Aprendi a dirigir aos 12 anos. A "guiar", como dizia meu Pai.
Era moda, quanto mais cedo aprendesse, tanto melhor.
Aos sábados, o grande programa era ir até a fazenda de meu Avô Atílio para novas aulas, até "firmar" a direção.
Sim senhor, com doze aninhos eu dominava o carro do meu Pai que, na condição de instrutor, ensinou-me todas as manhas e manobras que um carro poderia ter.
Para os padrões atuais, seria algo impensável. Em 1973, era bonito, motivo de orgulho: minha filha mais nova já sabe guiar, ele dizia, exibindo-se para os amigos.
Só que não.
A chave do carro, para que eu pudesse me exibir para as amigas, essa ele não frouxava jamais, segurou até meus 18 anos.
Acredito ser daí a facilidade que tenho em dirigir e sair pela estrada afora, sozinha, acompanhada, não faz a menor diferença.
Não sinto medo nem cansaço, apenas alegria, chego a abrir um pouco o vidro pra sentir o vento assoviando. Coisas de interiorana.
Tenho absoluta certeza que, em outra encarnação, fui caminhoneira ou algo do tipo, porque a sensação de felicidade que sinto quando tenho uma estrada pela frente é algo!
Liberdade, liberdade, abre as asas sobre mim, é o que me vem à cabeça.
Por essas e outras, nenhum problema vejo em ir daqui até o Portinho dirigindo, e já fui algumas vezes sozinha, para desgosto do maridão e das filhas, mas fui.
Claro que, antes de sair, concordo com todas as ponderações, baixo a cabeça, ouço, faço cara de sexta feira santa. Por dentro, penso: amanhã de manhã, livre, leve e solta por este mundão de Deus, BR 290, me aguarde.
Saio daqui ao raiar das 8, e vou parar lá adiante, em São Gabriel para, 20 minutos depois, seguir viagem até Pantano Grande, onde costumo fazer um lanchinho inusitado: dois ovos fritos, um cacetinho e uma Coca Cola de garrafinha. Depois, um cafezinho.
Meus amigos, isso é melhor que muito energético que tem por aí, viu! É um espetáculo!
Partimos para o trecho final - Pantano Grande/Porto Alegre, para o qual reservo meu repertório de sambas, boleros, tangos e outras tantas músicas que vão saindo do fundo do baú, e das quais nem eu mesma lembrava e assim, cantando a plenos pulmões, avisto a Ponte do Guaíba e dou por encerrada mais uma odisseia, onde o sinal verde foi uma constante, graças a Deus!
segunda-feira, 31 de março de 2014
O Instituto da Sesta
Como boa neta, sobrinha e filha de argentinos, a sesta sempre fez parte da minha vida.
Lembro quando, ainda criança, naquelas tardes de sol insuportavelmente quentes do Itaqui, minha Mãe maravilha me obrigava - sim, obrigava a " dormir un rato", isto é, vamos dormir só um pouquinho, pois neste horário não há nada melhor para repor as energias. Que energia eu, com 5 aninhos, precisava repor?
Antes tinha era energia de sobra pra gastar mas, obedecer era preciso.
A sesta vinha acompanhada de verdadeiro ritual, a Mãe fechava uma porta, que dava para a copa da casa, e instalava-se um silêncio de sepulcro. Estendia esteiras de palha no chão de parquê encerado, colocava o travesseiro e estirava-se ali, suspirando de felicidade. Eu, do seu lado, com os olhos enormes tentava, tentava, e nada de vir um pouquinho de sono, que fosse, mas não tinha saída, ao menor movimento ou tentativa de sair dali, ela me dizia " que pása, nena?"
Adeus, fuga para o pátio...só me restava ficar escutando a orquestra das cigarras, enlouquecidas, agarradas nos galhos dos cinamomos.
Queria ver minha mãe fula da vida, era fazer barulho na hora da sesta, que durava não " un rato", mas umas boas duas horas; ao raiar das 16, 16:30, ela acordava, feliz da vida, para organizar o famoso lanchinho básico da tarde ao qual já me referi numa post anterior, fazer un matecito e sentar com meu Pai na cozinha para tomá-lo, bem devagar.
Depois que fui morar no Portinho, o instituto da sesta foi definitivamente abolido e, até pouco tempo, somente lembrava-me dele - não sem saudade!
Vejam vocês como a vida é engraçada, o mundo gira e voltamos ao nosso ponto de origem.
Depois de um verão tórrido como foi este último, e de ter (agora) as tardes livres para fazer o que me dá na telha(graças a Deus) resolvi, certo dia, sestear um pouco.
Não vou negar que achei aquilo simplesmente sensacional!
Das 14 às 16, dormi como uma bem aventurada, até sonhar, sonhei!
E, daquele dia em diante, declarei reaberto o instituto da sesta, agora bem mais incrementando: pijaminha, leitura de ZH ou de algum livro qualquer, una galletita e, então, lá pelas folhas tantas, deixo-me arrastar por aquele sono que vem como se fosse uma onda, e ploft...durmo, durmo como uma pedra.
E depois acordo, suspirando de felicidade, como minha Mãe, pois qualquer semelhança não é mera coincidência.
Só não como mais trigo com leite e rapadura!
Lembro quando, ainda criança, naquelas tardes de sol insuportavelmente quentes do Itaqui, minha Mãe maravilha me obrigava - sim, obrigava a " dormir un rato", isto é, vamos dormir só um pouquinho, pois neste horário não há nada melhor para repor as energias. Que energia eu, com 5 aninhos, precisava repor?
Antes tinha era energia de sobra pra gastar mas, obedecer era preciso.
A sesta vinha acompanhada de verdadeiro ritual, a Mãe fechava uma porta, que dava para a copa da casa, e instalava-se um silêncio de sepulcro. Estendia esteiras de palha no chão de parquê encerado, colocava o travesseiro e estirava-se ali, suspirando de felicidade. Eu, do seu lado, com os olhos enormes tentava, tentava, e nada de vir um pouquinho de sono, que fosse, mas não tinha saída, ao menor movimento ou tentativa de sair dali, ela me dizia " que pása, nena?"
