quarta-feira, 30 de abril de 2014

Secretária do Futuro

A Marisa (vou chamá-la assim) andava pulando a cerca. Riscando fora da caixa. E aquilo não era coisa de agora não, a Marisa andava enlouquecida e fora da casinha há mais de um ano.
Cuidava-se de tudo e de todos, prestava atenção, olhava em volta - será que não estou sendo seguida? sempre nervosa e tensa, a vida da Marisa transformara-se num círculo vicioso entre o céu e o inferno.
Quando estava com o João Pedro(vou chamá-lo assim) era o céu, a vida parecia sorrir e todos, absolutamente todos os problemas que ela tinha desapareciam. Todinhos. Ué, sais, quem é que tem problemas aqui? A vontade de estar com ele superava tudo, a Marisa caíra de amores pelo cara.
Guilherme, o terceiro personagem fictício desta história, o  marido traído da Marisa, era o responsável por fazê-la sentir-se no inferno. Tudo nele era chato,  extremamente monótono e previsível e,  não bastasse a barriga incomensurável, tinha o fator ronco. Foram os roncos do Guilherme os responsáveis pelo fim daquele amor que já vinha entre San Juán y Mendoza fazia um tempão. A Marisa deitava e, 1 minuto depois,  o Guilherme começava " rr...rrr...rrrr...rrrrrrrrr...e, dali um tempo soltava um bufo: RRRccc, um fio de baba escorrendo pelo canto da boca. Era de matar o guarda, aliás, o Guilherme. A Marisa ali, deitada, insone e furiosa, virava-se de um lado para outro até cair, exausta, num sono perturbado, porque morria de medo de falar dormindo e chamar pelo amante.
A Marisa e o João Pedro encontravam-se nos lugares mais disparatados que se possa imaginar, tal era o desespero; coisas que a química explica, diz que. Mas havia um lugar onde costumavam ir mais seguidamente, o apartamento do João Pedro onde, de um lado do prédio funcionava uma clínica dentária e, do outro, uma pastelaria. A secretária da clínica, invariavelmente, costumava ficar encostada na porta, observando o movimento da rua e dos transeuntes. Fiscalizava tudo, e a Marisa já cantara a pedra pro João Pedro: "Jojô, essa velha aí da clínica não tira os olhos da gente", e ele, naquela fala mansa que pirava o cabeção da Marisa" calma, linda, ela é tipo secretária do futuro, entendeu?" Não, a Marisa não entendia e nem queria saber de nada, só de passar umas horinhas no Paraíso para, depois do amor, entrar na pastelaria e se atracar em dois pastéis fritos com uma Coca Cola estupidamente gelada.
O marido andava desconfiado. Conferia tudo e não achava nada e nem ia achar, porque a Marisa era danada de esperta. Sua única preocupação era com a secretária do futuro, a velhota cujo cabelo parecia um ninho de gorrião, uma casinha de joão de barro.
Estava ficando nervosa com a situação. Ao menor estalo, dava um salto. Por qualquer coisa, chorava. O Guilherme, de soslaio, observava-a, mudo. E a Marisa, naquela base.
Certo dia, a Marisa saiu do apartamento do João Pedro e tááá´,  foi direto pra pastelaria. Estava com uma fome de leão, ou melhor, de leoa, a tarde fora looonga...
Mal terminara de sentar e a secretária do futuro puxou uma cadeira e sentou do lado dela.
"Oiiii, diz uma coisa..."
A Marisa quase teve um treco, mas conseguiu se controlar.
"Como é que tu consegues?"
Ai, meu Deus...
"Faz tempo que eu venho te observando...andas comendo bem, hem? " E soltou uma risadinha.
Era uma cilada, claro que era, só podia ser uma baita arapuca armada pelo Guilherme!
A Marisa não sabia se continuava mastigando o pastel,  se respondia alguma coisa ou se, simplesmente, fugia dali. O instinto de sobrevivência fê-la pensar " vou ficar muda". Seguiu comendo o pastel, vorazmente, os olhos esbugalhados, fixos na secretária do futuro.
" Olha,  desculpa eu te falar, viu, não queria te perguntar isso assim,  mas é que, na verdade..."
Aquilo foi demais, cansou a beleza da Marisa:
 Fala logo,  falaaaaa!
" Diz uma coisa, qual é o andar mesmo do teu dermatologista?"
O quê? A Marisa tava quase desmaiando...
"Sim, meu bem, teu dermato, sempre vejo vocês juntos, entrando ou saindo...Que tratamento, hem, tua pele tá simplesmente espetacular!!!"
Foi-se, a raça da Marisa. Empurrando a cadeira,  pagou os pastéis e a Coca Cola e saiu porta afora, engasgada, não sabia se com uma ervilha, o restinho da coca ou com o papo furado da secretária do futuro.
Dali da esquina mesmo, mandou um recadinho pro João Pedro:
Terminou, Jojô! Fedeu, pintou sujeira. Te falei, eu sabia...e a culpa de tudo é da secretária futuro!









