Meu Avô paterno, Atílio Mondadori, descendente de italianos vindos da região de San Benedetto Po que aqui se estabeleceram no século XIX, homem de grande tino para os negócios e com toque de Midas, fez fortuna com o estabelecimento comercial que possuía, as cinco fazendas onde se plantava trigo, arroz, laranjas, e o gado povoava as terras a perder de vista.
Tudo corria muito bem, até que sobreveio a quebra da Bolsa de Valores de New York em 1929.
Meu Avô dormiu rico e acordou pobre.
Todas as suas economias e as reservas que possuía no banco não valiam mais nada.
Segundo contava meu Pai, foi um dia de extrema aflição para todos, pois meu Avô encerrou-se em seu escritório e de lá não saiu até o cair da noite.
Não permitia que ninguém entrasse, nem sequer para lhe alcançar um prato de comida.
Estava ali encerrado, pensando.
Quando saiu, minha Avó Mathilde, meu pai e meus tios aguardavam, nervosos, o que diria o chefe da família, a quem todos obedeciam e seguiam sem pestanejar.
Com a serenidade que lhe era habitual, meu Avô sentou-se à mesa e, com uma única frase, decidiu os rumos da Família Mondadori dali para a frente:
" Nós seremos como um feixe de varas. Unidos, sairemos ilesos e ainda mais fortes desta situação. Se nos deixarmos levar pelo desespero e pelas discussões vãs, nos terminaremos."
Essa lição me foi passada pelo meu amado Pai, o Dr. Edgard, meu exemplo de homem de caráter, de homem digno e de bom coração, para quem, acima do dinheiro, importava a união familiar.
Meu Pai honrava lo que tenia bajo los pantalones.
Aprendi com ele que nem tudo na vida é medido pelo dinheiro, pois há coisas infinitamente maiores que esse senhor.
Meu Avô materno, Antônio, partilhava da mesma opinião.
A boa fortuna, - e tomara o fosse, não é condição permanente, perene, imutável.
Por isso, em tempos de crise, lembro dos ensinamentos de meus antepassados e das lições de vida que me deixaram, e a maior delas foi, é, e sempre será, o amor.
O afeto.
A união, tão bem representada pelo feixe de varas.
O abraço que acolhe, afaga e acalma.
O gesto que ampara.
Para isso estamos, afinal.
E que jamais se aplique a nós aquele triste ditado: " era uma pessoa tão rica que, de tão rica, chegava a ser pobre"!
terça-feira, 28 de março de 2017
quinta-feira, 23 de março de 2017
Adoçando a Alma
Para afastar a tristeza e o desânimo que, certa feita estava sentindo, decidi fazer um doce.
Uma ambrosia.
Mas a coisa não foi assim tão fácil, barbadinha.
Fazia dias que eu andava com um mal estar que não era meu, como se houvesse uma nuvem escura pairando sobre minha cabeça, que não se dissipava com nada.
Pensar, era o que mais andava fazendo naqueles dias.
Aborrecida, a tal ponto que andava reclusa a fim de poupar os amigos da cara fechada.
Ruminando.
Resmungando.
E, novamente, pensando.
Aí está algo que abomino, e é a mentira.
O pseudo amor; a falsa amizade; a desculpa esfarrapada, mais fria que bunda de pinguim.
Essas coisas, primeiramente, me entristecem. Depois, me enraivecem.
E, por fim, fico dias e dias com aquilo na cabeça,
É muito irritante, esse processo todo, mas é assim que ele funciona para mim.
O caso é que, numa certa manhã, acordei farta daquele estado de coisas, e decidi encarar de frente o que estava me incomodando.
Eu mesma, foi a primeira pessoa que listei.
Estava de mal comigo mesma, pois não nasci para engolir sapos, e eis que me vi empanturrada deles.
Engasgada.
Com tantas coisas para dizer que poderia ficar horas tecendo comentários e tentando justificar erros que, vejam a ironia da coisa, não eram meus!
Pois bem.
Se eu efetivamente fosse verbalizar o que pensava, não restaria pedra sobre pedra.
Optei, então, por uma via nova, desconhecida, mas infinitamente mais prazerosa e salutar: escancarei as janelas da minha alma para um caminho terno e doce, e fui fazer uma sobremesa.
Não há como ficar triste quando uma calda começa a ferver e a exalar seu perfume, quando acrescentamos os ovos batidos, o leite, a canela, o cravo, umas gotinhas de limão, e essa mistura começa, lentamente, a se unir, adquirindo um tom dourado.
E foi assim que, um dia, mandei a tristeza embora, e minha alma cedeu lugar à doçura e à alegria.
Mexendo aquela ambrosia, diluíram-se em açúcar todas mis penas.
Foi-se, a nuvem escura.
Terminei o doce, deixei esfriar e, deliciando-me com ele, conclui que, para certas situações e algumas pessoas, há que aplicar-se o ditado argentino: mejor perderlo que encontrarlo pues, menos vulto, más claridad!
Uma ambrosia.
Mas a coisa não foi assim tão fácil, barbadinha.
Fazia dias que eu andava com um mal estar que não era meu, como se houvesse uma nuvem escura pairando sobre minha cabeça, que não se dissipava com nada.
Pensar, era o que mais andava fazendo naqueles dias.
Aborrecida, a tal ponto que andava reclusa a fim de poupar os amigos da cara fechada.
Ruminando.
Resmungando.
E, novamente, pensando.
Aí está algo que abomino, e é a mentira.
O pseudo amor; a falsa amizade; a desculpa esfarrapada, mais fria que bunda de pinguim.
Essas coisas, primeiramente, me entristecem. Depois, me enraivecem.
E, por fim, fico dias e dias com aquilo na cabeça,
É muito irritante, esse processo todo, mas é assim que ele funciona para mim.
O caso é que, numa certa manhã, acordei farta daquele estado de coisas, e decidi encarar de frente o que estava me incomodando.
Eu mesma, foi a primeira pessoa que listei.
Estava de mal comigo mesma, pois não nasci para engolir sapos, e eis que me vi empanturrada deles.
Engasgada.
Com tantas coisas para dizer que poderia ficar horas tecendo comentários e tentando justificar erros que, vejam a ironia da coisa, não eram meus!
Pois bem.
Se eu efetivamente fosse verbalizar o que pensava, não restaria pedra sobre pedra.
Optei, então, por uma via nova, desconhecida, mas infinitamente mais prazerosa e salutar: escancarei as janelas da minha alma para um caminho terno e doce, e fui fazer uma sobremesa.
Não há como ficar triste quando uma calda começa a ferver e a exalar seu perfume, quando acrescentamos os ovos batidos, o leite, a canela, o cravo, umas gotinhas de limão, e essa mistura começa, lentamente, a se unir, adquirindo um tom dourado.