Adeus, fuga para o pátio...só me restava ficar escutando a orquestra das cigarras, enlouquecidas, agarradas nos galhos dos cinamomos.
Queria ver minha mãe fula da vida, era fazer barulho na hora da sesta, que durava não " un rato", mas umas boas duas horas; ao raiar das 16, 16:30, ela acordava, feliz da vida, para organizar o famoso lanchinho básico da tarde ao qual já me referi numa post anterior, fazer un matecito e sentar com meu Pai na cozinha para tomá-lo, bem devagar.
Depois que fui morar no Portinho, o instituto da sesta foi definitivamente abolido e, até pouco tempo, somente lembrava-me dele - não sem saudade!
Vejam vocês como a vida é engraçada, o mundo gira e voltamos ao nosso ponto de origem.
Depois de um verão tórrido como foi este último, e de ter (agora) as tardes livres para fazer o que me dá na telha(graças a Deus) resolvi, certo dia, sestear um pouco.
Não vou negar que achei aquilo simplesmente sensacional!
Das 14 às 16, dormi como uma bem aventurada, até sonhar, sonhei!
E, daquele dia em diante, declarei reaberto o instituto da sesta, agora bem mais incrementando: pijaminha, leitura de ZH ou de algum livro qualquer, una galletita e, então, lá pelas folhas tantas, deixo-me arrastar por aquele sono que vem como se fosse uma onda, e ploft...durmo, durmo como uma pedra.
E depois acordo, suspirando de felicidade, como minha Mãe, pois qualquer semelhança não é mera coincidência.
Só não como mais trigo com leite e rapadura!
domingo, 30 de março de 2014
Té de Manzanilha
Hacete un té de Manzanilha
para curar el corazón
de aquel amor que no te quiso
y te despreció.
Hacete un té de manzanilha
y tomatelo despacio,
pensá que todo tiene remedio,
mismo un mal de amor que no sana
nunca.
No te aflijas.
Hacete un té de manzanilha
y tomatelo despacio...
sentirás la dulzura de una manãna de sol,
y tu alma triste se abrirá para la vida
como una flor de manzanilha.
para curar el corazón
de aquel amor que no te quiso
y te despreció.
Hacete un té de manzanilha
y tomatelo despacio,
pensá que todo tiene remedio,
mismo un mal de amor que no sana
nunca.
No te aflijas.
Hacete un té de manzanilha
y tomatelo despacio...
sentirás la dulzura de una manãna de sol,
y tu alma triste se abrirá para la vida
como una flor de manzanilha.
sábado, 29 de março de 2014
Exibimento de Mãe - III
A Karina, minha filha mais nova é, de longe, a mais agitada do meu trio parada dura.
Nasceu no finalzinho de outubro e chorou durante o primeiro ano de sua vida, trocando a noite pelo dia.
Imaginem vocês a minha suprema alegria quando meu bebê acordava ao raiar das 5 da matina e o único som que se ouvia era o de um galo cantando ao longe. Sim, aquele ano foi longooooo!!! Mas passou, como tudo passa, e a minha Kikizinha cresceu, cheia de mimos e manias, como é meio regra com os caçulas - olha meu caso aí, e agora começou a trilhar, também, seu próprio caminho.
Como boa escorpiana, é dona de uma vontade de ferro, ou seja, falou, tá falado, quedate tranquilo que ela não arredará pé de sua decisão. Sempre foi assim, desde os 10 meses quando começou a querer falar e no aniversário de 1 aninho, quando soltou a mão de todos e saiu caminhando, bem lampeira, pelo meio do salão.
Muito me acompanhou, esta minha filha mais nova, sempre carinhosa, sempre paciente, muitas vezes quem me deu colo foi ela, e não o contrário.
Por isso, quando a Kiki foi estudar no Portinho, a casa esvaziou de vez. Até as paredes ficaram emburradas, parece que cobriram-se de cinza, os gatos ficaram de mau humor, e nós, Alberto e eu, nos deparamos, de repente, com aquela imensidão de tempo só para nós. Terminaram-se as idas e vindas ao colégio, à academia, as buscas nas casas das amigas, os finais de festa.
Demoramos a nos acostumar, mas quando a gente vê um filho crescer e caminhar por si mesmo, ciente do que quer e, principalmente, do que não quer, a saudade melhora grande, sabemos que estamos ajudando aquela pessoa em formação a alcançar seus objetivos e a realizar seus sonhos, e isso nos faz felizes também.
Faz dois anos que a Karina mora longe de nós e, a cada reencontro, vemos as mudanças positivas que vão se operando, seu crescimento como pessoa, os novos valores que vem acrescentando a sua vida, num crescimento constante.
Agradeço a Deus todos os dias pela filha que tenho, motivo de alegria e orgulho para o coração desta mãe!
Nasceu no finalzinho de outubro e chorou durante o primeiro ano de sua vida, trocando a noite pelo dia.
Imaginem vocês a minha suprema alegria quando meu bebê acordava ao raiar das 5 da matina e o único som que se ouvia era o de um galo cantando ao longe. Sim, aquele ano foi longooooo!!! Mas passou, como tudo passa, e a minha Kikizinha cresceu, cheia de mimos e manias, como é meio regra com os caçulas - olha meu caso aí, e agora começou a trilhar, também, seu próprio caminho.
Como boa escorpiana, é dona de uma vontade de ferro, ou seja, falou, tá falado, quedate tranquilo que ela não arredará pé de sua decisão. Sempre foi assim, desde os 10 meses quando começou a querer falar e no aniversário de 1 aninho, quando soltou a mão de todos e saiu caminhando, bem lampeira, pelo meio do salão.
Muito me acompanhou, esta minha filha mais nova, sempre carinhosa, sempre paciente, muitas vezes quem me deu colo foi ela, e não o contrário.
