segunda-feira, 12 de maio de 2014

Senso do Ridículo

Aí está um temor que me persegue, e não é de hoje: medo de parecer ridícula, sem noção, fora do esquadro, mal posta, llamale H, como diria minha mãe, fato é que deveríamos vir com um sensor instalado no corpo que nos avisasse, ó, pera aí, stop, isso não é para você, ou é, mas você ficou de bobeira  e perdeu o trem, a fila andou.
A gente não tem esse aparelhinho,  mas conta a ajuda bem vinda dos amigos, da família e dos colegas para que venham nos dizer que daquela forma não está bem, fica feio, será motivo de riso, ou de pena, o que é infinitamente pior.
Quando temos vinte anos, trinta, quarenta, a vida passa e nós andamos por ela flauteado, sem pressa ou qualquer outro compromisso que não o de ser  e descobrir as infinitas possibilidades que ela nos dá; podemos - e devemos surfar nas situações mais inusitadas, temos o domínio da cena.
Lá pelas tantas, começamos a questionar, uma espécie de adolescência tardia, mas muito válida.
Tentamos resgatar o que ficou mal resolvido e esclarecer a coisa toda, se ainda for possível.
Sorvemos apenas o néctar, já que o resto perdeu a importância e não vale mais nem um movimento nosso e muito menos lágrimas, dessas queremos distância, a menos que sejam de alegria.
Nesse meio tempo, entra o que eu chamaria de uma questão de equilíbrio entre aquilo que sempre fomos, o que aprendemos a ser e o que realmente queremos, mas nem sempre o que queremos, dá.
Por mais linda que seja, uma mulher de 50 anos com um mini vestido não ficará bem, não adianta, ela poderá ter se transformado numa boneca de silicone, de matéria plástica, repuxou tudinho o que tinha para esticar, ficou com olhos de ET e boca de...deixa pra lá, não importa, o ar a denunciará,  seu porte, seu jeito, sempre será o de uma pessoa de 50 anos. Aí, uma roupa curta a deixará com um  aspecto esdrúxulo, já que ela não é mais o que pretende parecer.
Esse equilíbrio é deveras difícil e, não raro, escorregamos.
Por tais razões, não consigo entender o que levou uma jornalista tão bacana como a Fátima Bernardes a fazer uma propaganda, em horário nobre, onde aparece abrindo um bocão e devorando uma fatia de presunto, olhando de soslaio para camera.
Terá sido o cachê? Não creio...
Terá sido a vontade de mostrar que é versátil e se enquadra em qualquer papel? Talvez...
Terá sido alguma vaidade que se manteve soterrada durante anos sob o manto da profissional séria e compenetrada, e agora ela cansou, continua uma profissional séria e compenetrada mas só que saber de abobrinhas ou, melhor dizendo, de presunto? Não sei, realmente, não sei...
Tem coisas que não dá, não combina, fica estranho.
Ou você consegue imaginar a Rainha da Inglaterra fazendo propaganda de amaciante?



Rindo a Toa.