terça-feira, 29 de abril de 2014

El Pañuelo de Mamá

Como está chegando o Dia das Mães e sou de véspera, comecei a dar  meus costumeiros volteios, sempre que quero evitar um fato ou condição da qual não tenho como escapar: sim, eu não tenho mais mãe.
É uma pena, um desastre, é algo que deixa a gente tão infeliz e com uma sensação de desamparo que, passe o tempo que passar, ela fica ali, como se fosse um ínfimo espinho encravado no coração.
Depois que não temos mais nossa mãe,  tudo fica bastante brutal, no sentido de que aquele amor incondicional  que desfrutávamos, na maravilha dos dias, das semanas, dos meses e dos anos que corriam lentamente, e que tivemos a ventura de viver,  nunca mais.
Não há palavras para descrever o que produz na gente a ausência da mãe.
Entretanto, para homenagear a minha Mãe Maravilha, a dona Kila, como todos a conheciam, embora seu nome fosse Célia Angélica,  não falarei de tristeza, deixarei de usar palavras como saudade, eterno, e deixarei  de fazê-lo porque ela não gostaria de me ver triste e, como dizia meu pai, com lágrimas.
Quando falar de minha Mãe, lembrarei da alegria de seu riso, exaltarei sua sabedoria,  honrarei o sobrenome que ela me deu - Fernández, tem sobrenome mais bonito que esse? só o Mondadori, tão bonito quanto.
Desculpem-me, amigos queridos, vejam vocês o que minha Mãe é capaz de evocar em mim.
Somente sentimento bons, é o que a lembrança dela me traz porque jamais a ouvi gritar, o contraponto perfeito à figura do meu pai,  que falava bem alto com seu vozeirão, a suprema ternura com seu andar lento, seus cabelos castanhos e curtos, quase na altura dos ombros, fininhos como seda, olhos castanho escuros sempre luminosos e sua voz, que  entremeava  expressões em espanhol e em português, num dialeto único, só seu.
Para homenagear minha Mãe, cantarei muchos tangos y boleros, especialmente aqueles que ela mais gostava.
Sim, a minha Mãe era um ser iluminado e é assim que a vejo sempre, porque penso nela e nos ensinamentos que meu passou,  todos os dias,  não somente no segundo domingo de maio.
Minha Mãe era vaidosa e elegante, andava perfumada e bem vestida e tinha uma gaveta em sua cômoda onde guardava uma coleção de lenços e echarpes para todas as ocasiões. Cada vez que abria a gaveta, dela exalava um perfume inconfundível, um cheiro que lhe era peculiar, uma delícia!
Aquilo exercia sobre mim uma espécie de encantamento; enquanto ela escolhia o lenço ou a echarpe, eu ficava ali, muda, observando aquele ritual. Ela percebia meu olhar e, rindo, me dizia: " Mirá que lindos, nena, los pañuelos de mamá!"
Para te homenagear, Mãe, no teu dia, colocarei um pañuelo colorido e perfumado como tu, uma forma de te sentir mais perto de mim.
Sei que, de onde estiveres, sorrindo, dirás: " que hermoso pañuelo, nena,  igualito al de mamá!"