E foi assim que, um dia, mandei a tristeza embora, e minha alma cedeu lugar à doçura e à alegria.
Mexendo aquela ambrosia, diluíram-se em açúcar todas mis penas.
Foi-se, a nuvem escura.
Terminei o doce, deixei esfriar e, deliciando-me com ele, conclui que, para certas situações e algumas pessoas, há que aplicar-se o ditado argentino: mejor perderlo que encontrarlo pues, menos vulto, más claridad!
sábado, 11 de março de 2017
Deu O Clic
Nada como ficar por nove horas na estrada, dirigindo sozinha, para pensar na vida.
São viagens que costumo fazer de Itaqui a Porto Alegre, percorrendo uma distância de setecentos e trinta quilômetros.
Não é pouco, se considerarmos que praticamente atravesso o estado, saindo da Fronteira Oeste, na divisa com a Argentina, até a Capital.
Não me impressiono e tampouco me apicho, pois já fiz tantas vezes esse percurso que, para mim, é normal.
O primeiro trecho, Itaqui/Uruguaiana, faço-o ainda carregando os problemas do dia a dia: contas, os gatos, o pátio da casa, os reparos necessários...
Entretanto, à medida em que vou avançando, quilômetro por quilômetro e a estrada se abre para mim, deixo-me levar pelos pensamentos, e estes me envolvem, num afetuoso abraço que me conduz a outras viagens, algumas ótimas, outras, nem tanto.
São as memórias que vem chegando para me acompanhar, trazidas pela música que ouço, ou pelo silêncio, interrompido apenas pelo som do vento, ou por minha própria voz, cantarolando boleros e outras melodias em espanhol, a língua materna - uma constante em minha vida.
As lembranças desagradáveis, afasto de plano.
Cedo espaço tão somente ao que me é familiar, acolhedor e alegre, a sonhos que viraram realidade, a amores, sabores e prazeres.
Nada mais.
Muito mais!
Numa dessas tantas voltas, lembrei do primeiro amor que tive na vida, aos quinze anos.
Eu era uma adolescente gorda, com dez quilos acima do peso, tímida, sem jeito algum para o romance, trancada dentro de mim mesma onde, ali sim, sobravam ideias e ideais.
Um dia, fui convidada para uma festa na cidade de Concórdia, na Argentina, onde morava minha tia Albita, irmã de minha Mãe.
Eu iria de carona com um casal de amigos de meus pais.
Saímos de Alvear num dia lindo e gelado de inverno, perto do meio dia.
No banco de trás do carro, pensava em como seria monótona aquela vigem de cinco horas, o casal de meia idade e eu, até que paramos na frente duma casa e a senhora, virando-se para mim, explicou: vamos buscar meu sobrinho, que também irá conosco.
Bem tranquila estava eu, até aparecer o dito sobrinho, que resultou ser un hermoso muchacho!
Fiquei sem fala, sem ar, sem nada, eu ia viajar com aquele gato do meu lado durante cinco horas?
Sim.
Nós nos olhamos com desconfiança, num primeiro momento.
Ele era alto, magro, tinha uns olhos marrom escuros maravilhosos, uma melena castanha e ondulada, como todo argentino que se preze, boca grande e, quando sorriu pela primeira vez, eu nem sabia direito para onde estávamos indo; a paisagem se diluiu e, assim, após uma meia hora de poucas palavras mas de muitos olhares, deu o clic.
O clic é algo mágico, que acontece poucas vezes na vida da gente.
É uma força desconhecida e nova, contra a qual não vale a pena lutar pois será uma luta inglória.
Ademais, resistir, quem quer?
Nós começamos a nos (re)conhecer devagar, porque, sim, parecia que éramos conhecidos de toda uma vida.
Rimos a viagem inteira, de tudo, de nada, um riso de pura felicidade, pois sabíamos, ambos, que estávamos sob o encantamento do amor.
Não tinha escapatória, e não teve.
Namoramos dois anos e, nesse período, lembro-me bem, emagreci os dez quilos que tinha para mais.
Como dizia meu Tio Tata, meu amado Tio, que Deus o tenha: no comia, no dormia, el amor la consumia, ahora canta todo el dia!
Verdade, o amor me consumia e eu cantava o dia todo, não sentia fome alguma, contava os dias e as horas que faltavam para que chegasse a quarta feia, dia que ele vinha a Itaqui, e sexta feira, dia que eu ia para Alvear, passar o final de semana na casa de minha tia Maria Luisa, a outra irmã de minha Mãe, e ficar com o meu amor.
Terminamos nosso romance porque eu fui estudar em Porto Alegre e ele em Buenos Aires.
Tínhamos dezessete e dezenove anos, respectivamente.
Foi um final igualmente feliz, como foi todo o tempo que namoramos, pois nos gostávamos muito e nenhum queria atrapalhar a vida do outro.
Nunca mais o vi nem soube do paradeiro dele, e nem me interessa, como tantas vezes frisei, não curto sessão nostalgia.
Mas o fato é que as coisas boas que vivemos deixam sua marca, como uma tatuagem, símbolo de bem querer e de afeto; é aquela lembrança que nos faz suspirar, sorrir e percorrer, sem sentir, um longo trecho de estrada.
Volto ao tempo atual de alma leve, agradecendo a minha boa estrela e, logo adiante, avisto meu destino:
Cheguei a Porto Alegre!
São viagens que costumo fazer de Itaqui a Porto Alegre, percorrendo uma distância de setecentos e trinta quilômetros.
Não é pouco, se considerarmos que praticamente atravesso o estado, saindo da Fronteira Oeste, na divisa com a Argentina, até a Capital.
Não me impressiono e tampouco me apicho, pois já fiz tantas vezes esse percurso que, para mim, é normal.
O primeiro trecho, Itaqui/Uruguaiana, faço-o ainda carregando os problemas do dia a dia: contas, os gatos, o pátio da casa, os reparos necessários...
Entretanto, à medida em que vou avançando, quilômetro por quilômetro e a estrada se abre para mim, deixo-me levar pelos pensamentos, e estes me envolvem, num afetuoso abraço que me conduz a outras viagens, algumas ótimas, outras, nem tanto.
São as memórias que vem chegando para me acompanhar, trazidas pela música que ouço, ou pelo silêncio, interrompido apenas pelo som do vento, ou por minha própria voz, cantarolando boleros e outras melodias em espanhol, a língua materna - uma constante em minha vida.
As lembranças desagradáveis, afasto de plano.
Cedo espaço tão somente ao que me é familiar, acolhedor e alegre, a sonhos que viraram realidade, a amores, sabores e prazeres.
Nada mais.
Muito mais!
Numa dessas tantas voltas, lembrei do primeiro amor que tive na vida, aos quinze anos.
