Haverá, ainda, algum romântico?
Restará alguém que ainda acredita na magia de um encontro onde somente os olhos dirão o que desejamos?
Pequenos gestos, fisicamente quase que imperceptíveis, mas reconhecidos pelo coração?
Terá restado um homem ou uma mulher que goste de dançar de rosto colado?
Andamos tão ocupados com as redes sociais e em aparentar, sofregamente, uma pseudo felicidade, que esquecemos as pessoas que estão ali, em carne e osso.
Há uma pressa desmedida em chegar a algum lugar, ao que parece.
Mas, amigos, onde ficaria esse paraíso, que seria a coroação de tamanho apuro?
Constato, não sem uma ponta de tristeza, que os poucos românticos que porventura sobreviveram a essa avalanche de falsidades publicadas estão cada vez mais isolados em seus delírios e lembranças de um tempo que, definitivamente, terminou.
Uma lástima, na verdade.
Hoje, ao que tudo indica, não há motivo algum para celebrar o amor romântico, aquela maravilha de sensação, que enlevava a alma e fazia sonhar.
Não mais!
Nos dias atuais, precisa ser discutida a conta da luz, o salário parcelado, os rumos da política e suas implicações, o gás que subiu, a destinação do lixo...
Tudo politicamente correto, sim, só que ninguém lembrou de deixar um espaço para o romantismo.
De igual modo, vejo que, em razão de tantos apelos e facilidades de toda ordem, e em nome de uma igualdade em tudo e por tudo, conquistar ( conquistar? que palavrão é esse?) alguém é tão fácil como ir até a padaria da esquina e comprar um quilo de pão.
Lamentável, mas é o que se vê.
Aos românticos, uma vez decretado o seu fim, nada mais restou, a não ser ir parar em outro planeta e lá, na voz incomparável de Ella Fitzgerald, ouvir Isn't it Romantic e dançar abraçados, levados pela "magia na noite, um sonho pode ser ouvido".
terça-feira, 31 de outubro de 2017
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Novas Histórias de Lucrécia, A Peidorreira
Lucrécia decidira candidatar-se a prefeita.
Depois de muito pensar e de consultar as bases, estava decidida a lançar-se a mais esse desafio.
Foi fácil passar pela Convenção do seu Partido, o PUNM (o nome era uma infame coincidência que nada tinha a ver com o hábito pouco ortodoxo de Lucrecita, de peidar siempre que se le dava la gana)) - Partido da União Nacional das Manobras, muito embora alguns invejosos de plantão e outros tantos burraldos tivessem torcido o nariz quando ela, microfone em punho, apresentara sua plataforma eleitoral.
Foi um coro de "ohhhh e ahhhh" que, ao fim e ao cabo ela não sabia bem se eram de aprovação ou escárnio, mas o fato é que agora ela era candidata.
C a n d i d a t a.
Sacramentada essa condição, jogou-se com tudo na busca pelo voto, dentro da mais absoluta legalidade, evidentemente, eis que não queria incômodos.
E do que ela mais gostava era de participar dos comícios que, durante a semana aconteciam nos bairros da cidade.
Sempre acompanhada de sua fiel escudeira, sua mãe, la señora Babu a qual, de tanto caminhar pelas ruas sem calçamento e tapadas de buracos, torcera um dos joelhos.
Lucrécia tinha advertido, "Mãe, não tens condições de andar assim, horas a fio, comendo poeira e ralando os pés".
Não teve argumento, pois la señora Babu alegava que nada costumava escapar de seus olhos de lince.
Ademais, precisava estar junto para tentar controlar Lucrécia, a incontrolável peidorreira.
Aquilo ficava chato, afinal.
Lucrécia, como sempre, nem tava!
Caminhava rápido com uma enorme bandeira do PUNM tremulando ao vento e, a cada passo dado, peido largado.
Uma vergonha!
Será que ela pensava que ninguém ouvia aqueles sons?
Azar do guarda, andam comigo por que querem e sabem do meu valor, do tamanho dos meus projetos, o resto é figuração.
A campanha ia de vento em popa e Lucrecita era líder em todas as pesquisas:
" a candidata mais votada", diziam, a boca miúda; "ganha de lavada", vaticinavam.
A chegada de Lucrécia aos comícios era uma verdadeira apoteose, todos queriam vê-la e ouvir suas promessas, pouco importando quão mentirosas fossem:
- Educação para todos!
E o povo gritava: huhuhuhuhuhuhuhu!!!