segunda-feira, 28 de abril de 2014

De Relancina

Dia desses nos juntamos, um grupo de mulheres,  e o assunto andou daqui e dali e plá...caímos na questão da inexorável passagem do tempo, que não perdoa nada a ninguém, desse, não tem escapatória e, no final das contas, o jeito é rir para não chorar no cantinho com a situação, por vezes calamitosa, a que vamos sendo relegadas.
O espelho é, indiscutivelmente, nosso maior algoz, sempre a nos apontar aquela ruga nova que apareceu entre o sábado e o domingo, é, do nada ela se postou ali e dali não arredará pé a menos que nos submetamos a algum procedimento, nos mostra, sem nenhuma piedade as gorduras que vão se acumulando em lugares nunca antes visitados na história do nosso corpo, ri dos nossos cabelos que, sem uma boa escova e chapinha ficarão um misto de crespo com ondulado, ou seja, simplesmente horríveis, e, o pior de tudo, debocha de nossos peitos, outrora orgulhosamente empinados e agora, reduzidos a peitos-pera: peraqui.
É a treva!
Pensando no assunto, para variar ...um pequeno parentese: eu queria, um dia que fosse, parar de pensar um pouco, mas esta inesgotável fonte de bobagens que é minha cabeça não para.
Sigamos.
Sigue el corso.
Pensando no assunto, conclui e comentei com minhas amigas que urge fazermos alguns retoques enquanto a coisa não desaba de vez porque, se assim acontecer, nem uma junta com 10 cirurgiões plásticos resolverá a parada. Puxa um pouco, levanta, tira, bota - pra toda ruga, gordura localizada ou peito pera existe um procedimento salvador, desde que tenhamos grana mas, acima de tudo, coragem para fazer o que é necessário.
Enquanto não chega o dia em que iremos, resolutas, em direção a uma clínica de cirurgia plástica, algumas soluções paliativas, meramente paliativas, vejam bem,  me ocorreram, medidas simples que podem (e devem) ser adotadas, antes que você tenha um faniquito e resolva cortar os pulsos. Ou os peitos, o que seria um completo desastre.
A regra número um, a regra de ouro, eu diria, é jamais, jamais, olhar-se no espelho sob uma iluminação feérica.
Isso, nunca!
Feche as cortinas e deixe entrar apenas uma leve penumbra.
Regra dois: mantenha uma distância considerável do inimigo - não se esqueça, seu espelho odeia você, e vice versa.
Regra três: tire os óculos, ou as lentes de contato - atenção, cuidado para não perdê-las ou derrubar e pisar nos óculos, olha que você já está na penumbra!
Feita essa importantíssima preparação, coloque-se levemente de lado, observe sua imagem de relancina.
Assim, meu bem, na penumbra, de longe, sem óculos e de lado, ahhh, você vai enxergar apenas e tão somente o que seus olhos, que já não são lá essas coisas, né, quiserem enxergar!
Depois dos 50, não dá pra comprar briga com o espelho porque, desculpa se te magoo, ele sempre vai levar a melhor.