Eu era uma adolescente gorda, com dez quilos acima do peso, tímida, sem jeito algum para o romance, trancada dentro de mim mesma onde, ali sim, sobravam ideias e ideais.
Um dia, fui convidada para uma festa na cidade de Concórdia, na Argentina, onde morava minha tia Albita, irmã de minha Mãe.
Eu iria de carona com um casal de amigos de meus pais.
Saímos de Alvear num dia lindo e gelado de inverno, perto do meio dia.
No banco de trás do carro, pensava em como seria monótona aquela vigem de cinco horas, o casal de meia idade e eu, até que paramos na frente duma casa e a senhora, virando-se para mim, explicou: vamos buscar meu sobrinho, que também irá conosco.
Bem tranquila estava eu, até aparecer o dito sobrinho, que resultou ser un hermoso muchacho!
Fiquei sem fala, sem ar, sem nada, eu ia viajar com aquele gato do meu lado durante cinco horas?
Sim.
Nós nos olhamos com desconfiança, num primeiro momento.
Ele era alto, magro, tinha uns olhos marrom escuros maravilhosos, uma melena castanha e ondulada, como todo argentino que se preze, boca grande e, quando sorriu pela primeira vez, eu nem sabia direito para onde estávamos indo; a paisagem se diluiu e, assim, após uma meia hora de poucas palavras mas de muitos olhares, deu o clic.
O clic é algo mágico, que acontece poucas vezes na vida da gente.
É uma força desconhecida e nova, contra a qual não vale a pena lutar pois será uma luta inglória.
Ademais, resistir, quem quer?
Nós começamos a nos (re)conhecer devagar, porque, sim, parecia que éramos conhecidos de toda uma vida.
Rimos a viagem inteira, de tudo, de nada, um riso de pura felicidade, pois sabíamos, ambos, que estávamos sob o encantamento do amor.
Não tinha escapatória, e não teve.
Namoramos dois anos e, nesse período, lembro-me bem, emagreci os dez quilos que tinha para mais.
Como dizia meu Tio Tata, meu amado Tio, que Deus o tenha: no comia, no dormia, el amor la consumia, ahora canta todo el dia!
Verdade, o amor me consumia e eu cantava o dia todo, não sentia fome alguma, contava os dias e as horas que faltavam para que chegasse a quarta feia, dia que ele vinha a Itaqui, e sexta feira, dia que eu ia para Alvear, passar o final de semana na casa de minha tia Maria Luisa, a outra irmã de minha Mãe, e ficar com o meu amor.
Terminamos nosso romance porque eu fui estudar em Porto Alegre e ele em Buenos Aires.
Tínhamos dezessete e dezenove anos, respectivamente.
Foi um final igualmente feliz, como foi todo o tempo que namoramos, pois nos gostávamos muito e nenhum queria atrapalhar a vida do outro.
Nunca mais o vi nem soube do paradeiro dele, e nem me interessa, como tantas vezes frisei, não curto sessão nostalgia.
Mas o fato é que as coisas boas que vivemos deixam sua marca, como uma tatuagem, símbolo de bem querer e de afeto; é aquela lembrança que nos faz suspirar, sorrir e percorrer, sem sentir, um longo trecho de estrada.
Volto ao tempo atual de alma leve, agradecendo a minha boa estrela e, logo adiante, avisto meu destino:
Cheguei a Porto Alegre!
quarta-feira, 8 de março de 2017
Geminianos - II
Acuse um geminiano de muitas coisas, menos de ser óbvio, previsível, certinho, sempre a mesma coisa, amém.
Mas não mesmo!
Quando todos pensam e têm certeza de que o geminiano irá para a direita ele, para gáudio de seus detratores (essa, tirei do fundo do baú), dará uma marcha a ré e virará para a esquerda.
Quando todos pensam saber o que aquele ser fará, acredite: não sabem é nada!
Pois quem é de Gêmeos detém a ventura(e por vezes, a má sorte) de ser dual.
Geminianos se divertem muito com as conclusões que costumam pulular por aí, e adoram ver a cara de espanto que fazem alguns, quando se dão conta que não entenderam nadica de nada.
Não cutuque um geminiano com vara curta, amigo.
Não confunda amabilidade com idiotice, educação com burrice, silêncio com ignorância.
Os geminianos são seres astutos e muito sensitivos.
Quando está na defensiva, o geminiano torna-se excessivamente loquaz, pois não quer deixar antever seus reais pensamentos.
Porém, se estiver muito quieto, te cuida, Latorraca!
Está com seu almofariz, remexendo poções para, na hora certa, lançar seus dardos, que poderão ser cheios de mel, ou carregadinhos de veneno.
É...
Geminiano não brinca em serviço, apenas espera o tempo certo.
Olhar de raio X, visão periférica, ouvidos de mercador quando convém, o geminiano é um ser que nasceu para vencer e brilhar.
Não é criatura de bastidores.
Toma a frente, não fica jamais na salinha dos fundos.
Geminianos são peritos em depurações e sentem, a léguas, o cheiro da maldade.
Por estes e outros que tais, um homem de Gêmeos costuma ser uma cara bacana, mas uma geminiana é um desafio constante.
Aliás, não busque numa geminiana a placidez e mesmice, pois se dará muito mal.
Incontáveis vezes escuto que vivo a mudar de ideia e, de fato, sou assim mesmo, e quanto mais me amolam com a pretensão de querer nortear meus desejos e manipular meu jeito de ser e de pensar, outro tanto me insurjo e me revolto, sempre com uma boa dose de diversão.
Como geminiana autêntica, assumo integralmente meus erros mas, de outra banda, não carrego comigo o fardo de culpas alheias.
Aliás, culpa é uma palavra que não existe no meu livrinho.
Somos o melhor signo do Zodíaco, uma verdadeira caixinha de surpresas e, embora não façamos parte do bloco dos sempre contentes, isto é, dos hipócritas de plantão, tentamos levar a vida de maneira leve e calorosa, sorvendo o que de melhor ela tem para nos dar, e nós, a ela.
De um modo geral, os geminianos são curiosos e inquietos, não se deixam levar pela obviedade das coisas postas, uma vez que não há script pré determinado que não possa ser escrito de forma diferente.
Onde estiver o novo, a interrogação e a mudança, lá estaremos nós, os geminianos, pois somos filhos do movimento, do ar e do vento, dos dias ensolarados e de brisa suave, muito embora saibamos enfrentar temporais com galhardia.
Avante, e à frente, esse é nosso lema.
Per aspera ad astra, esse é nosso mantra.
Rumo a elas, portanto!
Mas não mesmo!
Quando todos pensam e têm certeza de que o geminiano irá para a direita ele, para gáudio de seus detratores (essa, tirei do fundo do baú), dará uma marcha a ré e virará para a esquerda.
Quando todos pensam saber o que aquele ser fará, acredite: não sabem é nada!