Depois de uma semana de ausência, de volta ao lar, doce lar, o que é muito bom.
Aliás, bom é apelido!
Assim que cheguei, me deparei com uma orquídea linda, muito bem posta na sala, presente do maridão, como se não bastassem os mimos que ganhei dos meus três amores que, pacientemente, me aturaram e me carregaram para todos os lados no Portinho.
Meu gato Bibo se jogou, literalmente, sobre meus pés, gato ladino é ele, viu, ronronando sem parar e de perto de mim não saiu mais, assim como minha gata Chiquinha.
Acho que o povo estava com saudade de mim...
Passei um Dia das Mães feliz,  onde a tônica foi a alegria, pelo simples fato de estarmos, mãe e filhas, juntas.
O dia inteirinho só para nós, jogando conversa fora e rindo de uma besteira qualquer.
Eu, que adoro um agrado, voltei com o coração e a alma repletos de coisa boas, sensação de plenitude e bem estar.
Como veem, nem escrever direito estou conseguindo, porque, como todos sabem, a viagem até Itaqui costuma ser um tanto quanto cansativa, digamos assim, nove horas sentadita naquela poltrona que reclina, tá, mas e os pés, os que fazemos com os pés, que ficam balançando? Azar o meu, que tenho as pernas curtas.
Enfim, foi uma longa madrugada, pontuada pelos roncos extraordinariamente altos de um senhor que vinha sentado na poltrona da frente, todos roncavam, bufavam, espirravam e tossiam e eu ali, pensando na vida,   não preguei olho a noite toda e até tentei ver um pedaço de céu ou a Lua mas nem isso deu, meu vizinho de banco manteve as cortinas fechadas o tempo todo.
Quando o ônibus parou, desci rápido e quase dei uma de João Paulo II, tive vontade de beijar a terra do Itaqui, tal o alívio que senti de ter saído daquele lugar sufocante.
Entretanto, apesar dos pesares cheguei sã e salva de mais uma odisseia, graças a Deus e, como costumo dizer, agradeço a Vida por me presentear tantos momentos de felicidade com os que amo.
Comecei a semana rindo à toa, e o mesmo desejo a vocês, meus queridos amigos!

terça-feira, 6 de maio de 2014

Gracias a La Vida

Costuma ser assim a cada viagem para o Portinho: alegria tremenda invadindo meu coração,  primeiro porque vou estar juntinho e colada com meus três amores, fazendo as comidinhas que elas mais gostam, faço até bolo, sou prendada...coisa nenhuma, me defendo e era isso, minha praia é outra.
Segundo, já fiz a listinha básica de livros que pretendo comprar e, por supuesto, o da Isabel Allende é meu objeto do desejo, seguido de alguns outros e, se for possível e couber dentro de minhas parcas economias, sempre vai aparecer aquele que está no topo, ou o que não tem em lugar algum mas eu olho e me parece bom, então, fim de linha, compro e deu.
Terceiro, sei os filmes que irei assistir e os horários, salas, etc, fanática que sou por um cineminha. Adoro, não abro mão de jeito nenhum de ir ao cinema, um programa que faço desde que me conheço por gente, e curto muito, aproveito cada minuto: antes, comprando uma pipoca meio a meio, um refri, afinal de contas, eu tô no Portinho na fila para assistir aquele filmaço - nem me passa pela cabeça pensar em triglicerídios ou colesterol, glicose...o quê? Ahhh, para com isso, come a pipoca com guaraná( Antárctica) e guarda um espacinho para as balas de goma; o durante dispensa comentários, obviamente; depois, saio do filme viajando na maionese e pensando em como é tremendamente bom poder estar ali, fazendo o que gosto.
Dou graças a Deus todos os dias e nas horas do meu dia em que lembro Dele, e elas são muitas.
Agradeço a minha Mãe Nossa Senhora,  sempre a proteger os meus amores com seu manto, e não me custa pedir que Ela dê só uma espiadinha com seus olhos magníficos para minha humilde pessoa e me cuide e conserve gorda e sã de lombo.
Sem falar nos Santos que incomodo noite e dia com agradecimentos e pedidos.
Isso tudo é para dizer, queridos amigos, que agradeço a Vida as dádivas que ela tem me concedido, e não são poucas, razão pela qual esforço-me ao máximo e tento não abrir a boca para reclamar, apenas para agradecer.
Logicamente que Eles me conhecem com manha e tudo, por isso, sei que me perdoam quando queixo-me de barriga cheia.
E agora, com licença que preciso cerrar mi balijita, passar a mão no travesseiro e seguir, gloriosa, rumo ao Planaltão e às 9 horas de viagem que me separam da Capital, e não tô nem aí para o tempão que vai levar, para os pés inchados e para os roncadores de plantão, não mesmo.
Gracias a la Vida, que me ha dado tanto!



segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Príncipe Que Virou Sapo

A Marcinha e o Dudu conheceram-se no reveillon e, quando bateram  um  no olho do outro foi como o espoucar de fogos em Copacabana, uma extraordinária sensação de felicidade, uma certeza absoluta de que ambos eram almas gêmeas e de que nada e nem ninguém seria capaz de separá-los.
Foi uma paixão vulcânica, um amor intenso, vivido e celebrado todos os dias,  uma química fantástica.
Poderosos, a Marcinha e o Dudu eram jovens, solteiros e muito bem posicionados em suas profissões.
Tudo corria bem, até que um dia Flávia, a melhor amiga da Marcinha alertou,  " amiga, esse cara é um tremendo galinha, é useiro e vezeiro em decorar a cabeça da mulherada, esse cara não presta...", e nem terminou a frase, porque a Marcinha, enfurecida, acabou com o assunto e com a amizade de uma década, afinal, o Dudu era o seu mundo e aquilo era inveja, pura inveja de gente que não tinha mais o que fazer a não ser botar areia na sua felicidade.
E assim, a Marcinha foi se distanciando dos seus amigos, das tardes de chimarrão e conversa jogada fora com a Flávia, trocou o reggae pelas músicas que o Dudu apreciava, conheceu pessoas que faziam parte do círculo social dele e fechou-se num casulo onde só havia espaço para o ser amado e ninguém mais.
Os amigos dela estavam preocupados, mas  a Marcinha mantinha-se irredutível e, naquelas alturas, nem sabia ao certo por que mundos andava, mandara tudo pelos ares em nome do grande amor, inclusive sua personalidade e forma de ver a vida.
Um ano depois, casaram-se.
A lua de mel foi nas Ilhas Maldivas, um lugar paradisíaco que, no terceiro dia de viagem, virou maldito para a Marcinha quando ela recebeu o primeiro tabefe do Dudu, que voltara da praia completamente embriagado.
Dali para a frente, o príncipe encantado da Marcinha transformou-se em sapo, e a queda foi abissal, Dudu mostrou a verdadeira face, que escondera durante o namoro e agora revelava, de forma plena: um mulherengo de carteirinha que abusava da bebida e, não raro, tornava-se irônico e violento.
Dois anos se passaram e, nesse período, a Marcinha descobriu que era apenas mais uma entre meia dúzia de mulheres com as quais o Dudu se relacionava; uma das tantas, para ele não fazia diferença.
Certo dia, passeando sozinha, enxergou seu reflexo no vidro de uma loja: tinha 30 anos e estava com um aspecto de 70! Finas rugas haviam se instalado no canto dos olhos e ao redor dos lábios, os olhos tinham perdido o brilho, o cabelo estava sem viço, opaco, ela tinha um ar de desamparo e os ombros, encurvados, eram a prova cabal do desastre que era sua vida.
A Marcinha levou um choque de realidade tão grande que quase caiu.
Quase.
Juntando a ínfima parcela de amor próprio que ainda lhe restava,  encostou-se junto a um muro e chorou todas as lágrimas que tinha para chorar, perdeu o sentido das horas. Em compensação, ali mesmo selou o fim do tempo, relativamente curto, que vivera com o Dudu, foi para casa, juntou seus trapos e pratos e foi-se embora para nunca mais voltar.
Sumiu, evaporou-se,  saiu em busca de si mesma, de quem havia se distanciado tanto e baniu de sua vida, em definitivo, aquele sapo cururu travestido de príncipe!









domingo, 4 de maio de 2014

Me Fui de Compras!