Pgraia

Quando morava em Porto Alegre, isto lá pelo ano de 1985, tinha um colega de trabalho que costumava acrescentar a letra G antes da letra R, ou, então, simplesmente engolia alguma sílaba e enfiava outra completamente diferente, nada a ver com nada, mas a letra G, essa não faltava.
Quando chegava alguém novo no escritório, ele, prontamente, se adiantava e, estendendo a mão, lascava:
Muito pragzer, Alfredgo.
O recém chegado olhava em volta, assim, meio em falso, tipo será que entendi bem? e o povo sufocava o riso.
Quando atendia o telefone, Pgrocuradogria, Alfredgo, às ordgens.
Aquilo era motivo de comentários no escritório e fora dele, nos almoços entre colegas e, a tal ponto a coisa ficou engraçada que, sempre que podíamos, começávamos a imitar o camarada. Chegamos, certa feita, a fazer um campeonato para quer quem o imitava melhor; o ganhador levaria para casa uma caixa de bombons.
Francamente...
Essa mania de fazer pouco dos defeitos alheios é algo feio, sim, mas a vontade de rir que toma conta da gente é deveras incontrolável.
A cada almoço, se ele ia junto, nem dava para almoçar direito, o Alfredo olhava o bufe e voltava, anunciando:
hoje tem salada de magnese, tem um monte de verdugras e, de sobregmesa, cregme de fgrutas. Um podegue!!!
Difícil almoçar com um barulho desses. Um bagrulho!
Certo dia, saímos, uma turma de amigos, e, entre uma caipira e outra, o pileque foi pegando e, quando nos demos conta, estávamos todos falando na língua do G, ou melhor, arremedando o pobre Alfredo que, por ser véspera de feriado, tinha declarado, solenemente, que não poderia nos acompanhar porque iria para a praia.
Ou melhor, para  a pgraia.
As gargalhadas estavam já tão altas que o pessoal das mesas nos olhava e ria também, mesmo sem saber qual a razão de tamanho estardalhaço.
Nós nos perguntávamos, uns aos outros:
E aí, não quis ir pra pgraia?
Então, me conta, porque desististe de ir pra pgraia?
Deixaste de ir pra pgraia só porque o Alfredgo foi, é?
E dê-lhe risadas e tapas na mesa e nos ombros uns dos outros.
De repente, o Auri ficou mudo. Mudinho da silva. Branqueou, depois ficou vermelho até a raiz dos cabelos, as orelhas de abano meio que arroxearam.
Um a um, fomos parando, intrigados com o silêncio do Auri.
Mas que diabos...
Do nada, surgiu, entre nós, o Alfredo.
Sério que nem guri cagado, ele nos disse, meio chorando:
Pessoal, pergdi a cagrona pra pgraia. Tanto que eu queria ir pra pgraia...eu adogro pgraia; posso ficarg aqui com vocês?
Fez-se um silêncio de sepulcro.
As pessoas das outras mesas pararam de olhar, nem te ligo, não sei de nada.
Acabou-se a noitada, um a um fomos nos levantando e saindo de fininho, ninguém ousou encarar o Alfredo, salvo o Auri que, na condição de chefe do setor, ficou pra tentar ajeitar o que não tinha conserto.
E nós, bem, nós, até hoje estamos nos perguntado se o Alfredo não escutou, se fez de louco pra passar bem, ou então, se ficou rindo da nossa cara.
Vergdadeigro mistégrio!





domingo, 27 de abril de 2014

Aspira!

No finalzinho de junho, terminado o semestre na faculdade, me largava pra Itaqui no mesmo dia,  para as tão esperadas férias, não aguentava a saudade de casa, dos amigos, da cidade.
Mês de férias, 40 dias atirada sem pensar em nada a não ser curtir  meus pais, as festas que nossa turma fazia e, claro, esperar a chegada dos aspirantes, o pessoal do CPOR que vinha fazer estágio no quartel local..
Atualmente, isso soa ridículo mas, em 1981, a novidade servia para quebrar a monotonia dos dias e aquecer o inverno da fronteira, sempre rigoroso.
Eles costumavam chegar em grupos de 10, 12 aspirantes e logo, logo, se enturmavam.
Naquele ano não foi diferente.
Ou melhor, foi.
Para mim, foi.
Estávamos no clube com nossa turma de sempre jogando conversa fora e aquele moreno lindo me olhava, me olhava sem parar.
Perguntei a minha amiga, tô vendo bem, será? claro que eu sabia que sim, mas, aquelas coisas, os ataques de idiotice que a gente tem de vez em quando, até que ele se aproximou, sorridente, e me tirou pra dançar.
Conversa vai, conversa vem, o aspira era de Porto Alegre e, como se não bastasse, éramos praticamente vizinhos, morávamos a duas quadras de distância um do outro, e o destino quis que nos encontrássemos  em Itaqui.
O estágio terminou, ele foi embora e eu ainda fiquei mais 10 dias, esperando o final das férias e, de repente, tudo ficou feio e sem graça e aquele tempo não passava nunca, e eu queria, desesperadamente, voltar pro Portinho para encontrar outra vez aquele morenaço que, além de lindo, parecia ser um cara muito legal.
Voltei no início de agosto e, para minha felicidade, o aspira também estava loucamente apaixonado por mim, e dali engatamos um namoro que durou dois ano e meio e terminou porque eu,  vê se pode, euzinha aqui achei que, bem, estava na hora de terminar.
Às vezes me pego pensando no porquê daquela atitude tresloucada, de ter deixado um amor que era bom, alegre, o aspira era um parceiro e tanto, inteligente, culto, ambos gostávamos das mesmas coisas e nos divertíamos muito juntos.
Foi um tempo de felicidade total.
Em tempos de repensar nas coisas da vida, o fim do namoro com o aspira entrou para minha  lista de mancadas do século!