Pois quem é de Gêmeos detém a ventura(e por vezes, a má sorte) de ser dual.
Geminianos se divertem muito com as conclusões que costumam pulular por aí, e adoram ver a cara de espanto que fazem alguns, quando se dão conta que não entenderam nadica de nada.
Não cutuque um geminiano com vara curta, amigo.
Não confunda amabilidade com idiotice, educação com burrice, silêncio com ignorância.
Os geminianos são seres astutos e muito sensitivos.
Quando está na defensiva, o geminiano torna-se excessivamente loquaz, pois não quer deixar antever seus reais pensamentos.
Porém, se estiver muito quieto, te cuida, Latorraca!
Está com seu almofariz, remexendo poções para, na hora certa, lançar seus dardos, que poderão ser cheios de mel, ou carregadinhos de veneno.
É...
Geminiano não brinca em serviço, apenas espera o tempo certo.
Olhar de raio X, visão periférica, ouvidos de mercador quando convém, o geminiano é um ser que nasceu para vencer e brilhar.
Não é criatura de bastidores.
Toma a frente, não fica jamais na salinha dos fundos.
Geminianos são peritos em depurações e sentem, a léguas, o cheiro da maldade.
Por estes e outros que tais, um homem de Gêmeos costuma ser uma cara bacana, mas uma geminiana é um desafio constante.
Aliás, não busque numa geminiana a placidez e mesmice, pois se dará muito mal.
Incontáveis vezes escuto que vivo a mudar de ideia e, de fato, sou assim mesmo, e quanto mais me amolam com a pretensão de querer nortear meus desejos e manipular meu jeito de ser e de pensar, outro tanto me insurjo e me revolto, sempre com uma boa dose de diversão.
Como geminiana autêntica, assumo integralmente meus erros mas, de outra banda, não carrego comigo o fardo de culpas alheias.
Aliás, culpa é uma palavra que não existe no meu livrinho.
Somos o melhor signo do Zodíaco, uma verdadeira caixinha de surpresas e, embora não façamos parte do bloco dos sempre contentes, isto é, dos hipócritas de plantão, tentamos levar a vida de maneira leve e calorosa, sorvendo o que de melhor ela tem para nos dar, e nós, a ela.
De um modo geral, os geminianos são curiosos e inquietos, não se deixam levar pela obviedade das coisas postas, uma vez que não há script pré determinado que não possa ser escrito de forma diferente.
Onde estiver o novo, a interrogação e a mudança, lá estaremos nós, os geminianos, pois somos filhos do movimento, do ar e do vento, dos dias ensolarados e de brisa suave, muito embora saibamos enfrentar temporais com galhardia.
Avante, e à frente, esse é nosso lema.
Per aspera ad astra, esse é nosso mantra.
Rumo a elas, portanto!
Blindagem Verde
Herdei de minha Mãe o costume de sentar no pátio de casa, à primeira hora da manhã, com um matecito recém feito, a fim de observar o início do dia.
Um hábito do qual não abro mão, pois o considero essencial para minha saúde mental e física.
De minha cadeira, olho o entorno sinto o ar, ainda úmido, da manhã.
Reinam, absolutas, a tranquilidade e a paz.
Sons, ouço o canto dos pássaros e o vento nas folhas das árvores e arbustos.
Sou um ser que ama as plantas e, por tal razão, encontro-me cercada de verde por todos os lados.
Dia desses, pensava em como é importante ter um recanto de onde podemos assistir, como se fosse um filme, o desfile de ideias, desejos, sonhos, inquietações, medos, angústias, alegrias e outros tantos sentimentos que trazemos no coração.
Um lugar onde desnudamos a alma, sem segredos.
Nós, e nós mesmos.
Eu me sinto extremamente grata por ter, a minha disposição, um local assim.
Ali, embora a mente esteja aberta e absorva as energias do dia que começa, sinto-me protegida por uma blindagem verde que me encanta e me afaga, acalma meus temores e eleva meus pensamentos.
Durante uma hora, todos os dias, há uma troca intensa entre nós, a natureza e eu.
Cuido de cada pote, arbusto, árvore, flor e muda que plantei com amor, e eles me retribuem com sua presença silenciosa, mas de um poder sem igual.
As plantas alimentam e nutrem nosso eu interior de bons sentimentos e, desse modo, a raiva, a indignação e a sensação de impotência que experimentamos às vezes por determinadas situações, se diluem ante sua beleza simples e mágica.
A cada manhã renovam-se a fé, a esperança e a vontade de seguir adiante, sem embargo dos dissabores e desilusões comuns a todos os mortais.
Neste período sabático que me impus voluntariamente, tenho mantido diálogos altamente produtivos comigo mesma, num reencontro por muitas vezes adiado e, por outras tantas, relegado a segundo plano.
Há momentos na vida em que uma das únicas certezas que temos, é a de que queremos nos livrar de inúteis quimeras, de preocupações desmedidas, de entulhos que atravancam nossos dias.
Sobram os afetos verdadeiros, meus dois gatos, o abraço diário de minhas plantas, o céu espetacular do meu Itaqui, o mar, uma viagem aqui e outra acolá, cinema, livros( muitos livros), música...
Muito para agradecer, quase nada para pedir!
Um hábito do qual não abro mão, pois o considero essencial para minha saúde mental e física.
De minha cadeira, olho o entorno sinto o ar, ainda úmido, da manhã.
Reinam, absolutas, a tranquilidade e a paz.
Sons, ouço o canto dos pássaros e o vento nas folhas das árvores e arbustos.
Sou um ser que ama as plantas e, por tal razão, encontro-me cercada de verde por todos os lados.
Dia desses, pensava em como é importante ter um recanto de onde podemos assistir, como se fosse um filme, o desfile de ideias, desejos, sonhos, inquietações, medos, angústias, alegrias e outros tantos sentimentos que trazemos no coração.
Um lugar onde desnudamos a alma, sem segredos.
Nós, e nós mesmos.
Eu me sinto extremamente grata por ter, a minha disposição, um local assim.
Ali, embora a mente esteja aberta e absorva as energias do dia que começa, sinto-me protegida por uma blindagem verde que me encanta e me afaga, acalma meus temores e eleva meus pensamentos.
Durante uma hora, todos os dias, há uma troca intensa entre nós, a natureza e eu.
Cuido de cada pote, arbusto, árvore, flor e muda que plantei com amor, e eles me retribuem com sua presença silenciosa, mas de um poder sem igual.
As plantas alimentam e nutrem nosso eu interior de bons sentimentos e, desse modo, a raiva, a indignação e a sensação de impotência que experimentamos às vezes por determinadas situações, se diluem ante sua beleza simples e mágica.
A cada manhã renovam-se a fé, a esperança e a vontade de seguir adiante, sem embargo dos dissabores e desilusões comuns a todos os mortais.