Por isso, quando a Kiki foi estudar no Portinho, a casa esvaziou de vez. Até as paredes ficaram emburradas, parece que cobriram-se de cinza, os gatos ficaram de mau humor, e nós, Alberto e eu, nos deparamos, de repente, com aquela imensidão de tempo só para nós. Terminaram-se as idas e vindas ao colégio, à academia, as buscas nas casas das amigas, os finais de festa.
Demoramos a nos acostumar, mas quando a gente vê um filho crescer e caminhar por si mesmo, ciente do que quer e, principalmente, do que não quer, a saudade melhora grande, sabemos que estamos ajudando aquela pessoa em formação a alcançar seus objetivos e a realizar seus sonhos, e isso nos faz felizes também.
Faz dois anos que a Karina mora longe de nós e, a cada reencontro, vemos as mudanças positivas que vão se operando, seu crescimento como pessoa, os novos valores que vem acrescentando a sua vida, num crescimento constante.
Agradeço a Deus todos os dias pela filha que tenho, motivo de alegria e orgulho para o coração desta mãe!
sexta-feira, 28 de março de 2014
Exibimento de Mãe - II
Minha filha do meio, a Marina, a minha Jijinha, já nasceu a mil por hora e botando ordem na casa.
Tinha os cabelos bem lisinhos e loiros, que depois tornaram-se encaracolados e, mais tarde, novamente lisos...Marina, morena, Marina, você se pintou, era a música que eu cantava quando ela ainda estava na minha barriga.
Mamava desesperadamente e sempre queria mais, com 10 meses engatinhou e antes de completar 1 aninho, caminhou, decidida, pelo pátio da casa de meus Pais.
Mimosa do Vô Edgard, a minha Jijinha estava sempre às voltas com um paninho ( que era, na verdade, um lenço do Avô) que ela chamava de trapicho e dele não se desgrudava, olhava-me com seus imensos olhos cor de mel e a única coisa que eu desejava era estar sempre com ela, acarinhando aquela guriazinha linda que ria muito e batia pé, insistindo pelo que queria - prenúncio da força de vontade que norteou sua vida, desde sempre.
A melhor aluna, a Marina gostava também de outras atividades na escola, curiosa, antenada e decidida, pra ela nunca faltava tempo ou tinha tempo ruim.
E assim ela escolheu Engenharia Química, para espanto de todos nós, que somos ligados ao Direito e a Psicologia, e aquele caminho de fórmulas e cálculos intermináveis ela trilhou com uma dedicação e uma determinação espantosas, sua marca registrada.
Hoje, a Marina é Engenheira na empresa John Deer, onde trabalha há 8 meses, sai de casa as 6 hs da manhã, volta as 5 da tarde e encontra tempo pra fazer inglês, academia, aula de violão e, a partir de abril, vai começar uma Pós Graduação, com aulas aos sábados.
Para nós, que acompanhamos sua trajetória, é motivo de muito orgulho e alegria saber que ela está realizada na profissão que escolheu, amiga dos seus amigos, senhora de suas decisões e uma pessoa de bom caráter e de bom coração.
Esta mãe tem, ou não tem, motivos para estar feliz?
Tinha os cabelos bem lisinhos e loiros, que depois tornaram-se encaracolados e, mais tarde, novamente lisos...Marina, morena, Marina, você se pintou, era a música que eu cantava quando ela ainda estava na minha barriga.
Mamava desesperadamente e sempre queria mais, com 10 meses engatinhou e antes de completar 1 aninho, caminhou, decidida, pelo pátio da casa de meus Pais.
Mimosa do Vô Edgard, a minha Jijinha estava sempre às voltas com um paninho ( que era, na verdade, um lenço do Avô) que ela chamava de trapicho e dele não se desgrudava, olhava-me com seus imensos olhos cor de mel e a única coisa que eu desejava era estar sempre com ela, acarinhando aquela guriazinha linda que ria muito e batia pé, insistindo pelo que queria - prenúncio da força de vontade que norteou sua vida, desde sempre.
A melhor aluna, a Marina gostava também de outras atividades na escola, curiosa, antenada e decidida, pra ela nunca faltava tempo ou tinha tempo ruim.
E assim ela escolheu Engenharia Química, para espanto de todos nós, que somos ligados ao Direito e a Psicologia, e aquele caminho de fórmulas e cálculos intermináveis ela trilhou com uma dedicação e uma determinação espantosas, sua marca registrada.
Hoje, a Marina é Engenheira na empresa John Deer, onde trabalha há 8 meses, sai de casa as 6 hs da manhã, volta as 5 da tarde e encontra tempo pra fazer inglês, academia, aula de violão e, a partir de abril, vai começar uma Pós Graduação, com aulas aos sábados.
Para nós, que acompanhamos sua trajetória, é motivo de muito orgulho e alegria saber que ela está realizada na profissão que escolheu, amiga dos seus amigos, senhora de suas decisões e uma pessoa de bom caráter e de bom coração.
Esta mãe tem, ou não tem, motivos para estar feliz?
Exibimento de Mãe - I
Minha filha mais velha, a Rita Helena, está, neste momento histórico, al mare com seu amor, meu querido genro Adriano, de quem gosto como se fosse o filho homem que não tive.
Considero-me afortunada porque, em matéria de genros, no me puedo quejar, tem também o Pedro, namorado da Karina, que é meu outro filho.
A Rita, o meu Lilinho, nasceu com uma cabeleira meio estilo Mercedes Sosa, segundo falou seu pai, Ruy Armando assim que a viu, e com aquele narizinho arrebitado coisa mais linda do mundo, sem falar nos olhos negros e brilhantes e aquele sorrisão maravilhoso.
Sempre tranquila, companheira de todos os momentos e compenetradíssima, a Ritinha é meu pão de Deus, a primeira dos meus três amores, determinada e sabedora do que quer e para onde vai, "pero sin perder la ternura jamás", carinhosa como ela só!
Ano passado, com apenas ano e meio de formada, passou no concurso para Procuradora da Fase e foi nomeada, e lá deve estar fazendo um trabalho no qual - sei que é assim - dá o melhor de si.
Meu orgulho é poder ver, graças a Deus, minha filha de 25 aninhos caminhando com suas próprias pernas, organizando seu tempo e dona de sua vida, planejando estudos e especializações e buscando melhorar a cada dia, como ser humano e como profissional.