Ayer me fui de compras,  acordei com  'animus comprandi', um verdadeiro perigo, acho até que dormi pensando  nisso e não deu outra, antes das 14:30 já andava pela rua, ávida por novidades.
Fazia muito tempo que eu não tinha um ataque consumista, é, ontem eu estava assim, totalmente ensandecida, não se é culpa dos hormônios ou da falta deles, fato é que saí decidida a fazer algo que há muito não fazia, não daquele jeito: compras exclusivamente para mim. 
Egoisticamente para a minha pessoa.
Mas credo, completamente possuída!
Saí do jeito que gosto: sozinha, porque não suporto comprar com assistentes do meu lado dando dicas e palpites, nem pensar, aí me enrolo e termina que não compro nada.
O dia estava propício, se é que existe dia adequado para um acesso desse quilate, sei que tomei meu rumo, sabedora do queria e de onde poderia encontrar.
Engraçado que parece ter havido algum tipo de combinação entre as roupas da vitrine e eu, porque ali estavam, expostos, todos os objetos do meu desejo.
Sem delongas, entrei na loja e, para meu deleite, não havia quase ninguém ali, assim que me esbaldei olhando incontáveis blusas e saias e vestidos e calças...ops...calças?
Sim, enquanto estacionava o carro, uma calça jeans acenava alegremente para mim.
Calça jeans.
Olhem bem, meu amigos,  há muito tempo, muiiiiito, deixei de usar calça jeans, primeiro por motivos óbvios, o espelho, é, o m a l d i t o espelho, sempre ele! mas, acima de tudo, havia uma tristeza dentro de mim, e tristeza com jeans e camisa branca,  definitivamente,  são peças que não combinam.
Fato é que, de uns tempos para cá,  por essas obras de magia que circulam por aí, minha tristeza se hizo humo, graças a Deus e, dia desses,  me peguei pensando,  e porque não uma calça jeans?
Voltemos à loja.
Depois de provar blusas e outras peças de roupa, pedi: aquela calça jeans da vitrine, por favor e, imediatamente, pensei, claro que a droga da calça não vai me servir, mas, em frente, marche!
Para minha surpresa, a calça serviu...bem, definir o que senti com esse simples verbinho " serviu" é pouco, é nada.
 A calça ficou linda e fiquei me olhando no espelho e, ao mesmo tempo, rindo dele, um riso descarado e provocativo - e ele rendeu-se a mim, ao menos desta vez!
 Sorrindo para mim mesma, não acreditei que aquela calça jeans estivesse ali, na medida exata, feita para o meu corpicho.
Que sensação!
Aquilo surtiu em mim um efeito alucinógeno porque, saindo do provador, foi terra arrasada: passei a mão em mais duas blusas, outra calça, um cinto e uma bolsa divina, além de um top para ginástica.
Vou ficar pagando até a Primavera.
Não faz mal, não tem importância alguma!
Depois da calça jeans redentora, saí do outono e passei direto para a primavera, tô quase no verão, enxergando cores e  flores por todos os lugares!




quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ellos Quieren

Sou fã de carteirinha do ator e diretor Ricardo Darín. Como se não bastasse ser un muchacho argentino, o que, por si só, já é garantia de sucesso, o cara é lindo e escandalosamente charmoso, com um olhar de tirar o fôlego, mesmo com aquele nariz um pouco torto, não importa, até porque el hombre es como el oso, cuánto mas feo, mas hermoso!
É, Ricardito é tudo de bom, tanto quanto os filmes que já fez, O Segredo dos Seus Olhos, Un Cuento Chino, Tesis Sobre Un Homicidio, e por aí vai.
O homem argentino, perdoem-me os brasileiros...
Namorei dois argentinos, por supuesto, e nem teria como ser diferente, minha Mãe Maravilha era argentina e tinha do outro lado do Rio Uruguai  - cidade de Alvear, muitas amigas que, por sua vez, tinham filhos, por sinal  muy lindos.
Fato é que eles tem, indiscutivelmente, um charme a mais, não sei se é o cabelo com  aquela melena que costumam jogar para o lado, se é o jeito de falar, os hermanos são galanteadores e educados, dançam bem, sabem como tratar uma mulher.
Namorei um argentino quando tinha dezesseis aninhos - outro amor bom e alegre, meu argentino bailava un chamamé como ninguém, amanhecíamos nos bailes do Club Social de Alvear, o mesmo clube onde, em 1943, meus pais se conheceram e se apaixonaram. Namoramos ano e meio e nunca brigamos, o motivo do fim do namoro foi que eu espichei o olho para...outro argentino.
Ele era da Marinha, tinha 24 anos e era um moreno de parar o trânsito! Passei um dos melhores verões de minha vida e, como sempre digo, meus queridos amigos, quando estamos felizes, tudo fica lindo, até o Alvear, com suas ruas de terra,  a ausência de lugares para diversão, nada disso importava. Estávamos no período de férias, eu, da faculdade, ele, do trabalho. Pegávamos uma chalana e saímos, cedo da manhã, singrando as águas do Rio Uruguai e parávamos numa ilha de pedregulhos e água cristalina, com um cesto de sanduíches, uma térmica com suco de pomelo e nada mais.
E precisava algo mais?
Apenas o céu, o sol, as águas do rio e o vento balançando as folhas das árvores eram nossos companheiros.
À noite, sentávamos na calçada da casa de minha tia Maria Luisa com a mosquitama zunindo a nossa volta, mas nós não prestávamos atenção a isso,  somente víamos o brilho das estrelas e a faceirice da Lua.
Amores lindos, amores bons, amores que recordo com alegria porque somente me trouxeram felicidade.
Minha Mãe, claro, ficava meio de cara comigo, achava que a fila estava andando rápido demais. O que dizer, então,  do meu Pai, o Dr. Edgard? Ele  tinha um chilique por semana e, entre um sermão e outro, perguntava-me: Lia Helena, já mudou de  namorado? De novo?
Pois é.
Parafraseando meu saudoso tio Antônio, irmão de minha mãe que, segundo reza a lenda, teve três noivas ao mesmo tempo, eu respondia, solertemente:
Y que puedo hacer, papá? Ellos quieren...