- Asfalto!
Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!
- Saúde!
Rufar de tambores!!!
Lucrécia, radiante, acenava para todos do alto do palanque.
Aquilo, para ela, era uma cachaça: adorava!
Ao término de cada comício, chegava em casa destruída, suada, coberta de pó e sem voz.
La senõra Babu vinha logo com uma gemada, à qual misturava um cálice de vinho do Porto.
Para recuperar a voz e o ânimo, dizia.
Y, claro, algo más: prrrrrrrrrrr
No último comício, realizado na praça da cidade, compareceram todos os caciques do Partido, além de vários deputados estaduais e federais, candidatos a vereador e assessores da campanha.
Lucrécia queria impressionar, e conseguiu.
Surgiu no palanque usando um conjunto branco de calça e blazer, apesar do calorão.
Era chique usar somente uma cor, dissera-lhe a assessora para assuntos institucionais e outras ervas.
Não convinha mostrar muito os braços, falara outra.
Ninguém ousava fazer a complexa recomendação: contenha-se, candidata; não peide...
Tratando-se da indomável Lucrécia sabiam que de nada adiantaria, pois nela ninguém conseguira, até o momento, colocar freio.
Compareceram naquele memorável comício em torno de duas mil pessoas, a quais acotovelavam-se para ver e ouvir a que seria, sem sombra de dúvidas, a próxima prefeita.
A balbúrdia era grande: misturavam-se os sons das palmas, os gritos, parte de uma bateria da escola de samba de Lucrécia ( sim, ela era a l u c i n a d a por Carnaval), as bombas, o apito dos pipoqueiros, dos vendedores de algodão doce e de churrasquinho.
Milhares de bandeiras do PUNM tremulavam, alegremente.
Lucrécia, a última a falar naquela noite fantástica, foi recebida com uma ovação do público que mais parecia um tsunami:
Lucrécia, Lucrécia, Lucrécia, gritava o povo, alucinado.
E ela, enrolada na bandeira do Partido, tão feliz estava que soltou todos os peidos possíveis e imagináveis, ria sem parar olhando, de esguelha, as caras constrangidas dos expoentes da política remexendo-se, loucos para sair dali.
Sou coerente, ela pensava: afinal, a política está, ou não está, uma podridão?
Por essa razão entrei nesta briga: vou mudar esse estado de coisas!
O resultado de tamanha empatia com sua gente não poderia ter sido outro.
Lucrécia, a Peidorreira, sagrou-se vencedora e, no primeiro dia de janeiro do ano seguinte, tomou as rédeas do município!
Imagine, querido leitor(a), quantas histórias virão por aí...
Depois de muito pensar e de consultar as bases, estava decidida a lançar-se a mais esse desafio.
Foi fácil passar pela Convenção do seu Partido, o PUNM (o nome era uma infame coincidência que nada tinha a ver com o hábito pouco ortodoxo de Lucrecita, de peidar siempre que se le dava la gana)) - Partido da União Nacional das Manobras, muito embora alguns invejosos de plantão e outros tantos burraldos tivessem torcido o nariz quando ela, microfone em punho, apresentara sua plataforma eleitoral.
Foi um coro de "ohhhh e ahhhh" que, ao fim e ao cabo ela não sabia bem se eram de aprovação ou escárnio, mas o fato é que agora ela era candidata.
C a n d i d a t a.
Sacramentada essa condição, jogou-se com tudo na busca pelo voto, dentro da mais absoluta legalidade, evidentemente, eis que não queria incômodos.
E do que ela mais gostava era de participar dos comícios que, durante a semana aconteciam nos bairros da cidade.
Sempre acompanhada de sua fiel escudeira, sua mãe, la señora Babu a qual, de tanto caminhar pelas ruas sem calçamento e tapadas de buracos, torcera um dos joelhos.
Lucrécia tinha advertido, "Mãe, não tens condições de andar assim, horas a fio, comendo poeira e ralando os pés".
Não teve argumento, pois la señora Babu alegava que nada costumava escapar de seus olhos de lince.
Ademais, precisava estar junto para tentar controlar Lucrécia, a incontrolável peidorreira.
Aquilo ficava chato, afinal.
Lucrécia, como sempre, nem tava!
Caminhava rápido com uma enorme bandeira do PUNM tremulando ao vento e, a cada passo dado, peido largado.
Uma vergonha!
Será que ela pensava que ninguém ouvia aqueles sons?
Azar do guarda, andam comigo por que querem e sabem do meu valor, do tamanho dos meus projetos, o resto é figuração.