Sei que, sem falsa modéstia, contribuímos para isso, Alberto e eu, Ruy, cada um a seu modo e do seu jeito, mas sempre com o firme propósito de formar uma filha de bom caráter, firme em suas decisões e com os pés no chão.
Hoje ela está curtindo as primeiras férias remuneradas de sua vida, fazendo uma viagem de sonhos que planejou e esperou durante meses, fruto do seu esforço e de seu trabalho honesto e digno.
Que coisa linda!
Desculpem esta mãe faceira e babona, amigos, extremamente feliz e radiante com a felicidade de sua filha.
Ritinha, meu Lilinho querido, tenho o maior orgulho de você!
Considero-me afortunada porque, em matéria de genros, no me puedo quejar, tem também o Pedro, namorado da Karina, que é meu outro filho.
A Rita, o meu Lilinho, nasceu com uma cabeleira meio estilo Mercedes Sosa, segundo falou seu pai, Ruy Armando assim que a viu, e com aquele narizinho arrebitado coisa mais linda do mundo, sem falar nos olhos negros e brilhantes e aquele sorrisão maravilhoso.
Sempre tranquila, companheira de todos os momentos e compenetradíssima, a Ritinha é meu pão de Deus, a primeira dos meus três amores, determinada e sabedora do que quer e para onde vai, "pero sin perder la ternura jamás", carinhosa como ela só!
Ano passado, com apenas ano e meio de formada, passou no concurso para Procuradora da Fase e foi nomeada, e lá deve estar fazendo um trabalho no qual - sei que é assim - dá o melhor de si.
Meu orgulho é poder ver, graças a Deus, minha filha de 25 aninhos caminhando com suas próprias pernas, organizando seu tempo e dona de sua vida, planejando estudos e especializações e buscando melhorar a cada dia, como ser humano e como profissional.
Sei que, sem falsa modéstia, contribuímos para isso, Alberto e eu, Ruy, cada um a seu modo e do seu jeito, mas sempre com o firme propósito de formar uma filha de bom caráter, firme em suas decisões e com os pés no chão.
Hoje ela está curtindo as primeiras férias remuneradas de sua vida, fazendo uma viagem de sonhos que planejou e esperou durante meses, fruto do seu esforço e de seu trabalho honesto e digno.
Que coisa linda!
Desculpem esta mãe faceira e babona, amigos, extremamente feliz e radiante com a felicidade de sua filha.
Ritinha, meu Lilinho querido, tenho o maior orgulho de você!
A Rebelião da Vesícula.
Imaginem que, aos 52 anos, terei que me submeter a uma dieta um tanto quanto rigorosa para os meus padrões, sob pena de ter que operar a bendita vesícula que, há alguns dias, resolveu rebelar-se.
Essa notícia me aborreceu bastante.
Fiquei com tanta raiva que nem sequer me olhava no espelho; só de soslaio, e olhe lá. Cara feia é fome ou dor de estômago - no meu caso, dor na vesícula.E para que eu iria olhar minha própria cara de fúria refletida no espelho? Isso só pioraria a situação! Tentava me acalmar, mas nem uma triste bolachinha para alegrar o ambiente eu podia comer. Coisa desagradável, viu.
Andava há várias semanas - essa é que é verdade, com uma dorzinha incomodativa do lado direito e tanto falei nela e dela que, um dia, um colega de trabalho me deu um ultimato: ou vais ao médico, ou te levarei agora!
A la fresca!
Criei coragem e fui, que tal não era o estado da criatura, no caso, eu, para deixar minhas 1001 atividades e ir ao médico. Claro, meus amigos queridos, eu sei que isso é uma grande ignorância mas, podendo, não vou a nada nunca; minha farmácia caseira consiste em sal de frutas, eparema, aspirina e Ceréus, um remédio de china velha, como dizia meu Pai, muito bom para acalmar os nervos, e nada mais.
Na verdade, não sou afeita a medicamentos. Explico: uma vez, por erro médico, quase fui para o andar de cima, sim senhor, só que não: cheguei a dar uma volta por lá, mas fui barrada e mandada de volta, por isso minha verdadeira ojeriza a remédios.
Por sorte, este médico que me atendeu agora - e a quem passei a amar no mesmo instante, tendo em vista o que me falou, disse-me que não era nada urgente, etc mas... fazer dieta é preciso.
Amigos, a minha Mãe maravilha era argentina, como todos sabem, e cozinhava divinamente. Claro que também importou de allá os melhores ingredientes e receitas de que se tem notícia em matéria de comida caseira.
De outra banda, a família paterna, italiana, em nada contribuiu para que eu me tornasse uma mulher magra e esbelta, muito pelo contrário, como é fato público e notório.
Fui criada na base de muito feijão com arroz, carnes com um suculento molho, massas de um sabor incomparável e sobremesas que só, só a minha Mãe e a Dona Gija, que era a encarregada da cozinha na casa de meu avô paterno sabiam fazer.
Um dia passo a vocês as receitas, mas aviso aos navegantes: comprem antes um salzinho de frutas.
Meus lanchinhos da tarde consistiam em trigo com leite gelado e, para adoçar, pedaços de rapadura que meu pai comprava no mercado, canjica com leite (e dê-lhe rapadura), ou uma xícara de café com leite que equivalia a mais ou menos meio litro, com muito pão d'água com manteiga feita em casa, olha o detalhe.
Aliás, um parentese: você já comeu manteiga feita em casa, batida com a nata que ficou daquele leite purinho que o leiteiro deixou na sua casa à primeira hora da manhã? É, isso existiu!
No inverno, aquelas sopas maravilhosas, fumegantes, perfumando a cozinha e o fogão a lenha com as brasas ardendo, aquecendo o ambiente e o coração.
Sim, meus amigos, me atracavam comida, e eu, né, fazer o que...comia. Tudo era muito bom!!!
