quinta-feira, 10 de abril de 2014

Fogão a Lenha

Um fogão a lenha tem seus encantos!
Havia um na casa de minha avó materna, Adelaida, na casa do meu avô paterno, Atílio e, claro, na casa dos meus pais.
Na casa de minha avó Adelaida, no Alvear, ele ficava bem no meio da cozinha, sempre aceso, com suas brasas brilhantes e um grande panelão de doce de mamão, borbulhando, dourado,  perfumando a casa toda e deixando a vizinhança com água na boca. Estirados sobre o chão e junto ao calor do fogo, estavam os gatos de doña Adelaida, um preto, outro cinza, um bege, um, cor de burro quando foge; os gatos não perdiam ponto de nada, sempre atentos aos movimentos de Otília, a cozinheira que, uma e outra vez,  jogava para eles uns pedacinhos de carne. No forno, um pan dulce crescia, devagar, como devem crescer os pães, feito especialmente para el té de la tarde, outra das tantas maravilhas que eram preparadas na casa da vó. Nós chegávamos de Itaqui lá pelas 11 da manhã, minha Mãe e eu, e íamos direto para a cozinha, onde tomávamos um chá com leite com pão torrado e manteiga, pão torrado na chapa do fogão - um espetáculo!
Na casa de meu avô Atílio, o fogão a lenha também ficava no meio da cozinha e dali saíram as melhoras iguarias que comi na vida, desde o simples feijão até um suflê de aspargos ou um tatu assado, cujo molho amadeirado mãe Gija, a cozinheira, me fazia provar, embebido em pedacinhos de pão. Nós ficávamos sentadas na cadeira da cozinha, ela e eu, ela sempre destampando as panelas e abrindo a portinhola do fogão para colocar mais lenha, não sem antes gritar para os cachorros Amigo, Tupi  e Chita, sempre latindo e abanando a cola: " saaaiiiiiiiiiiiii ".  Lá pelas tantas, aparecia meu avô para pedir seus dois ovos fritos e um bife na chapa.
Amigos, um bife feito numa chapa de fogão a lenha,  com um pedaço (generoso) de pão d'água, é para alegrar qualquer coração!
Na casa de meus pais, o fogão a lenha ficava no canto da cozinha, perto de uma janela.
Como lembro do meu Pai, em sua cadeira de balanço, tomando lentamente seu matecito, a chaleira sobre a chapa quente, dividindo espaço com uma panela de doce - minha Mãe fazia a mesma coisa que minha avó fazia, e eu  tento fazer igual, porque cheiro de doce, para mim, é sinônimo de felicidade.
O fogão a lenha começava a funcionar logo ao primeiro frio do Outono, e só era deixado de lado no rigor do Verão.
Aquecia a enorme cozinha de nossa casa, exercendo sobre nós, sentados a sua volta observando o estalar das lenhas e as brasas que se formavam, uma espécie de encantamento, até precisar sair para o pátio gelado e buscar mais lenha, e assim passávamos, conversando fiado por horas a fio.
O ventinho frio de hoje me fez  lembrar dos fogões a lenha que fizeram parte de minha vida,  em torno dos quais tantas histórias foram contadas e tecidas, alegrias compartilhadas, almas aquecidas.
Momentos lindos e mágicos que não se perderão, nem com a bruma do tempo.




