem se eram de aprovação ou escárnio, mas o fato é que agora ela era candidata.
C a n d i d a t a.
Sacramentada essa condição, jogou-se com tudo na busca pelo voto, dentro da mais absoluta legalidade, evidentemente, eis que não queria incômodos.
E do que ela mais gostava era de participar dos comícios que, durante a semana aconteciam nos bairros da cidade.
Sempre acompanhada de sua fiel escudeira, sua mãe, la señora Babu a qual, de tanto caminhar pelas ruas sem calçamento e tapadas de buracos, torcera um dos joelhos.
Lucrécia tinha advertido, "Mãe, não tens condições de andar assim, horas a fio, comendo poeira e ralando os pés".
Não teve argumento, pois la señora Babu alegava que nada costumava escapar de seus olhos de lince.
Ademais, precisava estar junto para tentar controlar Lucrécia, a incontrolável peidorreira.
Aquilo ficava chato, afinal.
Lucrécia, como sempre, nem tava!
Caminhava rápido com uma enorme bandeira do PUNM tremulando ao vento e, a cada passo dado, peido largado.
Uma vergonha!
Será que ela pensava que ninguém ouvia aqueles sons?
Azar do guarda, andam comigo por que querem e sabem do meu valor, do tamanho dos meus projetos, o resto é figuração.
A campanha ia de vento em popa e Lucrecita era líder em todas as pesquisas:
" a candidata mais votada", diziam, a boca miúda; "ganha de lavada", vaticinavam.
A chegada de Lucrécia aos comícios era uma verdadeira apoteose, todos queriam vê-la e ouvir suas promessas, pouco importando quão mentirosas fossem:
- Educação para todos!
E o povo gritava: huhuhuhuhuhuhuhu!!!
- Asfalto!
Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!
- Saúde!
Rufar de tambores!!!
Lucrécia, radiante, acenava para todos do alto do palanque.
Aquilo, para ela, era uma cachaça: adorava!
Ao término de cada comício, chegava em casa destruída, suada, coberta de pó e sem voz.
La senõra Babu vinha logo com uma gemada, à qual misturava um cálice de vinho do Porto.
Para recuperar a voz e o ânimo, dizia.
Y, claro, algo más: prrrrrrrrrrr
No último comício, realizado na praça da cidade, compareceram todos os caciques do Partido, além de vários deputados estaduais e federais, candidatos a vereador e assessores da campanha.
Lucrécia queria impressionar, e conseguiu.
Surgiu no palanque usando um conjunto branco de calça e blazer, apesar do calorão.
Era chique usar somente uma cor, dissera-lhe a assessora para assuntos institucionais e outras ervas.
Não convinha mostrar muito os braços, falara outra.
Ninguém ousava fazer a complexa recomendação: contenha-se, candidata; não peide...
Tratando-se da indomável Lucrécia sabiam que de nada adiantaria, pois nela ninguém conseguira, até o momento, colocar freio.
Compareceram naquele memorável comício em torno de duas mil pessoas, a quais acotovelavam-se para ver e ouvir a que seria, sem sombra de dúvidas, a próxima prefeita.
A balbúrdia era grande: misturavam-se os sons das palmas, os gritos, parte de uma bateria da escola de samba de Lucrécia ( sim, ela era a l u c i n a d a por Carnaval), as bombas, o apito dos pipoqueiros, dos vendedores de algodão doce e de churrasquinho.
Milhares de bandeiras do PUNM tremulavam, alegremente.
Lucrécia, a última a falar naquela noite fantástica, foi recebida com uma ovação do público que mais parecia um tsunami:
Lucrécia, Lucrécia, Lucrécia, gritava o povo, alucinado.
E ela, enrolada na bandeira do Partido, tão feliz estava que soltou todos os peidos possíveis e imagináveis, ria sem parar olhando, de esguelha, as caras constrangidas dos expoentes da política remexendo-se, loucos para sair dali.
Sou coerente, ela pensava: afinal, a política está, ou não está, uma podridão?
Por essa razão entrei nesta briga: vou mudar esse estado de coisas!
O resultado de tamanha empatia com sua gente não poderia ter sido outro.
Lucrécia, a Peidorreira, sagrou-se vencedora e, no primeiro dia de janeiro do ano seguinte, tomou as rédeas do município!
Imagine, querido leitor(a), quantas histórias virão por aí...
Traga-me Uma Flor
Traga-me uma flor
Surpreenda-me
Colha para mim
a florzinha do jasmim
Traga-me uma flor
Presenteie-me
Pode ser a margarida
alegre e cheia de vida
Traga-me uma flor
Encante-me
Vá lá e colha uma rosa
De qualquer cor
Poderosa
Traga-me uma flor
Quem sabe uma sempre-viva
Para que eu possa sentir
A magia do amor
Traga-me uma flor
Qualquer flor
Não importa
Pois quem bate a minha porta
Com uma flor na mão
Traz o que há de mais belo
Puro, lindo e singelo
Toca meu coração
Surpreenda-me
Colha para mim
a florzinha do jasmim
Traga-me uma flor
Presenteie-me
Pode ser a margarida
alegre e cheia de vida
Traga-me uma flor
Encante-me
Vá lá e colha uma rosa
De qualquer cor
Poderosa
Traga-me uma flor
Quem sabe uma sempre-viva
Para que eu possa sentir
A magia do amor
Traga-me uma flor
Qualquer flor
Não importa
Pois quem bate a minha porta
Com uma flor na mão
Traz o que há de mais belo
Puro, lindo e singelo
Toca meu coração
terça-feira, 3 de outubro de 2017
Piccolomini Caleche
Impressionante como um simples objeto pode evocar tantas recordações e me fazer sentir saudade.