Agora, a sra. vesícula decidiu por um fim a minha orgia gastronômica e simplesmente acabou-se a festa: é verdurinha pra cá, frutinha pra lá, chás, imagínate, nem meu copito de leite de 250 ml que eu costumava tomar antes de dormir, claro que com alguns acompanhamentos tipo bolo de laranja ou bolachinha maria, eu posso mais!
Se ela está rebelde, eu estou revoltadíssima! Pensem bem, no rigor do inverno, somente um triste pratinho de mocotó, e bem raso, vai ser a dose máxima.
É a treva!
Ao menos, uma notícia auspiciosa: posso tomar mate, que não dá nada.
Sim, porque, sin mi matecito...andáte a la quete, vesícula!
Essa notícia me aborreceu bastante.
Fiquei com tanta raiva que nem sequer me olhava no espelho; só de soslaio, e olhe lá. Cara feia é fome ou dor de estômago - no meu caso, dor na vesícula.E para que eu iria olhar minha própria cara de fúria refletida no espelho? Isso só pioraria a situação! Tentava me acalmar, mas nem uma triste bolachinha para alegrar o ambiente eu podia comer. Coisa desagradável, viu.
Andava há várias semanas - essa é que é verdade, com uma dorzinha incomodativa do lado direito e tanto falei nela e dela que, um dia, um colega de trabalho me deu um ultimato: ou vais ao médico, ou te levarei agora!
A la fresca!
Criei coragem e fui, que tal não era o estado da criatura, no caso, eu, para deixar minhas 1001 atividades e ir ao médico. Claro, meus amigos queridos, eu sei que isso é uma grande ignorância mas, podendo, não vou a nada nunca; minha farmácia caseira consiste em sal de frutas, eparema, aspirina e Ceréus, um remédio de china velha, como dizia meu Pai, muito bom para acalmar os nervos, e nada mais.
Na verdade, não sou afeita a medicamentos. Explico: uma vez, por erro médico, quase fui para o andar de cima, sim senhor, só que não: cheguei a dar uma volta por lá, mas fui barrada e mandada de volta, por isso minha verdadeira ojeriza a remédios.
Por sorte, este médico que me atendeu agora - e a quem passei a amar no mesmo instante, tendo em vista o que me falou, disse-me que não era nada urgente, etc mas... fazer dieta é preciso.
Amigos, a minha Mãe maravilha era argentina, como todos sabem, e cozinhava divinamente. Claro que também importou de allá os melhores ingredientes e receitas de que se tem notícia em matéria de comida caseira.
De outra banda, a família paterna, italiana, em nada contribuiu para que eu me tornasse uma mulher magra e esbelta, muito pelo contrário, como é fato público e notório.
Fui criada na base de muito feijão com arroz, carnes com um suculento molho, massas de um sabor incomparável e sobremesas que só, só a minha Mãe e a Dona Gija, que era a encarregada da cozinha na casa de meu avô paterno sabiam fazer.
Um dia passo a vocês as receitas, mas aviso aos navegantes: comprem antes um salzinho de frutas.
Meus lanchinhos da tarde consistiam em trigo com leite gelado e, para adoçar, pedaços de rapadura que meu pai comprava no mercado, canjica com leite (e dê-lhe rapadura), ou uma xícara de café com leite que equivalia a mais ou menos meio litro, com muito pão d'água com manteiga feita em casa, olha o detalhe.
Aliás, um parentese: você já comeu manteiga feita em casa, batida com a nata que ficou daquele leite purinho que o leiteiro deixou na sua casa à primeira hora da manhã? É, isso existiu!
No inverno, aquelas sopas maravilhosas, fumegantes, perfumando a cozinha e o fogão a lenha com as brasas ardendo, aquecendo o ambiente e o coração.
Sim, meus amigos, me atracavam comida, e eu, né, fazer o que...comia. Tudo era muito bom!!!
Agora, a sra. vesícula decidiu por um fim a minha orgia gastronômica e simplesmente acabou-se a festa: é verdurinha pra cá, frutinha pra lá, chás, imagínate, nem meu copito de leite de 250 ml que eu costumava tomar antes de dormir, claro que com alguns acompanhamentos tipo bolo de laranja ou bolachinha maria, eu posso mais!
Se ela está rebelde, eu estou revoltadíssima! Pensem bem, no rigor do inverno, somente um triste pratinho de mocotó, e bem raso, vai ser a dose máxima.
É a treva!
Ao menos, uma notícia auspiciosa: posso tomar mate, que não dá nada.
Sim, porque, sin mi matecito...andáte a la quete, vesícula!
quinta-feira, 27 de março de 2014
Portinho, 242 Anos!
Cheguei em Porto Alegre aos 16 anos, acompanhada pela minha Mãe maravilha que, dois dias depois, considerou que eu estava devidamente instalada no Pensionato Teresiano, me deu um longo abraço, muitos beijos e nadica de nada conseguiu falar além de um sussurrado "cuidate, nena", sufocada pelas lágrimas.
Ahhh, como hoje, e somente hoje, entendo a minha mãe, hoje, com minhas filhas, meus três amores morando longe de mim...mas isso é outra história.
Refiro-me ao ano de 1978, março, eu, chegada lá do Itaqui, com minha malinha de roupas um tanto quanto bregas, eufemisticamente falando, sem conhecer nada nem ninguém, solta naquela cidade imensa.
Que pavor, viu! Nem de ônibus eu sabia andar. Itaqui não tinha ônibus, ora bolas! E só se aprende tentando, e foi assim que, pela primeira na vida, aos 16 anos, subi num ônibus de transporte coletivo urbano, subi, e não sabia como fazer pra descer: será que peço ao motorista? pergunto para aquele homem estranho, que fica gritando " um passinho à frenteeee"? Precisava ir até a Biblioteca da UFRGS, mas vi o prédio, e o ônibus se foi, Osvaldo Aranha afora, e eu ali, suando, queria descer e não sabia como, até que lembrei de minha Mãe - como sempre, com seus sábios conselhos, " nenita, quem tem boca vai a Roma", e me atrevi a perguntar, como faço pra descer do ônibus? Ufaaa. Precisei voltar seis quadras, mas aprendi.