Neste período sabático que me impus voluntariamente, tenho mantido diálogos altamente produtivos comigo mesma, num reencontro por muitas vezes adiado e, por outras tantas, relegado a segundo plano.
Há momentos na vida em que uma das únicas certezas que temos, é a de que queremos nos livrar de inúteis quimeras, de preocupações desmedidas, de entulhos que atravancam nossos dias.
Sobram os afetos verdadeiros, meus dois gatos, o abraço diário de minhas plantas, o céu espetacular do meu Itaqui, o mar, uma viagem aqui e outra acolá, cinema, livros( muitos livros), música...
Muito para agradecer, quase nada para pedir!
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
Como Éramos Simples
Lembro-me dos veraneios no Uruguai, para onde íamos com toda a família durante o mês de janeiro.
Virava o ano novo e, dia dois ou três, tomávamos o rumo de Piriápolis, a encantadora praia uruguaia.
Nossa odisseia começava de madrugadinha, o sol nem havia saído ainda e já estávamos nos movimentando.
Viagem longa de quase 900 quilômetros, tinha que pernoitar pelo caminho e, somente perto do meio dia do dia seguinte, chegávamos ao nosso destino.
Uma cidade encantadora, com um mar entre o verde e o azul, sem ondas, onde se podia caminhar com a água batendo pela cintura até muito distante da margem, una rambla que ia de uma ponta a outra da praia, e aquela brisa espetacular que só a beira mar pode proporcionar.
Passeios, restaurantes, cinema, sorveterias, tudo era feito para o deleite, o prazer e a alegria de poder desfrutar, por trinta dias, contadinhos, as delícias do verão.
Ficávamos hospedados em um hotel sito em uma esquina, em frente à praia, onde serviam café da manhã, almoço e janta.
Se porventura chovesse, ofereciam aos hóspedes um delicioso té con facturas, isto é, um chá com salgadinhos, medias lunas, alfajores, tortas e palmeritas, uma iguaria dos deuses.
Nossos dias e nossas noites eram vividos na mais absoluta paz.
Pela manhã, a praia.
Meus tios argentinos também iam e, naquela areia fofa, enfileiravam-se as barracas coloridas, e ali ficava uma animadíssima turma de, pelo menos, quinze pessoas.
De tarde, íamos até uma pequena montanha, onde se conseguia chegar em aerosilhas e, lá de cima, olhávamos para toda a cidade.
Pela noite, um vento frio pedia uma roupa mais quente e saíamos para tomar um sorvete, ir ao cinema ou simplesmente caminhar, à toa e sem direção.
Um veraneio e tanto!
Pensava eu em tudo isso, certo dia em que, estando em Capão da Canoa vi um pessoal chegando, organizando sua barraca e seus pertences, com aquela felicidade de poder estar gozando do sol, do mar, do ventinho fresco apesar do sol forte.
Eu estava ali fazia algum tempo, escutando o barulho das ondas, o som do vento nas abas do guarda sol, os pés fazendo vai e vem na areia, e sentindo-me grata por todo aquele dia.
Tudo estragou pois, de repente, o som i n s u p o r t á v e l de música sertaneja sacudiu o entorno.
Música alta, muito alta, para que todos ao redor ouvissem.
Aliás, era isso, ou ir embora.
Que inferno!
Acomodaram-se e, ato contínuo, deram início aos trabalhos: armaram uma mesinha e sobre ela um balde de gelo com champanhe.
E tiraram de uma outra bolsa, taças coloridas de acrílico.
Meu Deus do céu!
Que sacrilégio!!!
Digam o que disserem, mas, com licença, champanhe em taça de plástico com música sertaneja não dá pra querer.
Música alta, sobrepondo-se ao murmúrio das ondas, é intolerável.
E fotos, muitas fotos para o Facebook.
Quanta patacoada!
Com essa onda de redes sociais, as pessoas querem ostentar, exibir até o que não tem e, pior ainda, o que não são.
Nunca vi, como neste ano, tantas pessoas bebendo a ponto de deixar a bebida escorrer pelos cantos da boca, ouvindo aquele gênero musical que não suporto.
Fiquei pensando, e não tive como não sentir muita saudade do tempo em que éramos simples, em que beber uma cerveja consistia numa áfrica, ouvir música alto, nem pensar, e o objetivo de ir à paia era o de despojar-se das coisas do dia a dia - sapatos, vestidos arrumados, jóias.
A intenção era sair da rotina, mudar tudo, desfrutar do mar, caminhar pela areia, rir sem motivo, muito abraço, muito beijo, muita convivência.
Sem pressa, sem música alta, sem ostentação.
Férias em família num praia.
Era isso, e nada mais.
E precisaria, será, de algo mais?
Quando saí dali, dei o bilhete azul: tchau y gracias.
Ainda faltam onze meses para as próximas férias, terei tempo para pensar; tomara encontre uma nova Piriápolis, onde a tônica sejam a simplicidade, a educação, a calma, e os únicos registros sejam aqueles que ficam gravados na memória e no coração.
domingo, 22 de janeiro de 2017
Crônicas de Verão - I
Numa destas noites de janeiro, sob um calor infernal, se foi a luz.
Não estava chovendo nem ventava; do nada, desligaram a rede, e ficamos sem energia por mais de hora.
Num primeiro momento, me apavorei, pois mal havia caído a noite.
Suor e orquestra de mosquitos, seria esse o roteiro?
Fiquei alguns minutos praguejando baixinho contra tudo e contra todos pois, sem luz e com uma temperatura de 34 graus não se pode pensar em nada agradável.
Estava sozinha em casa, fator que só serviu para piorar a situação; não podia sair para o pátio, eis que sou medrosa ao extremo.
Na verdade, não é bem assim: não me sinto segura em meio à escuridão, ou quando não posso enxergar.
Essa é a questão.
De tal sorte que tive que me contentar em espiar o céu de verão através da janela.
Por alguns momentos, permaneci muito quieta, trocando olhares com as estrelas.
Elas estavam todas lá, cintilantes, parecendo acenar para mim...
Então, operou-se a magia: levada por elas, refiz o caminho das noites de verão de minha infância, quando tinha meus pais e meus irmãos, tios e tias, primos, avós, cachorros, passarinhos, galinhas, e o pátio da nossa casa que, de dia, era sombreado pelos cinamomos e flamboyant, perfumado pelas uvas da parreira e à noite, ficava iluminado por centenas de vaga lumes.
Era um espaço de encantos, como costumam ser os lugares onde o amor é a tônica.
O meu Pai, sempre prático e com uma vitalidade que não terminava e nunca terminou até seu último dia nesta Terra, trouxera da estância uns catres que, como sabem, são camas rústicas feitas de madeira e cobertas por uma lona espichada e presa, por baixo, com grandes tachas.