Ratonita

Certo dia do longínquo ano de 1965, minha Tia Maria Luisa chegou do Alvear com um presente para mim: era uma pequena ratinha de borracha, com um vestido de bolinhas vermelhas e brancas e um tope, também vermelho,  na cabeça.
Imediatamente, encantei-me por aquela rata sorridente, de olhos pretos e brilhantes, a qual passei a chamar de Ratonita,  porque a influência do espanhol era uma constante em nossa casa.
Minha nova amiga e eu andávamos por todos os lugares, não nos separávamos jamais. No  meu imaginário de criança, eu  mantinha longas conversas com ela, que me acompanhava na hora do almoço, nas andanças pelo pátio, na janta, na hora de dormir.
Ratonita era uma amiga leal e, embora fosse de borracha, era como se fosse um ser vivo, tinha alma.
Quando me via triste,  olhava-me com seus enormes olhos negros,  e seu ar risonho logo me fazia esquecer a manha e recomeçar a brincadeira; se me via alegre, sua boca abria-se ainda mais para sorrir.
O vestido de bolinhas vermelhas e brancas estava sujo, encardido, mas ninguém podia chegar perto dela para nada, só eu.
Um belo dia, em uma das tantas arrumações da Dona Kila (minha Mãe), Ratonita sumiu.
Foi num final de tarde que me dei conta que ela não estava em nenhum dos lugares que costumava ficar, jogada displicentemente.
O desespero começou a tomar conta de mim, e toda casa parou e entrou em polvorosa atrás da rata de borracha: meu Pai logo, logo se impacientou e levantou a voz e começou a gritar, fato que levou Pastor, o cachorro, a latir enlouquecidamente, minha mãe abanava-se, agitadíssima, meus irmãos a tudo assistiam, indiferentes, e eu chorava, desconsolada,  estirada sobre o sofá da sala.
Fui dormir sem minha Ratonita, sem poder olhar para seus olhos negros brilhantes e sua boca sorridente que eram como um abraço, sem tocar no vestido de bolinhas vermelhas e brancas, sujo e encardido. Por diversas vezes, naquela noite, acordei chorando, à procura dela, mas seu cantinho estava vazio.
Ratonita nunca mais foi encontrada.
Ficou um ano comigo e foi embora, provavelmente dentro de alguma caixa de objetos inservíveis, só Deus sabe para onde.
Ainda hoje, lembrar dela me emociona.
E, dirão, como pode lembrar, se tinha apenas quatro anos?
É simples: os afetos e o amor deixam marcas em nosso coração, e elas jamais se apagam.
E Ratonita, a ratinha de borracha, sabia disso como ninguém!




quarta-feira, 9 de abril de 2014

Corazón de Manteca

La Maldad le preguntó a la Dulzura:
De que te sirve un corazón de manteca,
Que no sea para que seas el hazme reir?
Para que seas alvo de habladurias
y sussurros?

De donde sacaste ese corazón de manteca
que para nada te sirve,
hubicado en tu pecho
para hacerte sufrir?

Mas vale, en su lugar
quizás pone una piedra,
menos daño te hará...
será?

Para que te sirve un corazón de manteca?

La Dulzura contestó:

Cállate, Maldad!

Mi corazón de manteca me hace ver
la alegria del sol
la delicia de la lluvia
la belleza de las flores
la hermosura de la luna
la imensidad del mar

Vete, Maldad!

Porque mientras me alumbram las estrellas,
en tu rostro no hay nada,
solamente oscuridad.











Poderoso Cavalheiro

"Poderoso Caballero es Don Dinero", dizia minha Mãe maravilha, " pero dinero no es todo", complementava.
E como estava certa!
Com dinheiro, tudo fica muito bem, obrigada.
Até aquelas pessoas que não lhe davam a menor pelota quando você era pobre de marré marré ou era um simples mortal comum e silvestre, passam a adorá-lo. Tudo em você é lindo, é perfeito, é belo.
Tudo que você faz ou diz é copiado e/ou imitado, sim, você é um ser espetacular com ideias geniais que nunca jamais ocorreram a alguém - somente a  você, que descobriu a pólvora.
Tanta hipocrisia é deveras lamentável, para não dizer que é algo nojento, porque até uma criatura de mediana inteligência se flagra de que toda aquela verdadeira pantomima não passa disso: de uma pantomima, arremedo grotesco de um sentimento inexistente.
Astuto, o Poderoso Cavalheiro escolhe a dedo sua presa,  sabendo de antemão que,  no coração daquela pessoa encontrará espaço suficiente para infiltrar-se e fazer  valer suas exigências.
O Poderoso  Cavalheiro sempre cobra seu preço, ninguém fica imune a sua passagem: destrói famílias inteiras, acaba com amizades antigas, quem era bom é taxado de idiota, quem era mau passa a ser idolatrado no altar erguido em sua honra, e assim ele segue seu caminho, altaneiro, zombeteiro, superior, olhando de cima para os que não fazem parte de seu rol, deixando para trás suas vítimas,  estropeadas por seu galope infernal, arrasadas e humilhadas.
Para felicidade geral da nação, ainda há pessoas que não pautam suas vidas apenas pelo dinheiro.
Valorizam a amizade, o companheirismo, o afeto.
Son pocos.
Pocos, pero buenos!