A campanha ia de vento em popa e Lucrecita era líder em todas as pesquisas:
" a candidata mais votada", diziam, a boca miúda; "ganha de lavada", vaticinavam.
A chegada de Lucrécia aos comícios era uma verdadeira apoteose, todos queriam vê-la e ouvir suas promessas, pouco importando quão mentirosas fossem:
- Educação para todos!
E o povo gritava: huhuhuhuhuhuhuhu!!!
- Asfalto!
Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!
- Saúde!
Rufar de tambores!!!
Lucrécia, radiante, acenava para todos do alto do palanque.
Aquilo, para ela, era uma cachaça: adorava!
Ao término de cada comício, chegava em casa destruída, suada, coberta de pó e sem voz.
La senõra Babu vinha logo com uma gemada, à qual misturava um cálice de vinho do Porto.
Para recuperar a voz e o ânimo, dizia.
Y, claro, algo más: prrrrrrrrrrr
No último comício, realizado na praça da cidade, compareceram todos os caciques do Partido, além de vários deputados estaduais e federais, candidatos a vereador e assessores da campanha.
Lucrécia queria impressionar, e conseguiu.
Surgiu no palanque usando um conjunto branco de calça e blazer, apesar do calorão.
Era chique usar somente uma cor, dissera-lhe a assessora para assuntos institucionais e outras ervas.
Não convinha mostrar muito os braços, falara outra.
Ninguém ousava fazer a complexa recomendação: contenha-se, candidata; não peide...
Tratando-se da indomável Lucrécia sabiam que de nada adiantaria, pois nela ninguém conseguira, até o momento, colocar freio.
Compareceram naquele memorável comício em torno de duas mil pessoas, a quais acotovelavam-se para ver e ouvir a que seria, sem sombra de dúvidas, a próxima prefeita.
A balbúrdia era grande: misturavam-se os sons das palmas, os gritos, parte de uma bateria da escola de samba de Lucrécia ( sim, ela era a l u c i n a d a por Carnaval), as bombas, o apito dos pipoqueiros, dos vendedores de algodão doce e de churrasquinho.
Milhares de bandeiras do PUNM tremulavam, alegremente.
Lucrécia, a última a falar naquela noite fantástica, foi recebida com uma ovação do público que mais parecia um tsunami:
Lucrécia, Lucrécia, Lucrécia, gritava o povo, alucinado.
E ela, enrolada na bandeira do Partido, tão feliz estava que soltou todos os peidos possíveis e imagináveis, ria sem parar olhando, de esguelha, as caras constrangidas dos expoentes da política remexendo-se, loucos para sair dali.
Sou coerente, ela pensava: afinal, a política está, ou não está, uma podridão?
Por essa razão entrei nesta briga: vou mudar esse estado de coisas!
O resultado de tamanha empatia com sua gente não poderia ter sido outro.
Lucrécia, a Peidorreira, sagrou-se vencedora e, no primeiro dia de janeiro do ano seguinte, tomou as rédeas do município!
Imagine, querido leitor(a), quantas histórias virão por aí...
Traga-me Uma Flor
Traga-me uma flor
Surpreenda-me
Colha para mim
a florzinha do jasmim
Traga-me uma flor
Presenteie-me
Pode ser a margarida
alegre e cheia de vida
Traga-me uma flor
Encante-me
Vá lá e colha uma rosa
De qualquer cor
Poderosa
Traga-me uma flor
Quem sabe uma sempre-viva
Para que eu possa sentir
A magia do amor
Traga-me uma flor
Qualquer flor
Não importa
Pois quem bate a minha porta
Com uma flor na mão
Traz o que há de mais belo
Puro, lindo e singelo
Toca meu coração
Surpreenda-me
Colha para mim
a florzinha do jasmim
Traga-me uma flor
Presenteie-me
Pode ser a margarida
alegre e cheia de vida
Traga-me uma flor
Encante-me
Vá lá e colha uma rosa
De qualquer cor
Poderosa
Traga-me uma flor
Quem sabe uma sempre-viva
Para que eu possa sentir
A magia do amor
Traga-me uma flor
Qualquer flor
Não importa
Pois quem bate a minha porta
Com uma flor na mão
Traz o que há de mais belo
Puro, lindo e singelo
Toca meu coração
terça-feira, 3 de outubro de 2017
Piccolomini Caleche
Impressionante como um simples objeto pode evocar tantas recordações e me fazer sentir saudade.