O pai trouxera aqueles catres alegando que, para dormir não existia lugar mais agradável, eis que a lona que servia de colchão era de algodão, extremamente fresca.
Não aquecia nem com o calor do corpo.
Pois bem.
Os tais catres ficavam guardados na despensa, encostados na parede até que começava o verão, momento em que entravam em cena.
Primeiro, havia que abri-los e deixar que ficassem por um par de dias ao relento, a fim de que o cheiro do inverno fosse embora.
Feito isso, começava a distribuição dos mesmos, para meus pais e irmãos, e para mim.
Nós ajudávamos a carregar aquelas camas pesadas escada acima, e lá, umas ficavam no quarto, outras, na varanda, e assim era.
O verão do nosso Itaqui sempre foi quente, e aquilo era uma espécie de paliativo para enfrentá-lo.
Naqueles tempos - 1967, 1968, por aí, havia em nossa casa apenas um ventilador, bem pequeno, um luxo que somente meus pais podiam desfrutar.
A nós, os filhos, tocava dormir sem vento algum, salvo o que soprava - quando soprava das janelas abertas, sim senhor, dormíamos com as janelas do segundo andar escancaradas, abafados sob os mosquiteiros....era isso, ou acordar petit pois, em razão das mordidas.
Meu Pai, nos dias mais quentes, à tardinha, anunciava:
" Hoje está demais o calor! Vamos carregar os catres para o pátio!"
Iniciava-se, então, uma grande operação: subir as escadas, fechar os catres, descer com eles, subir novamente, descer com os mosquiteiros, levá-los até o meio do pátio, abri-los, colocar o lençol, ajeitar o mosquiteiro e pronto, estava feita a cama.
Não tínhamos medo de nada!
Aliás, quem pensava nisso?
Em torno de 23 horas, todos íamos dormir, cada um no seu catre.
O silêncio reinava, interrompido apenas pelo farfalhar da brisa nas folhas dos cinamomos, dos grilos, de alguma rã coaxando...lembro-me tão nitidamente de tudo isso que não, não se passaram quase cinquenta anos de toda aquela felicidade!
Meus olhos observavam as estrelas e os vaga lumes e, talvez dali a um ou dois minutos, eu dormia.
Dormia o sono maravilhoso daqueles que amam e sabem que são amados.
Acordava com a voz do pai a dizer " vamos entrar, pois já clareou o dia".
Noites de encantamento que jamais esquecerei.
Hoje penso em todos os caminhos que precisei percorrer depois que eles foram embora: nem com minha casa fiquei, nem pátio, nem parreira, nem meus cinamomos, tudo virou deserto, sinônimo de abandono, desamor e aridez.
No entanto, cada vez que, à noite, olho para o céu, consigo enxergar as mesmas estrelas, dizendo-me que há coisas que são incorruptíveis: o que trazemos guardado no peito, na alma, no coração, a essência do que somos e o amor que vivemos, jamais nos deixam.
Nas noites mais escuras, estão ali para nos recordar que não há separação e nem distância, pois o
amor entre pais e filhos é um elo fantástico, onde o puro afeto, e não o tempo, é o senhor absoluto.
Voltou a luz!
Elétrica...
E magia foi embora, seguindo o rastro brilhante das estrelas.
Não estava chovendo nem ventava; do nada, desligaram a rede, e ficamos sem energia por mais de hora.
Num primeiro momento, me apavorei, pois mal havia caído a noite.
Suor e orquestra de mosquitos, seria esse o roteiro?
Fiquei alguns minutos praguejando baixinho contra tudo e contra todos pois, sem luz e com uma temperatura de 34 graus não se pode pensar em nada agradável.
Estava sozinha em casa, fator que só serviu para piorar a situação; não podia sair para o pátio, eis que sou medrosa ao extremo.
Na verdade, não é bem assim: não me sinto segura em meio à escuridão, ou quando não posso enxergar.
Essa é a questão.
De tal sorte que tive que me contentar em espiar o céu de verão através da janela.
Por alguns momentos, permaneci muito quieta, trocando olhares com as estrelas.
Elas estavam todas lá, cintilantes, parecendo acenar para mim...
Então, operou-se a magia: levada por elas, refiz o caminho das noites de verão de minha infância, quando tinha meus pais e meus irmãos, tios e tias, primos, avós, cachorros, passarinhos, galinhas, e o pátio da nossa casa que, de dia, era sombreado pelos cinamomos e flamboyant, perfumado pelas uvas da parreira e à noite, ficava iluminado por centenas de vaga lumes.
Era um espaço de encantos, como costumam ser os lugares onde o amor é a tônica.
O meu Pai, sempre prático e com uma vitalidade que não terminava e nunca terminou até seu último dia nesta Terra, trouxera da estância uns catres que, como sabem, são camas rústicas feitas de madeira e cobertas por uma lona espichada e presa, por baixo, com grandes tachas.
O pai trouxera aqueles catres alegando que, para dormir não existia lugar mais agradável, eis que a lona que servia de colchão era de algodão, extremamente fresca.
Não aquecia nem com o calor do corpo.
Pois bem.
Os tais catres ficavam guardados na despensa, encostados na parede até que começava o verão, momento em que entravam em cena.
Primeiro, havia que abri-los e deixar que ficassem por um par de dias ao relento, a fim de que o cheiro do inverno fosse embora.
Feito isso, começava a distribuição dos mesmos, para meus pais e irmãos, e para mim.
Nós ajudávamos a carregar aquelas camas pesadas escada acima, e lá, umas ficavam no quarto, outras, na varanda, e assim era.
O verão do nosso Itaqui sempre foi quente, e aquilo era uma espécie de paliativo para enfrentá-lo.
Naqueles tempos - 1967, 1968, por aí, havia em nossa casa apenas um ventilador, bem pequeno, um luxo que somente meus pais podiam desfrutar.
A nós, os filhos, tocava dormir sem vento algum, salvo o que soprava - quando soprava das janelas abertas, sim senhor, dormíamos com as janelas do segundo andar escancaradas, abafados sob os mosquiteiros....era isso, ou acordar petit pois, em razão das mordidas.
Meu Pai, nos dias mais quentes, à tardinha, anunciava:
" Hoje está demais o calor! Vamos carregar os catres para o pátio!"
Iniciava-se, então, uma grande operação: subir as escadas, fechar os catres, descer com eles, subir novamente, descer com os mosquiteiros, levá-los até o meio do pátio, abri-los, colocar o lençol, ajeitar o mosquiteiro e pronto, estava feita a cama.
Não tínhamos medo de nada!
Aliás, quem pensava nisso?
Em torno de 23 horas, todos íamos dormir, cada um no seu catre.