Cinquentinha

Uns meses antes de completar 50 anos fiz altos planos, um mais mirabolante que o outro: festa faraônica, viagem a lugares exóticos, um ano sabático, quem sabe?  enfim, tudo o que a mente levemente enlouquecida de uma geminiana é capaz de imaginar.
De tanto planejar, a coisa foi indo de tal forma que acabou acontecendo exatamente o que eu mais temia, ou seja, nada.
O dia dos meus 50 anos amanheceu como qualquer outro e não houve espoucar de foguetes, nem banda marcial ou orquestra para saudar o meio século de minha existência.
Apenas uma simples comemoração com meus colegas de trabalho, uma saída para jantar mais tarde, e isso foi tudo.
Uma decepção, confesso.
Mas a decepção foi, de fato, comigo mesma, por conta daquele velho hábito que insisto em afastar de mim, de esperar demais dos outros.
Meu presente de aniversário para mim mesma foi um choque de realidade e uma conversa tête a tête, sem retoques e sem nenhuma condescendência, não tive a menor chance de escapar e não vislumbrei outra saída a não ser enfrentar meus medos, abrir o armário e tirar de dentro dele todos os fantasmas que me assombravam, as realizações, os caminhos que percorri, os desvios que tomei, é, foi uma conversa e tanto, daquelas em que a gente vara a noite e vê o dia surgindo...não dá pra sair incólume de um papo desses, não mesmo.
Por que razão precisamos esperar pelos outros para fazer o que desejamos e para realizar nossos sonhos?
Esta foi a primeira questão que se impôs e que ficou ali, incômoda, me cutucando.
E descobri que eu, e somente eu, sou a responsável absoluta por estes ou aqueles feitos em minha vida, pela viagem que desmarquei, pelo erro cometido, pelo amor que deixei passar com medo de vivê-lo, pela história que cortei pela metade apenas para me sabotar, pelos acertos, pelas vitórias.
Os 50 chegaram e se, de um lado, me empurraram de forma definitiva para resolver questões há muito tempo pendentes, é bem verdade que, de outro, me trouxeram uma certa urgência em colocar do lado de fora de minha vida alguns pesos inúteis, praticamente me obrigaram  a descarregar  os fardos que se tornaram pesados demais, e a focar apenas no que realmente interessa.
Então, quase chegando nos 53 e depois daquele papo cabeça comigo mesma, a coisa ficou mais ou menos assim:
Faço somente o que gosto, desde que não prejudique ninguém;
Digo não sem a menor cerimônia, porque meu tempo de aturar amolações já era;
Fico apenas na companhia de quem gosto muito e que sei que gosta muito de mim;
Não cultivo mágoas nem rancores, de todo que me hicieran de malo, me olvidé;
Procuro viver com alegria, rezo várias vezes ao dia e agradeço imensamente a dádiva de estar aqui, de acordar pela manhã e ver o Sol que vem surgindo, de observar as estrelas, ouvir a chuva, cuidar de minhas plantas, de ser senhora de mim e de meus desejos;
Estou tentando, bravamente, comer menos e andar mais, mas sem stress ou neura;
Cultivo os amigos que tenho, procuro dar a eles o melhor de mim;
Não tenho mais bagagem, levo apenas o estritamente necessário;
Leveza,  joie de vivre...punto e basta!