Saudade da minha Mãe Maravilha, já estamos em outubro, talvez seja isso, memórias de um lapso de tempo que foi tão difícil para ela e para todos nós, e mal sabíamos que também ela iria logo embora.
Certo dia falei a uma amiga: eu era uma Lia, agora sou outra.
Com eles.
Sem eles.
Às vezes, sequer me reconheço.
Acredito que aprendi a viver longe deles.
Mas é, no mínimo, complexo.
A saudade, entretanto, aparece quando menos se espera.
Um dia tão lindo de primavera e eu ali, organizando alguns enfeites, e eis que me deparo com um pequeno pratinho, de fundo branco, onde de vê, pintada em tons de verde, uma pequena carruagem e a inscrição: Piccolomini Caleche.
Eu sempre tive predileção por esse pratinho, o qual ficava, na casa da Mãe, sobre em um móvel, equilibrando-se num suporte.
Decidi guardá-lo dentro de uma armário, talvez por medo que se quebrasse, e acabei esquecendo e hoje, justo hoje, me cai nas mãos o prato, lindo como sempre, perfeito em sua expressiva simplicidade.
Então fiquei repetindo, em voz baixa, piccolomini caleche, piccolomini caleche, e nada mais foi necessário para que as lágrimas começassem a cair.
Tirei o prato e o respectivo suporte do armário e coloquei-o sobre uma mesinha, bem à vista.
Ele é tão belo que não merece ficar encerrado, para que ninguém o veja.
Vou cuidar para que não se quebre, para que permaneça inteiro como o amor que sinto e que distância alguma será capaz de fazer diminuir ou desbotar.
A saudade é assim, quando menos se espera, vem.
Eu bem que tentei fugir dela, escondendo-me aqui e ali.
Não adiantou.
Ela chegou, pegou a minha mão e, sentadas lado a lado, entabulamos uma silenciosa troca, suave e leve como o andar de uma piccolomini caleche.
Da mesma forma que chegou ela foi embora, não sem antes secar minhas lágrimas e deixar um rastro de perfume no ar.
O perfume da minha Mãe, aquele cheiro de alfazema que só ela tinha.
Mãe, tenho absoluta certeza que, de onde estás, teu amor me ampara e me protege.
Pois, como afirmei incontáveis vezes, o amor nunca morre.
Saudade da minha Mãe Maravilha, já estamos em outubro, talvez seja isso, memórias de um lapso de tempo que foi tão difícil para ela e para todos nós, e mal sabíamos que também ela iria logo embora.
Certo dia falei a uma amiga: eu era uma Lia, agora sou outra.
Com eles.
Sem eles.
Às vezes, sequer me reconheço.
Acredito que aprendi a viver longe deles.
Mas é, no mínimo, complexo.
A saudade, entretanto, aparece quando menos se espera.
Um dia tão lindo de primavera e eu ali, organizando alguns enfeites, e eis que me deparo com um pequeno pratinho, de fundo branco, onde de vê, pintada em tons de verde, uma pequena carruagem e a inscrição: Piccolomini Caleche.
Eu sempre tive predileção por esse pratinho, o qual ficava, na casa da Mãe, sobre em um móvel, equilibrando-se num suporte.
Decidi guardá-lo dentro de uma armário, talvez por medo que se quebrasse, e acabei esquecendo e hoje, justo hoje, me cai nas mãos o prato, lindo como sempre, perfeito em sua expressiva simplicidade.
Então fiquei repetindo, em voz baixa, piccolomini caleche, piccolomini caleche, e nada mais foi necessário para que as lágrimas começassem a cair.
Tirei o prato e o respectivo suporte do armário e coloquei-o sobre uma mesinha, bem à vista.
Ele é tão belo que não merece ficar encerrado, para que ninguém o veja.
Vou cuidar para que não se quebre, para que permaneça inteiro como o amor que sinto e que distância alguma será capaz de fazer diminuir ou desbotar.
A saudade é assim, quando menos se espera, vem.
Eu bem que tentei fugir dela, escondendo-me aqui e ali.
Não adiantou.
Ela chegou, pegou a minha mão e, sentadas lado a lado, entabulamos uma silenciosa troca, suave e leve como o andar de uma piccolomini caleche.
Da mesma forma que chegou ela foi embora, não sem antes secar minhas lágrimas e deixar um rastro de perfume no ar.
O perfume da minha Mãe, aquele cheiro de alfazema que só ela tinha.
Mãe, tenho absoluta certeza que, de onde estás, teu amor me ampara e me protege.
Pois, como afirmei incontáveis vezes, o amor nunca morre.
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