O primeiro ano foi muito difícil.
Acostumada a andar livre pelas ruas do meu Itaqui, morando numa casa grande, de repente meu espaço resumiu-se a um pequeno quarto, onde fazia um barulho infernal, e tudo era muito, muito diferente.
Pior eram os domingos, nos quais o povo do Pensionato que morava em cidades vizinhas a Porto Alegre se mandava e ficávamos somente as do Interior.
Quanta solidão!
Saudade, saudade, saudade. Eu chorava horrores, mas quando o Pai e a Mãe me telefonavam - o que acontecia só aos domingos, as 20 hs, eu fingia estar muito bem, afinal, não tinha sido aquele o meu sonho, o de ir estudar em Porto Alegre? Tinha mais era que aguentar.
O tempo passou, e Porto Alegre foi me seduzindo, lentamente, aos poucos. Sua gente, suas ruas, parques, a vida cultural, a agitação.
Morei três anos no Pensionato e mudei para um apartamento na Av. Independência.
Aí sim, virei gente grande! Estava terminando a faculdade, morava sozinha e o Itaqui era muito bom, sim, mas...a vida no Portinho era muito melhor! O Portinho e eu viramos as melhores amigas de infância, companheiras inseparáveis, nossa cumplicidade era total. Decifrei o mapa da cidade, conhecia todos os lugares, como ir, como voltar.
Meu tempo de Porto Alegre foi de doze anos, um somatório de coisas boas, experiências que carregarei para toda a vida, assim como as amizades que fiz por lá.
Voltei pra Itaqui em 1990 mas, sempre que posso, tomo o rumo do Portinho, e a alegria invade meu coração quando avisto a Ponte do Guaíba, os armazéns do Cais do Porto, as luzes, o barulho, o vai e vem das pessoas.
Obrigada, Porto Alegre, amiga que me acolheu tão bem, que me acarinhou, que me passou grandes lições!
Te amo, meu Portinhoooo, por isso sempre quero voltar!
Ahhh, como hoje, e somente hoje, entendo a minha mãe, hoje, com minhas filhas, meus três amores morando longe de mim...mas isso é outra história.
Refiro-me ao ano de 1978, março, eu, chegada lá do Itaqui, com minha malinha de roupas um tanto quanto bregas, eufemisticamente falando, sem conhecer nada nem ninguém, solta naquela cidade imensa.
Que pavor, viu! Nem de ônibus eu sabia andar. Itaqui não tinha ônibus, ora bolas! E só se aprende tentando, e foi assim que, pela primeira na vida, aos 16 anos, subi num ônibus de transporte coletivo urbano, subi, e não sabia como fazer pra descer: será que peço ao motorista? pergunto para aquele homem estranho, que fica gritando " um passinho à frenteeee"? Precisava ir até a Biblioteca da UFRGS, mas vi o prédio, e o ônibus se foi, Osvaldo Aranha afora, e eu ali, suando, queria descer e não sabia como, até que lembrei de minha Mãe - como sempre, com seus sábios conselhos, " nenita, quem tem boca vai a Roma", e me atrevi a perguntar, como faço pra descer do ônibus? Ufaaa. Precisei voltar seis quadras, mas aprendi.
O primeiro ano foi muito difícil.
Acostumada a andar livre pelas ruas do meu Itaqui, morando numa casa grande, de repente meu espaço resumiu-se a um pequeno quarto, onde fazia um barulho infernal, e tudo era muito, muito diferente.
Pior eram os domingos, nos quais o povo do Pensionato que morava em cidades vizinhas a Porto Alegre se mandava e ficávamos somente as do Interior.
Quanta solidão!
Saudade, saudade, saudade. Eu chorava horrores, mas quando o Pai e a Mãe me telefonavam - o que acontecia só aos domingos, as 20 hs, eu fingia estar muito bem, afinal, não tinha sido aquele o meu sonho, o de ir estudar em Porto Alegre? Tinha mais era que aguentar.
O tempo passou, e Porto Alegre foi me seduzindo, lentamente, aos poucos. Sua gente, suas ruas, parques, a vida cultural, a agitação.
Morei três anos no Pensionato e mudei para um apartamento na Av. Independência.
Aí sim, virei gente grande! Estava terminando a faculdade, morava sozinha e o Itaqui era muito bom, sim, mas...a vida no Portinho era muito melhor! O Portinho e eu viramos as melhores amigas de infância, companheiras inseparáveis, nossa cumplicidade era total. Decifrei o mapa da cidade, conhecia todos os lugares, como ir, como voltar.
Meu tempo de Porto Alegre foi de doze anos, um somatório de coisas boas, experiências que carregarei para toda a vida, assim como as amizades que fiz por lá.
Voltei pra Itaqui em 1990 mas, sempre que posso, tomo o rumo do Portinho, e a alegria invade meu coração quando avisto a Ponte do Guaíba, os armazéns do Cais do Porto, as luzes, o barulho, o vai e vem das pessoas.
Obrigada, Porto Alegre, amiga que me acolheu tão bem, que me acarinhou, que me passou grandes lições!
Te amo, meu Portinhoooo, por isso sempre quero voltar!
quarta-feira, 26 de março de 2014
Caramelito
Eu tinha ( e sempre terei) adoração por minhas tias argentinas, as irmãs de minha Mãe, Maria Luisa e Alba Mercedes.
Maria Luisa, a Tia Mary, era uma pessoa culta, diretora de escola municipal no Alvear, sempre inteirada de todos os assuntos do país e do mundo, lia muito, as estantes e os móveis de sua casa eram cheios de livros dos mais variados tipos, desde os infantis, embora não tivesse filhos, passando pela poesia, indo pelos clássicos e assim por diante. Nós nutríamos grande amizade uma pela outra, uma camaradagem de amigas de toda uma vida, apesar da diferença de idade; ficávamos horas juntas, rindo de qualquer coisa e conversando. Ela me mimava como a filha que não tinha.