Una Piccola Confusione

Foi uma das raras ocasiões em que os Fernández e os Mondadori juntaram-se para ir ao um badalado casamento na cidade de Concórdia, Província de Entre Rios, na Argentina, onde morava minha tia Albita,  irmã de minha mãe.
Dois dias antes para lá acorremos, " en caravana", como dizia um outro parente, a fim de participarmos do casório ilustre.
Veio toda a parentela  de Buenos Aires, gente de Posadas, outros de Apostoles, além do sem fim de amigos e conhecidos argentinos convidados para o verdadeiro acontecimento que estava por vir.
 Minha mãe, feliz que nem  pinto no lixo,  não fechava a boca e ria alto, tal a suprema alegria que aqueles encontros lhe proporcionavam.
Uma parte do grupo ficou hospedada na casa da tia Albita, o restante do povo foi para o hotel, incluídos aí meus tios paternos, Carlos Alberto e Maria Alba.
No dia da festa, a agitação na casa da tia Albita era geral porque, muito embora ela morasse numa casa enorme, a mesma não tinha sido feita para abrigar as vinte pessoas que se aglomeraram ali, só que ninguém se importava com isso, o que valia era a gritaria e as conversas que  ecoavam por todos os cômodos.
Minha tia Dora, mulher de um irmão de minha mãe, era, sem sombra de dúvidas, a mais divertida. Ela era alta e bem magrinha, dona de uma voz sensacional e,  nos encontros familiares, costumava cantar a plenos plumões, para felicidade geral.
Da igreja onde transcorreu a belíssima cerimônia do casamento rumamos para a festança de arromba, patrocinada pelos pais da noiva e um show à parte em matéria de decoração, iguarias finas, bebidas, músicas escolhidas a dedo: uma festa impecável.
Imaginem uma mesa onde italianos e argentinos estejam juntos. Uns 15, aproximadamente, fora os que estavam nas mesas vizinhas.
Um escândalo, se é que me entendem.
A festa corria solta e a champanhota mais ainda, o som da música aumentou e a maioria já começava num embalo tremendo quando, de repente, minha tia Dora ficou muito séria e,  com um grito,  exclamou:
Alllbaaaaaa!
Minha tia Albita, chique como sempre, apavorada, respondeu:
Pero que te pasa, Dora, que tenés?
" Hace un tiempo que te estoy mirando e ahora veo, te pusiste el vestido al revés."
Minha tia Albita ficou vermelha como um camarão e prontamente olhou para baixo, para a barra de seu vestido ali, bem à mostra, assim como todas as costuras laterias.
" No es posible" .... e desatou a rir, incontrolavelmente, assim como todos nós. Todos ríamos desatinadamente, muito pela bebida e pouco pela questão do vestido do avesso, fato é que estávamos todos naquilo, e a tia Dora sacudia-se a gargalhar quando pláááá: sua dentadura saltou longe, indo parar na pista de dança.
Meu tio Carlos Alberto, um gentleman, levantou-se rapidamente e foi buscar a dentadura da tia Dora, que não sabia onde se esconder de vergonha e outra saída não teve a não ser pedir que a levassem dali o mais depressa possível, no que foi seguida pela tia Albita. 
Saíram as duas da festa, sob o protesto de alguns e as risadas da maioria, somente o tio Carlos Alberto permaneceu sério, pedindo a todos: parem, por favor, foi somente una piccola confusione! mas ninguém lhe deu ouvidos pois não controlávamos mais nada e a comédia bufa, protagonizada pelas duas respeitáveis tias Fernández,  entrou para os anais das histórias familiares.
A cada festa, não faltava quem lembrasse à  tia Albita, olha bem o vestido, vê se não está do avesso...ou à tia Dora, não ri muito, cuidado para não perder a dentadura!
Minhas tias lindas, que momentos fantásticos passei com vocês. 
Ainda bem que o amor não termina!