O silêncio reinava, interrompido apenas pelo farfalhar da brisa nas folhas dos cinamomos, dos grilos, de alguma rã coaxando...lembro-me tão nitidamente de tudo isso que não, não se passaram quase cinquenta anos de toda aquela felicidade!
Meus olhos observavam as estrelas e os vaga lumes e, talvez dali a um ou dois minutos, eu dormia.
Dormia o sono maravilhoso daqueles que amam e sabem que são amados.
Acordava com a voz do pai a dizer " vamos entrar, pois já clareou o dia".
Noites de encantamento que jamais esquecerei.
Hoje penso em todos os caminhos que precisei percorrer depois que eles foram embora: nem com minha casa fiquei, nem pátio, nem parreira, nem meus cinamomos, tudo virou deserto, sinônimo de abandono, desamor e aridez.
No entanto, cada vez que, à noite, olho para o céu, consigo enxergar as mesmas estrelas, dizendo-me que há coisas que são incorruptíveis: o que trazemos guardado no peito, na alma, no coração, a essência do que somos e o amor que vivemos, jamais nos deixam.
Nas noites mais escuras, estão ali para nos recordar que não há separação e nem distância, pois o
amor entre pais e filhos é um elo fantástico, onde o puro afeto, e não o tempo, é o senhor absoluto.
Voltou a luz!
Elétrica...
E magia foi embora, seguindo o rastro brilhante das estrelas.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
O Livro, Esse Personagem
Já escrevi sobre o fascínio que os livros exercem sobre mim.
Provavelmente escreverei mais vezes, pois esse é um assunto que não se esgota.
Não me canso de discorrer sobre a maravilha que é poder ter, à mão, um bom livro para ler.
Para mim, é como se fosse uma espécie de bênção, sinto uma alegria que não consigo e nem quero esconder, assim fico quando adquiro um livro.
Se preciso escolher entre comprar um sapato novo ou um livro, a segunda opção vencerá, disparado.
Imagina que vou estar no Portinho e não vou passar numa livraria.
De tantas me salvaram meus livros que vocês, queridos amigos, nem calculam.
Sim, por que o livro, esse personagem que faz parte de mim, é aquele amigo silencioso, fidelíssimo, que está sempre à mão para prestar o socorro necessário, nas horas alegres e naqueles dias negros em que alma da gente fica cinza e pesada.
Eu nasci e me criei e meio aos livros, tenho amor por eles, conheço-os pelo tamanho, pela cor da capa, pelo cheiro.
Cada livro conta uma história para mim, e de mim também diz muito, pois os títulos que leio retratam assuntos que me interessam e emocionam.
A curiosidade me vez adquirir, recentemente, um livro escrito por Leonardo Padura, escritor cubano, nascido em Havana em 1955.
Quando vi a capa e dei uma olhada rápida no prólogo, senti que tinha em mãos uma joia, uma daquelas raríssimas combinações de talento, muita pesquisa histórica e um enredo envolvente.
Não me enganei, fiquei fã desse escritor!
Tão bem ele escreve e descreve lugares e fatos que vou dar um jeito de ir a Cuba, pois preciso ver com meus próprios olhos as realidades ali apontadas.
Ele é mestre no ofício da escrita!
Um livro abre janelas para paisagens insuspeitas, lança novos olhares sobre conceitos antigos, e nos faz ter vontade de sair do nosso pequeno mundo, despertando outros "eu" interiores.
Como disse no início desta post, este é um tema que não se esgota aqui.
Até o próximo livro!
Provavelmente escreverei mais vezes, pois esse é um assunto que não se esgota.
Não me canso de discorrer sobre a maravilha que é poder ter, à mão, um bom livro para ler.
Para mim, é como se fosse uma espécie de bênção, sinto uma alegria que não consigo e nem quero esconder, assim fico quando adquiro um livro.
Se preciso escolher entre comprar um sapato novo ou um livro, a segunda opção vencerá, disparado.
Imagina que vou estar no Portinho e não vou passar numa livraria.
De tantas me salvaram meus livros que vocês, queridos amigos, nem calculam.
Sim, por que o livro, esse personagem que faz parte de mim, é aquele amigo silencioso, fidelíssimo, que está sempre à mão para prestar o socorro necessário, nas horas alegres e naqueles dias negros em que alma da gente fica cinza e pesada.
Eu nasci e me criei e meio aos livros, tenho amor por eles, conheço-os pelo tamanho, pela cor da capa, pelo cheiro.
Cada livro conta uma história para mim, e de mim também diz muito, pois os títulos que leio retratam assuntos que me interessam e emocionam.
A curiosidade me vez adquirir, recentemente, um livro escrito por Leonardo Padura, escritor cubano, nascido em Havana em 1955.
Quando vi a capa e dei uma olhada rápida no prólogo, senti que tinha em mãos uma joia, uma daquelas raríssimas combinações de talento, muita pesquisa histórica e um enredo envolvente.
Não me enganei, fiquei fã desse escritor!
Tão bem ele escreve e descreve lugares e fatos que vou dar um jeito de ir a Cuba, pois preciso ver com meus próprios olhos as realidades ali apontadas.
Ele é mestre no ofício da escrita!
Um livro abre janelas para paisagens insuspeitas, lança novos olhares sobre conceitos antigos, e nos faz ter vontade de sair do nosso pequeno mundo, despertando outros "eu" interiores.
Como disse no início desta post, este é um tema que não se esgota aqui.
Até o próximo livro!
Obrigada, Prefeito Gil Marques Filho.
Dia seis de janeiro de 2009 recebi um telefonema da então Secretária da Administração, Ana Lúcia Cabreira a qual, por pedido do Prefeito Gil Marques Filho, me chamava para integrar a Administração Municipal no cargo de Assessora Jurídica.
A partir dali, um novo mundo mostrou-se para mim, egressa da advocacia privada, e agora voltada ao Direito Público, completamente diferente, em todos os sentidos.
Mas, tive a felicidade de estar cercada de colegas advogados e de servidores estatutários que, sem exceção, muito me ajudaram.
Foram solícitos, pacientes, houve coleguismo e muito afeto.
Entretanto, por trás de tudo isso estava a pessoa do Prefeito Gil.
Antes de mais nada, um ser humano de grande coração e serenidade.
Não fosse assim, teria me exonerado no primeiro semestre, eis que não nego meu sangue argentino e italiano.
Nesses quase oito anos de convívio, muito aprendi.
Participei de inúmeros treinamentos, cresci profissionalmente, conheci pessoas diferentes, fiz muitas amizades, vivi ótimos momentos.
Foram anos profícuos, em todos os sentidos.
E o Prefeito Gil foi sempre aquele Chefe tranquilo, equilibrado, brincalhão, sem deixar de ser sério quando deveria ser, aquela pessoa que compartilhava uma bolacha, um mate, um café.
Podia ter o maior abacaxi para descascar, e lá vinha ele com aquela firmeza na voz e a certeza no olhar.