terça-feira, 8 de abril de 2014

Geminianos

Gêmeos é, disparado, o melhor signo do Zodíaco, e afirmo isso porque as pessoas que tem contato com um geminiano autêntico são privilegiadas: estão lidando, na verdade, com dois seres distintos, embora indissoluvelmente ligados.
Quem é de Gêmeos sabe do estou falando.
Se não, vejamos.
De modo geral, o geminiano detesta domingos, porque a maioria deles lhe parece monótono, melhor dizendo, previsíveis.
E nada como a previsibilidade de alguma coisa para aborrecer profundamente um ser agitado, falante e arejado como um geminiano.Aquela pasmaceira do domingo com todo o roteiro escrito é extremamente pesada para um ser que gosta de movimento.
Ué, então vai para o meio da multidão, dirão.
Não é nada disso. No fundo, no fundo, se ele for parar em uma movimentada feira, por exemplo, ficará pensando, mas afinal de contas, o que será que eu vim fazer aqui? Deveria ter ficado em casa, tranquilo e sereno.
Por tais razões, o domingo é um dia no qual o geminiano pensa, e pensa muito, o que costuma causar grande inquietação a sua alma, porque dificilmente não pensará naquele problema quase insolúvel que precisa resolver e não sabe nem por onde começar. Por outro lado, a ausência de algum questionamento maior leva-lo-á, inevitavelmente, a um tédio atroz, e ele pensará, tomara que termine este dia e venha logo a segunda feira.
Caminhando na contramão da humanidade, eis que surge o geminiano em seu local de trabalho na segunda feira, lépido e faceiro, mas não sem antes ter pensado, durante o caminho, nossa, que coisa mais chata, começa tudo outra vez, estou com tanto sono, se hoje fosse feriado, poderia ter ficado até tarde lendo aquele livro maravilhoso...
Ao primeiro gole de café preto, recomeça a  semana e ele sente-se a mil, antenado e pronto para resolver o que for possível. Sim, porque o impossível será realizado, ele pensa,  nada de cansar demais a beleza e nem gastar tanta pólvora com chimango.
Passam-se os dias, e o geminiano segue seu curso com a dualidade que lhe é peculiar: será que vou ao aniversário, ou à academia? se bem que aniversário é só uma vez ao ano, né, academia tem todo dia...
viajo,  para sair da rotina e respirar um ar diferente? melhor, não...muito tempo fora...quem cuidará dos meus gatos? deixarão morrer minhas plantinhas que levei um ano cultivando e pelas quais paguei uma nota preta na floricultura? Ah, que se dane tudo, vou e pronto! Mas, assim que entra no ônibus, começam a cair algumas lágrimas, que ele disfarçadamente seca, porque começa a pensar que, afinal das contas, a vida na paróquia que habita é muito boa...
Jamais cometa a suprema loucura de querer patrulhar um geminiano. Aí, perdeu! Quem é de Gêmeos precisa de ar, de espaço, do abraço que acolhe sem sufocar, do carinho que cuida sem vigiar, do amor cultivado, dia após dia, de alegrias compartilhadas. Aliás, via de regra o geminiano é alegre, agregador. Quieto, ou está com dor de estômago, ou debatendo um assunto de alta indagação com seu outro gêmeo, e o melhor a fazer é sair de fininho e não perturbar.
Geminianos adoram um pouco de suspense, só para deixar seu interlocutor com vários pontos de interrogação no olhar.
Por isso, quando você achar que sabe tudo sobre um geminiano, no te iludas, hermanito: todavia te falta mucho!