Saudade da minha Mãe Maravilha, já estamos em outubro, talvez seja isso, memórias de um lapso de tempo que foi tão difícil para ela e para todos nós, e mal sabíamos que também ela iria logo embora.
Certo dia falei a uma amiga: eu era uma Lia, agora sou outra.
Com eles.
Sem eles.
Às vezes, sequer me reconheço.
Acredito que aprendi a viver longe deles.
Mas é, no mínimo, complexo.
A saudade, entretanto, aparece quando menos se espera.
Um dia tão lindo de primavera e eu ali, organizando alguns enfeites, e eis que me deparo com um pequeno pratinho, de fundo branco, onde de vê, pintada em tons de verde, uma pequena carruagem e a inscrição: Piccolomini Caleche.
Eu sempre tive predileção por esse pratinho, o qual ficava, na casa da Mãe, sobre em um móvel, equilibrando-se num suporte.
Decidi guardá-lo dentro de uma armário, talvez por medo que se quebrasse, e acabei esquecendo e hoje, justo hoje, me cai nas mãos o prato, lindo como sempre, perfeito em sua expressiva simplicidade.
Então fiquei repetindo, em voz baixa, piccolomini caleche, piccolomini caleche, e nada mais foi necessário para que as lágrimas começassem a cair.
Tirei o prato e o respectivo suporte do armário e coloquei-o sobre uma mesinha, bem à vista.
Ele é tão belo que não merece ficar encerrado, para que ninguém o veja.
Vou cuidar para que não se quebre, para que permaneça inteiro como o amor que sinto e que distância alguma será capaz de fazer diminuir ou desbotar.
A saudade é assim, quando menos se espera, vem.
Eu bem que tentei fugir dela, escondendo-me aqui e ali.
Não adiantou.
Ela chegou, pegou a minha mão e, sentadas lado a lado, entabulamos uma silenciosa troca, suave e leve como o andar de uma piccolomini caleche.
Da mesma forma que chegou ela foi embora, não sem antes secar minhas lágrimas e deixar um rastro de perfume no ar.
O perfume da minha Mãe, aquele cheiro de alfazema que só ela tinha.
Mãe, tenho absoluta certeza que, de onde estás, teu amor me ampara e me protege.
Pois, como afirmei incontáveis vezes, o amor nunca morre.
Saudade da minha Mãe Maravilha, já estamos em outubro, talvez seja isso, memórias de um lapso de tempo que foi tão difícil para ela e para todos nós, e mal sabíamos que também ela iria logo embora.
Certo dia falei a uma amiga: eu era uma Lia, agora sou outra.
Com eles.
Sem eles.
Às vezes, sequer me reconheço.
Acredito que aprendi a viver longe deles.
Mas é, no mínimo, complexo.
A saudade, entretanto, aparece quando menos se espera.
Um dia tão lindo de primavera e eu ali, organizando alguns enfeites, e eis que me deparo com um pequeno pratinho, de fundo branco, onde de vê, pintada em tons de verde, uma pequena carruagem e a inscrição: Piccolomini Caleche.
Eu sempre tive predileção por esse pratinho, o qual ficava, na casa da Mãe, sobre em um móvel, equilibrando-se num suporte.
Decidi guardá-lo dentro de uma armário, talvez por medo que se quebrasse, e acabei esquecendo e hoje, justo hoje, me cai nas mãos o prato, lindo como sempre, perfeito em sua expressiva simplicidade.
Então fiquei repetindo, em voz baixa, piccolomini caleche, piccolomini caleche, e nada mais foi necessário para que as lágrimas começassem a cair.
Tirei o prato e o respectivo suporte do armário e coloquei-o sobre uma mesinha, bem à vista.
Ele é tão belo que não merece ficar encerrado, para que ninguém o veja.
Vou cuidar para que não se quebre, para que permaneça inteiro como o amor que sinto e que distância alguma será capaz de fazer diminuir ou desbotar.
A saudade é assim, quando menos se espera, vem.
Eu bem que tentei fugir dela, escondendo-me aqui e ali.
Não adiantou.
Ela chegou, pegou a minha mão e, sentadas lado a lado, entabulamos uma silenciosa troca, suave e leve como o andar de uma piccolomini caleche.
Da mesma forma que chegou ela foi embora, não sem antes secar minhas lágrimas e deixar um rastro de perfume no ar.
O perfume da minha Mãe, aquele cheiro de alfazema que só ela tinha.