quarta-feira, 23 de abril de 2014

Supermercado Mimimi

Numa das minhas tantas idas ao Portinho,  precisei ir ao super.
Até aí, normal.
Cheguei num estabelecimento lindo, enorme, enfeitado, bá, espetáculo de supermercado.
Como boa interiorana, comecei a andar calmamente pra lá e pra cá, sem pressa alguma, afinal, tinha tantas coisas para ver. O povo passava  apressado por mim e eu, nem boletas, só desviando com o carrinho vazio.
Não me deixei impressionar, e continuei meu lento caminhar por aquele sem fim de prateleiras, observando tudo.
Aliás, observar pessoas e objetos é um dos grandes prazeres que sinto quando estou no Portinho, mas isso é outro papo.
Seguindo na função do super, parei na padaria, of course, e pedi, sorridente, " dez pãezinhos, por favor".
A pessoa que me atendeu não estava em seus dias. Nem uma palavra, nem uminha palavrinha, nada! Apenas ensacou os dez pães e, estendendo o pacote através do balcão, olhou para o lado e bradou:
 " próximoooo".
Credo!
Aquilo me espantou, viu, acostumada que estou a chegar no Supermercado Duda, onde sou tratada a pão de ló, sempre recebida com atenção, carinho e o sorriso do pessoal da padaria, que me pergunta " que vamos levar hoje? ", me entregam o pacote com um" obrigada, volte sempre", ninguém acha estranho se perambulo de um lado para o outro, se paro no meio do caminho porque encontrei algum conhecido e fico conversando, todos, todos tratam a gente muito bem.
Refeita do choque, comecei a pensar seriamente em sair dali  e fui em direção ao caixa.
A menina que atendia deu um resmungo: dinheiro ou cartão? e falou tão baixo que não deu para ouvir. Perguntei: como? O mesmo resmungo, dinheiro ou cartão? desta vez, com certa impaciência na voz.
Aí, fui me emburrando. Fechei a cara. Ué, sais, mas afinal de contas...Dinheiro, falei.
A medida que as coisas iam passando, ela começou a abrir freneticamente as sacolas plásticas, plá, plá, plá...
Esperava que eu guardasse as compras.
E é claro, é " ovos", como diz minha amiga Vera, que não guardei, minha porção matuta do interior que até então se resguardara aflorou e, propositalmente, encostei-me no balcão e cruzei os braços.
Ela me olhou, fula da vida, porque viu que eu não ia guardar nada. Eu olhei pra ela, fula da vida, fuzilando com os olhos, avisando que sim, ela estava certa, eu não ia guardar nada. Afinal, aquela tarefa era dela que, além de mal educada, pretendia transferir para mim um trabalho que não era o meu.
Conclusão:
Enquanto transcorria aquela cena, eu pensava: mas que supermercado mimimi, isto é, metido a besta, cheio de noves fora zero, atulhado de coisas e loisas, todo politicamentiiiii corrréééétooo, mas em matéria de atendimento, te devo e truco!
Passei a mão nas sacolas e não me contive: " francamente, que horror isto aqui!!!
Fui para a fila do táxi caindo e levantando e ali, naquele momento,  senti uma saudade louca da minha cidade, do meu Itaqui, do super que não é meu mas é onde me sinto em casa, onde levam, pasmem, levam minhas compras até o carro, um luxo de atendimento!
Supermercado mimimi do Portinho, never more!









O Abraço do Pai

Sempre sinto saudade do meu Pai, sempre. Não há um dia sequer que eu não lembre dele.
Meu Pai, meu amigo, meu colega, meu companheiro de tantas manhãs e tardes de conversas e risadas, de viagens lindas, das idas para a estância do meu avô Atílio, dos banhos de mar, meu porto seguríssimo!
Hoje,  mais do que nunca,  senti a  falta de suas mãos protetoras, de sua voz de trovão e daquele abraço apertado que ele costumava me dar cada vez que nos víamos.
Invariavelmente, abria um sorrisão  e exclamava: " que tal, China querida?"
E me abraçava, me abraçava muito.
Hoje, por duas vezes, em diferentes circunstâncias que não vem ao caso, pensei nele, senti falta dele, até me pareceu, num dado momento, tê-lo visto, parado, olhando para mim. Seu sorriso era triste, como tristes eram as questões que me tocaram resolver e que, pela graça de Deus, resolvi.
Mas depois, a sensação foi a de  ter escalado uma montanha rochosa, uma subida íngreme que consumiu minha energia, meu sono, meu sossego.
Consegui chegar até o topo, e cheguei carregando uma bagagem de verdades que fui recolhendo ao longo do caminho, e nenhuma delas foi agradável.
Um duro aprendizado sobre as transformações do ser humano, a mudança de valores...
Hoje, Pai, eu queria demais poder ter o teu abraço, afinal, " cariño como ese,  jamas existió".
De uma forma ou de outra, te senti presente, e foi justamente essa presença silenciosa e invisível,  mas constante, que me deu a força necessária para continuar a subida.
Desculpem, amigos, este texto triste.
Muitas vezes, vertemos no papel as lágrimas que tentamos, valentemente, segurar, como se a página em branco fosse o abraço que tanto queremos e precisamos.
Por sorte, o amor que recebemos fica gravado, não se perde, perdura.
Sei, Pai, que se estivesses lendo este texto, dirias " mas o que é isso, China querida? O Papai não gosta de ter ver assim, com lágrimas".
E, com isso, me farias sorrir.
Obrigada, Pai, pelo amor que me deste: ele continua, intacto, no meu coração.