quarta-feira, 30 de abril de 2014

Secretária do Futuro

A Marisa (vou chamá-la assim) andava pulando a cerca. Riscando fora da caixa. E aquilo não era coisa de agora não, a Marisa andava enlouquecida e fora da casinha há mais de um ano.
Cuidava-se de tudo e de todos, prestava atenção, olhava em volta - será que não estou sendo seguida? sempre nervosa e tensa, a vida da Marisa transformara-se num círculo vicioso entre o céu e o inferno.
Quando estava com o João Pedro(vou chamá-lo assim) era o céu, a vida parecia sorrir e todos, absolutamente todos os problemas que ela tinha desapareciam. Todinhos. Ué, sais, quem é que tem problemas aqui? A vontade de estar com ele superava tudo, a Marisa caíra de amores pelo cara.
Guilherme, o terceiro personagem fictício desta história, o  marido traído da Marisa, era o responsável por fazê-la sentir-se no inferno. Tudo nele era chato,  extremamente monótono e previsível e,  não bastasse a barriga incomensurável, tinha o fator ronco. Foram os roncos do Guilherme os responsáveis pelo fim daquele amor que já vinha entre San Juán y Mendoza fazia um tempão. A Marisa deitava e, 1 minuto depois,  o Guilherme começava " rr...rrr...rrrr...rrrrrrrrr...e, dali um tempo soltava um bufo: RRRccc, um fio de baba escorrendo pelo canto da boca. Era de matar o guarda, aliás, o Guilherme. A Marisa ali, deitada, insone e furiosa, virava-se de um lado para outro até cair, exausta, num sono perturbado, porque morria de medo de falar dormindo e chamar pelo amante.
A Marisa e o João Pedro encontravam-se nos lugares mais disparatados que se possa imaginar, tal era o desespero; coisas que a química explica, diz que. Mas havia um lugar onde costumavam ir mais seguidamente, o apartamento do João Pedro onde, de um lado do prédio funcionava uma clínica dentária e, do outro, uma pastelaria. A secretária da clínica, invariavelmente, costumava ficar encostada na porta, observando o movimento da rua e dos transeuntes. Fiscalizava tudo, e a Marisa já cantara a pedra pro João Pedro: "Jojô, essa velha aí da clínica não tira os olhos da gente", e ele, naquela fala mansa que pirava o cabeção da Marisa" calma, linda, ela é tipo secretária do futuro, entendeu?" Não, a Marisa não entendia e nem queria saber de nada, só de passar umas horinhas no Paraíso para, depois do amor, entrar na pastelaria e se atracar em dois pastéis fritos com uma Coca Cola estupidamente gelada.
O marido andava desconfiado. Conferia tudo e não achava nada e nem ia achar, porque a Marisa era danada de esperta. Sua única preocupação era com a secretária do futuro, a velhota cujo cabelo parecia um ninho de gorrião, uma casinha de joão de barro.
Estava ficando nervosa com a situação. Ao menor estalo, dava um salto. Por qualquer coisa, chorava. O Guilherme, de soslaio, observava-a, mudo. E a Marisa, naquela base.
Certo dia, a Marisa saiu do apartamento do João Pedro e tááá´,  foi direto pra pastelaria. Estava com uma fome de leão, ou melhor, de leoa, a tarde fora looonga...
Mal terminara de sentar e a secretária do futuro puxou uma cadeira e sentou do lado dela.
"Oiiii, diz uma coisa..."
A Marisa quase teve um treco, mas conseguiu se controlar.
"Como é que tu consegues?"
Ai, meu Deus...
"Faz tempo que eu venho te observando...andas comendo bem, hem? " E soltou uma risadinha.
Era uma cilada, claro que era, só podia ser uma baita arapuca armada pelo Guilherme!
A Marisa não sabia se continuava mastigando o pastel,  se respondia alguma coisa ou se, simplesmente, fugia dali. O instinto de sobrevivência fê-la pensar " vou ficar muda". Seguiu comendo o pastel, vorazmente, os olhos esbugalhados, fixos na secretária do futuro.
" Olha,  desculpa eu te falar, viu, não queria te perguntar isso assim,  mas é que, na verdade..."
Aquilo foi demais, cansou a beleza da Marisa:
 Fala logo,  falaaaaa!
" Diz uma coisa, qual é o andar mesmo do teu dermatologista?"
O quê? A Marisa tava quase desmaiando...
"Sim, meu bem, teu dermato, sempre vejo vocês juntos, entrando ou saindo...Que tratamento, hem, tua pele tá simplesmente espetacular!!!"
Foi-se, a raça da Marisa. Empurrando a cadeira,  pagou os pastéis e a Coca Cola e saiu porta afora, engasgada, não sabia se com uma ervilha, o restinho da coca ou com o papo furado da secretária do futuro.
Dali da esquina mesmo, mandou um recadinho pro João Pedro:
Terminou, Jojô! Fedeu, pintou sujeira. Te falei, eu sabia...e a culpa de tudo é da secretária futuro!