Alba Mercedes, a Tia Albita, era uma mulher linda, também era diretora de uma escola estadual em Concordia, onde morava, e pra lá fui muitas e muitas vezes passear, sair com ela para tomar banho de rio, comer um fantástico sorvete de doce de leite, as noites de verão eram pequenas para tanto assunto e, também, apesar de nossa diferença de idade, nos dávamos muito bem. Ela me mimava como a filha que não tinha.
O que ficou de tantas vivências maravilhosas com minhas tias maternas?
Ficou um saldo muito positivo de açúcar em mim.
Explica-se: elas me tratavam a pão de ló, me davam colo, saiam comigo, mostravam-me coisa novas, faziam a sobremesa que eu mais gostava para me esperar, como se eu fosse uma visita ilustre, só que não, eu era apenas a sobrinha criança/adolescente que chegava na casa delas com suas pequenas histórias pra contar, e nós, simplesmente, nos amávamos. Nosso convívio era doce, terno, agradável, elas, para mim, eram como um porto seguro ao qual eu podia chegar a qualquer momento e arriar as velas. Os abraços estavam ali, as palavras certas e sábias e carinhosas estavam ali.
E havia, também, entre as duas, um traço em comum: quando percebiam algum resquício de tristeza em mim elas, prontamente, perguntavam: " No queres um caramelito? Tomá um caramelito, y quedarás muy bien." Era a forma amorosa que encontravam de dizer " estou a teu lado, toma minha mão."
Por tais razões e tantas outras, meu queridos amigos, tenho uma dificuldade extrema em lidar com pessoas amargas, com pessoas/fel, que se comprazem em estragar o dia do outro, em criar uma montanha de dificuldades, em deixar um rastro de destruição por onde andam.
A amargura estampa o rosto desse tipo de ser humano e deixa marcas profundas, o que é uma lástima, com tantas coisas boas que temos sob este céu que nos protege.
Perdoem-me, amargos, mas não podem me culpar pelo excesso de amor que recebi, graças a Deus, o que me leva a perguntar, não sem uma ponta tristeza:
Será que nunca tiveram uma tia para lhes ofertar " un caramelito?"
Maria Luisa, a Tia Mary, era uma pessoa culta, diretora de escola municipal no Alvear, sempre inteirada de todos os assuntos do país e do mundo, lia muito, as estantes e os móveis de sua casa eram cheios de livros dos mais variados tipos, desde os infantis, embora não tivesse filhos, passando pela poesia, indo pelos clássicos e assim por diante. Nós nutríamos grande amizade uma pela outra, uma camaradagem de amigas de toda uma vida, apesar da diferença de idade; ficávamos horas juntas, rindo de qualquer coisa e conversando. Ela me mimava como a filha que não tinha.
Alba Mercedes, a Tia Albita, era uma mulher linda, também era diretora de uma escola estadual em Concordia, onde morava, e pra lá fui muitas e muitas vezes passear, sair com ela para tomar banho de rio, comer um fantástico sorvete de doce de leite, as noites de verão eram pequenas para tanto assunto e, também, apesar de nossa diferença de idade, nos dávamos muito bem. Ela me mimava como a filha que não tinha.
O que ficou de tantas vivências maravilhosas com minhas tias maternas?
Ficou um saldo muito positivo de açúcar em mim.
Explica-se: elas me tratavam a pão de ló, me davam colo, saiam comigo, mostravam-me coisa novas, faziam a sobremesa que eu mais gostava para me esperar, como se eu fosse uma visita ilustre, só que não, eu era apenas a sobrinha criança/adolescente que chegava na casa delas com suas pequenas histórias pra contar, e nós, simplesmente, nos amávamos. Nosso convívio era doce, terno, agradável, elas, para mim, eram como um porto seguro ao qual eu podia chegar a qualquer momento e arriar as velas. Os abraços estavam ali, as palavras certas e sábias e carinhosas estavam ali.
E havia, também, entre as duas, um traço em comum: quando percebiam algum resquício de tristeza em mim elas, prontamente, perguntavam: " No queres um caramelito? Tomá um caramelito, y quedarás muy bien." Era a forma amorosa que encontravam de dizer " estou a teu lado, toma minha mão."
Por tais razões e tantas outras, meu queridos amigos, tenho uma dificuldade extrema em lidar com pessoas amargas, com pessoas/fel, que se comprazem em estragar o dia do outro, em criar uma montanha de dificuldades, em deixar um rastro de destruição por onde andam.
A amargura estampa o rosto desse tipo de ser humano e deixa marcas profundas, o que é uma lástima, com tantas coisas boas que temos sob este céu que nos protege.
Perdoem-me, amargos, mas não podem me culpar pelo excesso de amor que recebi, graças a Deus, o que me leva a perguntar, não sem uma ponta tristeza:
Será que nunca tiveram uma tia para lhes ofertar " un caramelito?"
terça-feira, 25 de março de 2014
Caravana da Coragem
Tinha cinco anos quando avistei o mar pela primeira vez, na Praia Brava, pela mão de meu Pai e, durante o ano todo, ficava sonhando com os dias que antecediam o veraneio, e assim é, até hoje.
Estar perto do mar, ir à praia, pra mim, é questão de sobrevivência, e explico aos meus amados amigos que, na condição de moradora da Fronteira Oeste onde, no verão, 45 graus é coisa habitual e corriqueira, avistar aquela imensidão azul e sentir a brisa que sopra todo final de tarde é de deixar a alma de qualquer cristão louca de faceira.
Meus preparativos começam lá pelo mês de setembro, quando os primeiros raios de sol um pouco mais forte se fazem sentir, a temperatura ainda está amena, e se pode planejar a viagem, que costumo chamar de " a caravana da coragem", com calma.
Trabalho o ano inteiro para desfrutar por tão somente 10, 12 dias, as delícias de ficar num dolce far niente, estirada como um lagarto ao sol, sim, sim, eu sei que sou extremamente politicamentiiiii incorrréééétaaa, mas não uso filtro solar fator 50, não.
Levo Rayito de Sol, um bronzeador argentino que existe há uns 50 anos, mais ou menos, e que me deixa com uma cor fabulosa, até porque uma das grandes alegrias de ir a praia é você voltar com aquele bronzeado de quem passou uma temporada no Saara e ver que suas amigas estão um tantinho mais brancas que você.