O Fim do Amor

Quando descobrimos que o amor acabou?
 Foi em um dia qualquer da semana, ou naquele ano em que aconteceram tantas coisas que mudaram tudo, ou,  simplesmente,  a prática reiterada de determinados comportamentos tornou tudo  tão sem sentido que concluímos que ali não existe mais nada, e só nos resta colocar o ponto e virar a página.
Aqui não me refiro somente ao amor entre duas pessoas, mas ao amor que sentimos por pais, irmãos, filhos, amigos, a todos os tipos de amor, a pessoas que são detentoras de nosso afeto. E, justamente por serem sabedoras do amor que por elas nutrimos, acreditam piamente que ele será eterno e que por mais que o pisoteiem, ele seguirá, incólume, em nosso coração.
Ledo engano.
Há tempo para amar, e há tempo para enxergar que o amor que sentíamos terminou.
Amarga decisão, a de deixar aquela pessoa que um dia amamos sair da nossa vida, ir embora. Não no sentido físico, ela até poderá continuar ali perto, ao nosso lado;  poderemos vê-la esporadicamente, não importa.
O que vale é que o fim foi decretado pelo coração e, quando isso acontece,  não tem mais volta.
Quebrou-se o elo.
Somaram-se as incontáveis desavenças e as intermináveis discussões, a crueldade foi se tornando uma constante, os anos foram passando e a mudança de sentimentos, ou a exposição dos verdadeiros motivos que levavam aquela(s) pessoa(s) a ficar perto de você foram aparecendo com uma nitidez impressionante e dolorosa.
E aí, um dia, um belo dia, você diz basta. 
Talvez  a sua decisão tenha levado um mês, um ano, dez anos. Às vezes, a vida toda.
Entretanto, nunca es tarde cuando la dicha es buena, diria minha Mãe.
Por isso, embora seja difícil apartar-se de um amor que terminou, trata-se de uma decisão de vida, de sobrevivência.
Muitas vezes, tentamos enganar a nós mesmos achando, inclusive, que a culpa pelo desfecho desta ou daquela situação é nossa, tal o grau de dependência afetiva que sentimos. O outro, aquele ser idealizado, é perfeito, jamais detentor de maus sentimentos.
Um dia, um belo dia, as máscaras caem e nos deparamos com a realidade e, por mais dura que ela seja, enfrentá-la de frente é preciso, num processo lento e diário de reconstrução.
Coragem, é a palavra que me vem à cabeça.
E, claro, João Guimarães Rosa:
" O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem."