terça-feira, 29 de abril de 2014

El Pañuelo de Mamá

Como está chegando o Dia das Mães e sou de véspera, comecei a dar  meus costumeiros volteios, sempre que quero evitar um fato ou condição da qual não tenho como escapar: sim, eu não tenho mais mãe.
É uma pena, um desastre, é algo que deixa a gente tão infeliz e com uma sensação de desamparo que, passe o tempo que passar, ela fica ali, como se fosse um ínfimo espinho encravado no coração.
Depois que não temos mais nossa mãe,  tudo fica bastante brutal, no sentido de que aquele amor incondicional  que desfrutávamos, na maravilha dos dias, das semanas, dos meses e dos anos que corriam lentamente, e que tivemos a ventura de viver,  nunca mais.
Não há palavras para descrever o que produz na gente a ausência da mãe.
Entretanto, para homenagear a minha Mãe Maravilha, a dona Kila, como todos a conheciam, embora seu nome fosse Célia Angélica,  não falarei de tristeza, deixarei de usar palavras como saudade, eterno, e deixarei  de fazê-lo porque ela não gostaria de me ver triste e, como dizia meu pai, com lágrimas.
Quando falar de minha Mãe, lembrarei da alegria de seu riso, exaltarei sua sabedoria,  honrarei o sobrenome que ela me deu - Fernández, tem sobrenome mais bonito que esse? só o Mondadori, tão bonito quanto.
Desculpem-me, amigos queridos, vejam vocês o que minha Mãe é capaz de evocar em mim.
Somente sentimento bons, é o que a lembrança dela me traz porque jamais a ouvi gritar, o contraponto perfeito à figura do meu pai,  que falava bem alto com seu vozeirão, a suprema ternura com seu andar lento, seus cabelos castanhos e curtos, quase na altura dos ombros, fininhos como seda, olhos castanho escuros sempre luminosos e sua voz, que  entremeava  expressões em espanhol e em português, num dialeto único, só seu.
Para homenagear minha Mãe, cantarei muchos tangos y boleros, especialmente aqueles que ela mais gostava.
Sim, a minha Mãe era um ser iluminado e é assim que a vejo sempre, porque penso nela e nos ensinamentos que meu passou,  todos os dias,  não somente no segundo domingo de maio.
Minha Mãe era vaidosa e elegante, andava perfumada e bem vestida e tinha uma gaveta em sua cômoda onde guardava uma coleção de lenços e echarpes para todas as ocasiões. Cada vez que abria a gaveta, dela exalava um perfume inconfundível, um cheiro que lhe era peculiar, uma delícia!
Aquilo exercia sobre mim uma espécie de encantamento; enquanto ela escolhia o lenço ou a echarpe, eu ficava ali, muda, observando aquele ritual. Ela percebia meu olhar e, rindo, me dizia: " Mirá que lindos, nena, los pañuelos de mamá!"
Para te homenagear, Mãe, no teu dia, colocarei um pañuelo colorido e perfumado como tu, uma forma de te sentir mais perto de mim.
Sei que, de onde estiveres, sorrindo, dirás: " que hermoso pañuelo, nena,  igualito al de mamá!"