Sempre procurando ajudar.
Resolver.
Solucionar.
Buscava a paz, jamais a guerra.
Estimado Prefeito Gil, sinto muito orgulho por ter integrado teu governo e ter feito parte de tua Administração.
Acima de tudo, tenho imensa gratidão a tua pessoa pelo trabalho que me proporcionaste, pelo estudo, pelo aprendizado.
Encerra-se um ciclo e não teremos mais aquela convivência diária, mas o afeto e o carinho permanecerão.
Do lado de fora da Prefeitura, esta que foi tua Assessora Jurídica e, no último ano de mandato, Assessora Especial de Gabinete estará sempre te desejando " todo o bem que houver nesta vida".
Um grande abraço, Prefeito Gil, obrigada por tudo!
A partir dali, um novo mundo mostrou-se para mim, egressa da advocacia privada, e agora voltada ao Direito Público, completamente diferente, em todos os sentidos.
Mas, tive a felicidade de estar cercada de colegas advogados e de servidores estatutários que, sem exceção, muito me ajudaram.
Foram solícitos, pacientes, houve coleguismo e muito afeto.
Entretanto, por trás de tudo isso estava a pessoa do Prefeito Gil.
Antes de mais nada, um ser humano de grande coração e serenidade.
Não fosse assim, teria me exonerado no primeiro semestre, eis que não nego meu sangue argentino e italiano.
Nesses quase oito anos de convívio, muito aprendi.
Participei de inúmeros treinamentos, cresci profissionalmente, conheci pessoas diferentes, fiz muitas amizades, vivi ótimos momentos.
Foram anos profícuos, em todos os sentidos.
E o Prefeito Gil foi sempre aquele Chefe tranquilo, equilibrado, brincalhão, sem deixar de ser sério quando deveria ser, aquela pessoa que compartilhava uma bolacha, um mate, um café.
Podia ter o maior abacaxi para descascar, e lá vinha ele com aquela firmeza na voz e a certeza no olhar.
Sempre procurando ajudar.
Resolver.
Solucionar.
Buscava a paz, jamais a guerra.
Estimado Prefeito Gil, sinto muito orgulho por ter integrado teu governo e ter feito parte de tua Administração.
Acima de tudo, tenho imensa gratidão a tua pessoa pelo trabalho que me proporcionaste, pelo estudo, pelo aprendizado.
Encerra-se um ciclo e não teremos mais aquela convivência diária, mas o afeto e o carinho permanecerão.
Do lado de fora da Prefeitura, esta que foi tua Assessora Jurídica e, no último ano de mandato, Assessora Especial de Gabinete estará sempre te desejando " todo o bem que houver nesta vida".
Um grande abraço, Prefeito Gil, obrigada por tudo!
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Entrelinhas
A cada dia que passa, mais me convenço de que as pessoas não mudam, ou a soberba de que são feitas não conhece limites.
Fingem ser o que não são quando pretendem conquistar algo, ou alguém que não está ao alcance de suas mãos.
Impulsionados pela facilidade proporcionada por uma conversa através de meio eletrônico, outorgam-se liberdades que seriam impensáveis se tivessem de ser ditas cara a cara.
Presume-se, ao menos, para quem tem educação - aliás, artigo raríssimo nos dias que correm.
Presume-se, ao menos, para quem tem educação - aliás, artigo raríssimo nos dias que correm.
Aquele(a) que deseja ter para si determinada pessoa perde, completamente, a noção de tempo, modo e lugar e, como dizíamos há mil anos atrás, " se encarna", isto é, não larga do pé da criatura, e não se flagra do papel ridículo que está desempenhando.
A outra pessoa, de começo, sorri.
Nada melhor para o ego que saber-se objeto do desejo de alguém.
Num segundo momento, o alvo do assédio começa a sentir-se ligeiramente inquieto: ...mas, afinal de contas...
A pessoa sem noção prossegue em seu patético monólogo, com elogios e declarações de amor e não se dá conta - ou se dá, mas não dá o braço a torcer, de que aquela é uma via de mão única.
Não há reciprocidade.
Tão simples!
Caso houvesse, estariam sob lençóis de cetim, ou em algum paraíso tropical ou, quem sabe, observando a neve cair.
Andando de mãos dadas pela praia, com a maravilhosa água do mar sob os pés.
Tomando um matecito.
Não há tempo ruim, nem lugar feio quando estamos enamorados.
Eu que o diga: com 15 anos, me arrumei de um namorado argentino e passava os finais de semana no Alvear, sob um calor de 40 graus e, a noite, sentava na calçada da casa de minha tia Maria Luisa, sob o incessante zunido dos mosquitos, e nem bolas dava, pois os beijos trocados era o que importava!
Entretanto, vale registrar que isso acontece somente quando há uma integração de almas e de corpos - sim, nessa ordem, caso contrário, que diferença teríamos dos animais irracionais?
Quando um ser humano não está a fim de outro ser humano, tudo constitui impedimento.
Tudo.
Trava-se, então, uma guerra surda entre um e outro, mas o perdedor será aquele que não souber ler as sutilezas ditas - ou não, nas entrelinhas.
É só prestar atenção: as respostas estarão todas lá.
A outra pessoa, de começo, sorri.
Nada melhor para o ego que saber-se objeto do desejo de alguém.
Num segundo momento, o alvo do assédio começa a sentir-se ligeiramente inquieto: ...mas, afinal de contas...
A pessoa sem noção prossegue em seu patético monólogo, com elogios e declarações de amor e não se dá conta - ou se dá, mas não dá o braço a torcer, de que aquela é uma via de mão única.
Não há reciprocidade.
Tão simples!
Caso houvesse, estariam sob lençóis de cetim, ou em algum paraíso tropical ou, quem sabe, observando a neve cair.
Andando de mãos dadas pela praia, com a maravilhosa água do mar sob os pés.
Tomando um matecito.
Não há tempo ruim, nem lugar feio quando estamos enamorados.
Eu que o diga: com 15 anos, me arrumei de um namorado argentino e passava os finais de semana no Alvear, sob um calor de 40 graus e, a noite, sentava na calçada da casa de minha tia Maria Luisa, sob o incessante zunido dos mosquitos, e nem bolas dava, pois os beijos trocados era o que importava!
Entretanto, vale registrar que isso acontece somente quando há uma integração de almas e de corpos - sim, nessa ordem, caso contrário, que diferença teríamos dos animais irracionais?
Quando um ser humano não está a fim de outro ser humano, tudo constitui impedimento.
Tudo.
Trava-se, então, uma guerra surda entre um e outro, mas o perdedor será aquele que não souber ler as sutilezas ditas - ou não, nas entrelinhas.
É só prestar atenção: as respostas estarão todas lá.
Assinar:
Postagens (Atom)