E não adianta mentir que não é assim, porque é, que jogue o primeiro tubo de bronzeador a mulher que não adora exibir seu bronzeado pra outra.
Como eu dizia, me viro mais que bolacha em boca de velho durante o ano todo para sair de férias e ir daqui até a praia carregando, na mala, dois chinelinhos, uns vestidos, bermuda, camiseta e fim de linha. E, claro, meu inseparável tubo de Rayito.
Ao raiar das 6 da manhã parte a caravana da coragem, porque dispor-se a viajar 900 km, sair da sua zona de conforto, do seu pátio, da sua piscina, do dia a dia bem certinho dentro do vidrinho não é lá tarefa muito fácil, mas eu vou, eu vou, pra praia agora eu vou, e nada me ataca.
Afinal, eu me mando: a preguiça, o desejo de ficar em casa muito bem instalada, a distância, ficam me assoprando, uns três dias antes da viagem: " não vai, bobalhona, fica; olha que pode chover durante os 12 dias, hem; olha que o trânsito atééééé láááá é infernal; olha a trabalheira de arrumar a mala, acomodar os gatos, contratar o guarda, tanquear o carro, calibrar pneus... ufaaaa - muito melhor é ficar por aqui, mesmo!"
Ahhh, mas não me rendo, por mais que essas vozes fiquem me cutucando, eu vou. Eu vou para Maracangalha, com ou sem a Nalha, mas eu vou!!!
E, à primeira visão do mar, faço o que já se tornou um ritual: sento quietinha, sentindo a areia sob os pés, e deixo-me ficar, e a única palavra que me vem à cabeça é: Obrigada!
Sentimento de gratidão por estar ali, no lugar que adoro, com as pessoas que amo, fazendo uma das coisas que mais gosto na vida, que é estar junto ao mar.
Por isso, cada vez que parte a caravana da coragem, estrada afora, sempre penso: lá no final do caminho está teu pote de ouro.
E, já na estrada avisto, sempre, um arco íris lindo à minha frente!
P.s. Ao meu fã clube de meia dúzia de gatos pingados que ontem reclamou que não postei nada, seguinte: meu final de semana foi algo do tipo Sábado de Aleluia, se é que me entendem...muita corrida de 22 Km, por isso, ontem, tirei o dia pra descansar a beleza e cuidar da pele!
Beijos, até mais ver, fuiiii!!!
Estar perto do mar, ir à praia, pra mim, é questão de sobrevivência, e explico aos meus amados amigos que, na condição de moradora da Fronteira Oeste onde, no verão, 45 graus é coisa habitual e corriqueira, avistar aquela imensidão azul e sentir a brisa que sopra todo final de tarde é de deixar a alma de qualquer cristão louca de faceira.
Meus preparativos começam lá pelo mês de setembro, quando os primeiros raios de sol um pouco mais forte se fazem sentir, a temperatura ainda está amena, e se pode planejar a viagem, que costumo chamar de " a caravana da coragem", com calma.
Trabalho o ano inteiro para desfrutar por tão somente 10, 12 dias, as delícias de ficar num dolce far niente, estirada como um lagarto ao sol, sim, sim, eu sei que sou extremamente politicamentiiiii incorrréééétaaa, mas não uso filtro solar fator 50, não.
Levo Rayito de Sol, um bronzeador argentino que existe há uns 50 anos, mais ou menos, e que me deixa com uma cor fabulosa, até porque uma das grandes alegrias de ir a praia é você voltar com aquele bronzeado de quem passou uma temporada no Saara e ver que suas amigas estão um tantinho mais brancas que você.
E não adianta mentir que não é assim, porque é, que jogue o primeiro tubo de bronzeador a mulher que não adora exibir seu bronzeado pra outra.
Como eu dizia, me viro mais que bolacha em boca de velho durante o ano todo para sair de férias e ir daqui até a praia carregando, na mala, dois chinelinhos, uns vestidos, bermuda, camiseta e fim de linha. E, claro, meu inseparável tubo de Rayito.
Ao raiar das 6 da manhã parte a caravana da coragem, porque dispor-se a viajar 900 km, sair da sua zona de conforto, do seu pátio, da sua piscina, do dia a dia bem certinho dentro do vidrinho não é lá tarefa muito fácil, mas eu vou, eu vou, pra praia agora eu vou, e nada me ataca.
Afinal, eu me mando: a preguiça, o desejo de ficar em casa muito bem instalada, a distância, ficam me assoprando, uns três dias antes da viagem: " não vai, bobalhona, fica; olha que pode chover durante os 12 dias, hem; olha que o trânsito atééééé láááá é infernal; olha a trabalheira de arrumar a mala, acomodar os gatos, contratar o guarda, tanquear o carro, calibrar pneus... ufaaaa - muito melhor é ficar por aqui, mesmo!"
Ahhh, mas não me rendo, por mais que essas vozes fiquem me cutucando, eu vou. Eu vou para Maracangalha, com ou sem a Nalha, mas eu vou!!!
E, à primeira visão do mar, faço o que já se tornou um ritual: sento quietinha, sentindo a areia sob os pés, e deixo-me ficar, e a única palavra que me vem à cabeça é: Obrigada!
Sentimento de gratidão por estar ali, no lugar que adoro, com as pessoas que amo, fazendo uma das coisas que mais gosto na vida, que é estar junto ao mar.
Por isso, cada vez que parte a caravana da coragem, estrada afora, sempre penso: lá no final do caminho está teu pote de ouro.
E, já na estrada avisto, sempre, um arco íris lindo à minha frente!
P.s. Ao meu fã clube de meia dúzia de gatos pingados que ontem reclamou que não postei nada, seguinte: meu final de semana foi algo do tipo Sábado de Aleluia, se é que me entendem...muita corrida de 22 Km, por isso, ontem, tirei o dia pra descansar a beleza e cuidar da pele!
Beijos, até mais ver, fuiiii!!!
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