segunda-feira, 28 de abril de 2014

De Relancina

Dia desses nos juntamos, um grupo de mulheres,  e o assunto andou daqui e dali e plá...caímos na questão da inexorável passagem do tempo, que não perdoa nada a ninguém, desse, não tem escapatória e, no final das contas, o jeito é rir para não chorar no cantinho com a situação, por vezes calamitosa, a que vamos sendo relegadas.
O espelho é, indiscutivelmente, nosso maior algoz, sempre a nos apontar aquela ruga nova que apareceu entre o sábado e o domingo, é, do nada ela se postou ali e dali não arredará pé a menos que nos submetamos a algum procedimento, nos mostra, sem nenhuma piedade as gorduras que vão se acumulando em lugares nunca antes visitados na história do nosso corpo, ri dos nossos cabelos que, sem uma boa escova e chapinha ficarão um misto de crespo com ondulado, ou seja, simplesmente horríveis, e, o pior de tudo, debocha de nossos peitos, outrora orgulhosamente empinados e agora, reduzidos a peitos-pera: peraqui.
É a treva!
Pensando no assunto, para variar ...um pequeno parentese: eu queria, um dia que fosse, parar de pensar um pouco, mas esta inesgotável fonte de bobagens que é minha cabeça não para.
Sigamos.
Sigue el corso.
Pensando no assunto, conclui e comentei com minhas amigas que urge fazermos alguns retoques enquanto a coisa não desaba de vez porque, se assim acontecer, nem uma junta com 10 cirurgiões plásticos resolverá a parada. Puxa um pouco, levanta, tira, bota - pra toda ruga, gordura localizada ou peito pera existe um procedimento salvador, desde que tenhamos grana mas, acima de tudo, coragem para fazer o que é necessário.
Enquanto não chega o dia em que iremos, resolutas, em direção a uma clínica de cirurgia plástica, algumas soluções paliativas, meramente paliativas, vejam bem,  me ocorreram, medidas simples que podem (e devem) ser adotadas, antes que você tenha um faniquito e resolva cortar os pulsos. Ou os peitos, o que seria um completo desastre.
A regra número um, a regra de ouro, eu diria, é jamais, jamais, olhar-se no espelho sob uma iluminação feérica.
Isso, nunca!
Feche as cortinas e deixe entrar apenas uma leve penumbra.
Regra dois: mantenha uma distância considerável do inimigo - não se esqueça, seu espelho odeia você, e vice versa.
Regra três: tire os óculos, ou as lentes de contato - atenção, cuidado para não perdê-las ou derrubar e pisar nos óculos, olha que você já está na penumbra!
Feita essa importantíssima preparação, coloque-se levemente de lado, observe sua imagem de relancina.
Assim, meu bem, na penumbra, de longe, sem óculos e de lado, ahhh, você vai enxergar apenas e tão somente o que seus olhos, que já não são lá essas coisas, né, quiserem enxergar!
Depois dos 50, não dá pra comprar briga com o espelho porque, desculpa se te magoo, ele sempre vai levar a melhor.