segunda-feira, 7 de abril de 2014

Rata de Livraria

O primeiro amor de minha vida foi um livro.
Sei que isso soa um tanto quanto bizarro, mas a verdade é que quando, aos 7 anos, meu pai presenteou-me com Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, fiquei irremediavelmente apaixonada por aquele história e ligada para o resto de minha vida à leitura, sem a qual seria como viver pela metade.
Tamanho exagero de sentimentos por um livro?
Sim.
Meu Pai era um leitor voraz, minha Mãe, idem, minhas tias maternas, também, e esse fator criou um verdadeiro circuito de informações sobre os melhores livros, os piores, os que estavam no topo, os que não constavam de lista nenhuma mas eram igualmente bons, e assim por diante.
Tamanha mistura achou em mim terreno fértil, a ponto de trocar livros com minhas tias argentinas que, por sua vez, a cada vinda a Itaqui, chegavam sempre  com um livro em punho, podia ser um romance ou de poesias, mas eram lindos.
Desde que aprendi a ler e a escrever, a leitura fez, faz e continuará fazendo parte de minha vida, um hábito maravilhoso...um hábito não; tornou-se um hábito. O amor pela leitura é um verdadeiro legado que meus Pais e minhas tias maternas me deixaram, tão rico e fantástico que seu valor é incalculável, aliás, não tem preço.
De simples livrinhos infantis que continham cinco, seis páginas, em português ou em espanhol, passando por Robinson Crusoé, as Viagens Fantásticas de Gulliver, Contos de Fadas, As Mil e Uma Noites, Quo Vadis, e assim, até os dias de hoje, perdi a conta dos livros que já tive em mãos, livros que vou lendo e passando adiante para minhas filhas e para meus amigos, porque quero compartilhar com todos o prazer inenarrável de uma boa leitura.
Rata de livraria,  El Ateneo, em Buenos Aires, é programa do qual não abro mão, assim como quando vou a qualquer cidade, acho que as livrarias tem algum tipo de imã que me atrai.
Dificilmente saio de mãos abanando.
Saber que disponho de um livro novinho em folha para ler desperta em mim uma alegria infantil, e começo a leitura com um verdadeiro ritual:  a primeira coisa que faço é abri-lo, cuidadosamente, sentindo o cheiro do livro que ainda não foi tocado ( não pensem que sou uma tarada, cheirando livros) e, acreditem, amigos, o livrito novo tem um cheiro peculiar; a seguir, olho o número de páginas: 400, 500? Menos de 250, classifico como livro pequeno, o que já me causa uma certa pena quando imagino que história será boa; então, olho a primeira página, toda ela, a edição, o ano, o título no idioma do autor, a editora - meu Deus, claro que vocês estão concluindo " esta mulher é louca", passando, finalmente, à leitura propriamente dita. Ahh, esqueci de dizer que leio, antes de nada, a contracapa.
Aí começa minha viagem, que poderá ser alegre ou triste, tediosa ou com aventuras alucinantes, envolvendo os mistérios do amor e do ódio, desbravadora de novas culturas e de outros mundos.
Jamais saio de uma leitura indiferente. Ela sempre me acrescenta algo, seja bom ou ruim, sempre soma, até se for para dizer " mas que porcaria de livro".
Para encerrar, uma sugestão: estou lendo Agente 6, de Tom Rob Smith, uma história que começa em Moscou no ano de 1965 e vai até as montanhas do Afeganistão na década de 1980: queeee livroooo!
E a curiosidade que senti sobre o tema  levou-me a pesquisar sobre as raízes da Revolução Russa,  sobre a invasão do Afeganistão, sobre a Guerra Fria, sobre, sobre, sobre...
Por favor, perdoem-me,  os que não são loucos por livros.
Somente quem é rato de livraria entende...






sexta-feira, 4 de abril de 2014

Esperança

Sob o encantamento da Lua,
minha solidão vestiu-se de gala
e saiu para passear.

Voltou abraçada ao amanhecer
que chegava,
repleto de promessas.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Bullying