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sinceridade Rude

Não pretendia me manifestar sobre o brutal assassinato do inocente de Três Passos, porque tenho opinião formada sobre certas coisas e essa mesma opinião desagrada profundamente os que gostam de passar a mão na cabeça de bandido, acham que quem comete um delito gravíssimo tem todo o direito de receber visitinha e ficar fazendo crochê e fabricando cesta de jornal amassado e que nós, daqui de fora, temos obrigação, sim senhor, obrigaçãoooo de ir até lá, amaciar a fera. Sei que isto é algo extremanete polêmico e possui correntes de pensamento e as mais diversas teorias, mas esta opinião é a minha. Quem se sentir incomodado, que pare de ler ou vá procurar no Google " batatinha quando nasce, esparrama pelo chão".
Sinceridade rude, como expliquei, já no título.
Calar, numa hora destas, é omissão, é medo de botar pra fora o que todo pai e toda mãe que se preze está sentindo: nojo, raiva, indignação. E não sou de me calar e muito menos de ficar quieta e ainda menos de seguir a corrente dos que fingem que não é no seu quintal que a merda foi cagada, e fingem, apenas fingem que está tudo bem obrigada, e que, afinal, nada se pode fazer, não foi na nossa cidade, não pertencem ao nosso círculo social, são pessoas que não conhecemos, então, calam-se.
A sociedade, como um todo, tem que verbalizar seu desprezo por tão ignóbil ato. Ao menos isso.
Estas leis frouxas, essa moda que vem sendo adotada de uns tempos pra cá, de vitimizar o bandido, de
tentar tapar o sol com a peneira, sinceramente, não creio que isso sirva para melhorar ninguém que cometeu um ato bárbaro. Tenho certeza que um tarado desses, depois de uma entrevista ou da  visita de algum  ser abnegado, deve rir. Rir muito.
Não acredito no arrependimento de monstros, nem em suas lágrimas de crocodilo, não mesmo!
Notem bem,  não estou criticando o trabalho que tantas pessoas desenvolvem, de forma alguma. Louvo-as e até invejo, porque jamais teria essa paciência, essa pureza de alma, tanto desprendimento, não adotaria uma atitude assim. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, diz o ditado. Só que, para determinado tipo de gente, não tem reza no mundo que resolva.
Há crimes e crimes.
Talvez para aqueles de menor potencial ofensivo funcione.Talvez.
Agora, tentar ajudar essa trinca de monstros que arquitetou friamente a morte daquele pobre gurizinho de apenas 11 anos, valha-me Deus. Sou contra, radicalmente contra.
Sim, porque arquitetaram, pensaram, pesaram, mediram.
Confabularam.
A trinca maldita deve ter se reunido diversas vezes e não tenho a menor sombra de dúvida que a sentença de morte do inocente foi prolatada dia 11 de fevereiro deste ano, imediatamente após a famigerada audiência de "tentativa de conciliação". Mas de que conciliação me hablas? O pobre guri andava pra lá e pra cá - ninguém via isso? Viam, claro, só que não levavam a sério. Não queriam se envolver. Evidente que, após a audiência, o trio de facínoras de reuniu e bateu o martelo: esse daí, só matando, pra parar de incomodar.
Todos tem direito a defesa?
É, " dizque"...así dicen los muchachos.
Gente que faz o que o trio de vagabundos fez com esse garoto indefeso não tem.
Não tem!
Que direito teve o pobre inocente?
Nenhum.
Fazia anos que pisavam, solenemente, no meio da cara daquela pobre criança.
Como ele pode se defender?
Não pode!
Aliás, esta noite, na qual perdi o sono e andava pela sala pensando nessa vítima da barbárie humana, como se meu parente fosse, cheguei a rezar e pensei, " tomara Nossa Senhora tenha protegido esse inocente e ele não tenha se dado conta do que vinha pela frente".
Tomara.
Mas, pouco provável.
O guri era esperto, atilado.
Vão omitir certos detalhes e é bom que omitam mesmo, sob pena de a população invadir o local onde estão os três vagabundos e linchá-los.
A gente fica se peguntando, como pode um cara que é médico, a outra, enfermeira, a outra assistente social, como, como?
Respondo:
Isso é o resultado de um ódio antigo, beeeeem antigo.
Ódio nutrido e alimentado pela camarada enfermeira que, logo após a morte da mãe do guri, " prontificou-se" para cuidá-lo - então tá...e mais depressa ainda, casou com o pai do garoto. Ódio nutrido pelo pai em relação à ex mulher, pela partilha dos bens.
Ódio cozinhando em banho maria e fogo baixo durante anos.
Loucos por dinheiro, pelo vil metal pior que peru por merda.
Um dia, o ódio eclodiu.
O trio de facínoras começou a urdir desde a fatídica audiência, no me cabe duda.
Como dizia meu professor de Direito Penal, quem perde é o morto, o resto do povo, sacode daqui e dali, termina por se ajeitar.
Ele, a vítima inocente, ele não.
Por isso me revolta  tanta condescendência com bandido.
Se meia dúzia mofasse na cadeia e outra meia dúzia apanhasse até ficar aleijado, quem sabe pensassem melhor antes de cometer atrocidades.
Enfim, o que sobra é um gosto amargo na boca da gente, e aquela sensação terrível de impotência, mesmo morando longe, mesmo sem saber quem são, mesmo sem conhecer.
Mataram uma criança indefesa e inocente.
Choremos por ele.
A Justiça, infelizmente, neste caso(como em tantos outros), não vai servir de consolo.