Quem sofreu jamais esquece.
Aos 8 anos, meus Pais decidiram que eu iria para outra escola.
Aquilo me doeu, viu.
Trocar o meu Felipe Néry, a minha escola amada por outra, totalmente desconhecida, não era lá coisa para se achar muita graça.
No Felipe, eu era livre.
Livre para comer sopa de trigo até me fartar, subir na árvore do pátio, brincar com meus colegas e, também, brigar com eles na saída.
Isso, aliás, era um caso à parte.
Nós ficávamos nos encarando todo o período de aula, resmungado, entre dentes: me espera na saída...e, em plena rua de terra, resolvíamos nossas pendências com muito puxão de cabelo, algumas cusparadas e uma que outra pedrada.
Sim, éramos selvagens. Doces bárbaros.
No dia seguinte, todos estávamos rindo juntos, e era dessa forma que resolvíamos qualquer tipo de implicância ou ofensa de um para o outro, ninguém levava desaforo pra casa.
No Colégio Santa Teresa de Jesus, mudou a bolachinha.
Simplesmente detestei aquilo. Uma escola enorme, gelada, com uma turma que eu não conhecia e onde uma colega se exibia mais que a outra.
Foi um ano difícil.
Voltava para casa emburrada,  sentava para tomar o café que a Mãe preparava para mim e não dava um pio, ruminando por dentro. A Mãezinha me dizia " que te pása, nena, no te gusta el colegio?"
Nãoooooooo!!!
Nem pedras havia na rua da escola pra gente se divertir na saída!
Como eu era xucra, vinda do Felipe Néry, algumas colegas me olhavam e riam, sabe, aquele risinho insuportável de superioridade.
Eu chegava em casa, e chorava. Não entendia aquilo, não sabia como me defender. Até porque, quando minha Mãe estava por perto, ou a professora, elas me tratavam muito bem.
Quando me viam sozinha, lá vinham elas com o sorrisinho asqueroso e os mais diversos apelidos.
 Um era o predileto: beiçuda.
Eu era uma criança magra, mas o bocão, esse nasceu comigo.
Aquilo me deixava tão mal, todo santo dia eu me olhava no espelho, analisava minha boca, e pensava: como é possível isso?
E chorava.
O Bullying é assim, uma coisa odiosa que te marca para o resto da vida.
Eu, cria do Felipe Néry, louca para dar uns bofetões naquelas idiotas, nada podia fazer. Era feio brigar, aquilo era coisa de piá de rua, não de uma menina educada, era o que me diziam.
Engoli o apelido e a raiva por anos a fio, até a 8ª série, quando o grupinho se dissolveu, uma foi embora, outra saiu da escola, a outra sumiu no mundo.
Foi quando pude respirar e enxergar a escola como ela realmente era: grande, linda, com um pátio imenso, uma biblioteca lotada de livros, a banda, a quadra de esportes, a capela, os professores maravilhosos.
 Mas a marca ficou.
Muitos anos depois, por puro acaso e em circunstâncias diferentes, encontrei o trio que me torrou a paciência por vários anos.
Uma, vi num shopping de Porto Alegre: uma matrona gorda e feia como a morte, em nada lembrava a garotinha loira e magra que fora um dia.
Outra, encontrei numa audiência no Foro, escabelada e com meia dúzia de dentes na boca.
A que sumiu no mundo, avistei faz um par de anos, muito bonitinha, mas vazia e burra de chorar no cantinho.
Nenhuma delas seguiu com os estudos, pararam por ali mesmo.
Claro que a primeira coisa que eu fazia, a cada encontro, quando chegava em casa, era olhar longamente para minha boca na frente do espelho e, depois, para meu belíssimo Diploma pendurado na parede.
Nessa ordem.
Naqueles dias, o risinho de superioridade foi o meu...

As calçadas do Felipe

Com cinco aninhos, e pelas mãos de minha Mãe, comecei a frequentar o Grupo Escolar Felipe Néry de Aguiar, distante apenas meia quadra de casa.
Radiante com meu uniforme de sainha pregueada azul marinho, camisa branca e meias três quarto, um caderno pequeno, um lápis Faber Castell e uma borrachinha, carregando tudo na mão, não havia pasta e muito menos mochila, entrei naquela escola mágica, onde passei os três anos mais felizes da minha infância.
Os preparativos começavam as 11 da manhã, com a Mãe determinando "nena, vamos a tomar un baño para ir a la escuela". Acreditem, jamais eu reclamava, tinha tara pelo colégio. Depois, com meu uniforme impecável, sentava numa cadeirinha alta - eu tinha só cinco anos, com um grande guardanapo sobre a blusa, " para não pingar nada", comia tudo, esganada que fui, desde sempre para, depois da escovação de dentes e arrumação dos cabelos, finalmente sair.
Nós íamos juntas, a Mãe e eu, de mãos dadas, caminhando despacito, embora eu tivesse uma pressa louca de chegar, meus olhos encantados de criança observando a calçada que teríamos que percorrer até o portão da escola.
Meia quadra, apenas meia quadra.
Mas aquelas veredas me pareciam enormes, largas, limpas, lindas. Não enxergava que a rua não tinha calçamento, que a poeira era grande, que as pedras abundavam por ali.
A minha rua era um poema puro, onde apenas a beleza das árvores plantadas nas calçadas( na de minha casa e na da escola) e suas flores alaranjadas, que acenavam alegremente para mim,  importava.
Dentro do colégio, um mundo novo abria-se, todos os dias.
Eu tinha(e tenho ainda) fome de aprender, de pesquisar, de saber, uma curiosidade insaciável  pelas infinitas possibilidades que se descortinavam, e as professoras do Felipe sabiam como ensinar,  eram verdadeiras mestras em seu ofício.
Aprendi a ler e a escrever, a fazer as primeiras operações matemáticas, a pensar, tive lições que carrego comigo até hoje: de dividir com todos o que tinha - o lápis, a borracha, uma folha de caderno, uma balinha,  mas, principalmente, as alegrias de criança, porque não havia coisa melhor que sair para o recreio em verdadeiro tropel e fazer fila para esperar a merenda que a escola oferecia.
As 15 horas batia a sineta e fazíamos fila para saborear, em pequenos copos de alumínio, os manjares que a dona Geni preparava: sopa de trigo, canjica, carreteiro, feijão - às 15 horas!!! Comíamos tudo vorazmente, porque era muito bom, feito com o melhor dos ingredientes: amor. Depois, saímos correndo para subir em uma árvore enorme, plantada bem no meio do pátio, para logo voltarmos à sala de aula.
Com chuva ou com sol, a escola era sempre boa, acolhedora, um lugar onde me sentia acarinhada e protegida.
Tenho amigos, até hoje, que foram meus colegas no Felipe.
A minha escola do coração, a primeira de minha vida, foi decisiva para cimentar em mim muito do que hoje sou.
Simplesmente amor, é o que nutro pelo Felipe Néry de Aguiar.
Talvez por essas e outras, me cause tanto espanto ver crianças e adolescentes que não gostam de estudar, que desrespeitam seus professores - para mim um ser sagrado,  e negam-se a pensar, a descobrir.
Limitam-se a gritar e a exigir de seus pais: " eu queééééé´roooo um 'aipééédiiiiiii'.
Isso é bom ou ruim?
Não sei.
Aliás, sei.
A falta de limites nunca foi uma boa educadora.
Mas, isso foi há dez mil anos atrás.




quarta-feira, 2 de abril de 2014

Jurássica

Ontem terminei de assistir a novela - por sinal, muito ruim e, por estar sem sono e pela curiosidade idiota que às vezes me assola ( aiii que tédioooo), decidi ver o final do Big Brodher, programa que não acompanho mas, por aquelas coisas da vida, fiquei sentadita no sofá olhando. 
Olhando o vazio, porque daquilo nada se aprende.
Dormi mal, acordei pior.
Depois de ter visto tanta baixaria, fiquei me sentindo um ser pré histórico, uma pessoa fora do tempo, antiiigaaaa, quadrada (ops, isso já saiu de moda também), totalmente fora do esquadro.
Considero-me uma pessoa normal ( sim, eu sou normal, fiz todos os exames e o médico me afirmou que sou normal)de 52 anos que vive no século 21 - talvez isso eu deva esclarecer a mim mesma, antes de mais nada, tal o meu espanto ao ver tantas cenas dantescas na TV.
Muitos dirão: e porque não desligou?
Pois é.
Creio que foi masoquismo, ou qualquer coisa pelo estilo.
Mas que fiquei chocada, fiquei.
Chocada pela naturalidade com que as pessoas encaram o excesso, a exibição, a falta de vergonha em mostrar, em rede nacional, peitos, bundas e otras cositas más. Em transar banalmente, como se fossem tomar um copo d'água.
Que problema tem mostrar isso? 
Nenhum. 
Todos.
Aquela velha máxima de que o meu direito termina quando começa o do meu vizinho caiu por terra, esfacelou-se, não tem mais isso não.
Vale tudo, pode tudo, e os incomodados que se mudem.
Mudem para onde? Para onde iremos nós, os jurássicos, os antigos que gostamos de música erudita, de silêncio, que ainda somos românticos (cruzes, que palavrão!), que ainda acreditamos em alguma coisa?
Aí também questiono pessoas que colocam suas músicas, geralmente abomináveis a todo volume e sou obrigada a escutar joãozinho e joaninha por horas a fio. Sim, eu tenho uma vontade louca de ir até lá e sampar uma pedrada naquele equipamento, mas puxo o freio de mão e fico quieta ouvindo aquele som horroroso que perturba minha tranquilidade,  porque quero é escutar o som das ondas, do vento, dos pássaros, e me enfiam aquela porcaria goela abaixo. Quando isso acontece,  tenho pensamentos do tipo  "amanhã colocarei a Nona de Beethoven e aí, quero te ver..."
Hoje acordei mal, sentindo-me emparedada por essa avalanche de novos valores que pululam por aí.
Tive vontade de fugir, mas não tive para onde, então busquei refúgio nos braços do meu inseparável amigo: meu livro.
Ahh, foi como chegar a um oásis, é uma bênção poder mergulhar em uma bela e bem escrita história, onde você vê que o autor pesquisou, entende do riscado, domina o assunto.
Desculpa se te magoo, inculto, mas fui criada em meio a livros, música erudita e gente fina, e isso não fez de mim uma pessoa pedante ou metida a besta, não.
Apenas adquiri o que não se compra em farmácia: educação.