Mãe, tenho absoluta certeza que, de onde estás, teu amor me ampara e me protege.
Pois, como afirmei incontáveis vezes, o amor nunca morre.
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Gerúndio E O Tempo
Vento norte assoviando
temporal se aproximando
tudo se movimentando
E Gerúndio só olhando
Pensando que era passado
E por isso acomodado
Inerte só observando
Ficava ali bem sentado
Parado sem se mexer
Não sabia o que fazer
E o Tempo disse a Gerúndio
Estou aqui observando
A medida que vou passando
O quanto você se detém
Num chatíssimo vai e vem
Procurando e indagando
Enquanto isso vou passando
E até zombando de você
Vá achando
Que é meu dono
Não é não!
E Gerúndio despertando
Desafiou o Tempo
E pensando
Viu passar
A tempestade
Concluindo que a bondade
O afeto
E o amor
Afastando todo o mal
Mudaram o tempo verbal
O Tempo, admirado
Curvou-se ante Gerúndio
E para ele falou
Você não está passando
Tampouco você passou
Estou do seu lado agora
Vamos passear mundo afora
E ver que tudo mudou
temporal se aproximando
tudo se movimentando
E Gerúndio só olhando
Pensando que era passado
E por isso acomodado
Inerte só observando
Ficava ali bem sentado
Parado sem se mexer
Não sabia o que fazer
E o Tempo disse a Gerúndio
Estou aqui observando
A medida que vou passando
O quanto você se detém
Num chatíssimo vai e vem
Procurando e indagando
Enquanto isso vou passando
E até zombando de você
Vá achando
Que é meu dono
Não é não!
E Gerúndio despertando
Desafiou o Tempo
E pensando
Viu passar
A tempestade
Concluindo que a bondade
O afeto
E o amor
Afastando todo o mal
Mudaram o tempo verbal
O Tempo, admirado
Curvou-se ante Gerúndio
E para ele falou
Você não está passando
Tampouco você passou
Estou do seu lado agora
Vamos passear mundo afora
E ver que tudo mudou
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
A Lagartixa do Teatro
Manu nasceu e se criou no Teatro Prezewodowski.
Desde pequena, embrenhava-se pelas cortinas do palco e passava despercebida das pessoas que, diariamente, apareciam por ali.
Não que ela sentisse medo, mas sua mãe, a lagartixa Tibérei, que viera do mundo das fadas, dissera-lhe que deveria ter muito cuidado com os humanos, para que estes não a machucassem.
Entre luzes e sombras Manu passava seus dias, encerrada em seu pequeno mundo, caçando mosquitos, moscas e outros insetos que habitavam por ali.
No verão, dona Cotinha, a encarregada da faxina, abria todas as janelas e a luz do sol e a brisa do dia inundavam todos os espaços, trazendo uma sensação agradável que fazia Manu suspirar, e sonhar.
Sonhar, era o que ela mais fazia.
Acreditava que lá fora, para além do Teatro, certamente descortinava-se um outro mundo.
Entretanto, sentia medo.
Ficava insegura pois não sabia o que poderia haver para além das cortinas, que a deixavam invisível, o que não deixava de ser confortável; de suas velhas conhecidas, as paredes, nas quais dependurava-se quando queria; dos estofados onde, no inverno, petiscava uma que outra baratinha.
Entretanto, Manu cresceu e aquela inquietação só fez aumentar, e chegou ao ápice no dia em que, deslumbrada, assistiu a um espetáculo de balé, um show de luzes e cores que fez seus olhinhos arderem, mas ela não conseguiu parar de olhar.
Colada na cortina do palco, viu toda a movimentação dos bailarinos, as entradas e as saídas, os passos, os giros, os saltos.
Escutou a música inebriante, os aplausos e a alegria ao término do espetáculo e ali, naquele instante, resolveu que desceria da cortina, caminharia até a porta e iria embora do Teatro.
Passara toda sua vida sem correr qualquer risco.
Por um lado, pensava ela, isso era muito bom: a previsibilidade dos dias.
Por outro lado, tal inércia não lhe permitia conhecer novos palcos e, via de consequência, comungar de outros espetáculos.
Quando se fecharam as cortinas, Manu permaneceu ali, quieta.
E, à primeira claridade do dia que nascia, esgueirou-se Teatro afora, e saiu.
A luz do dia quase a cegou, mas logo ela encontrou o tronco de uma árvore e, dali, abraçou o mundo.
Adaptou-se às mudanças, e quando sentiu o gosto incomparável da liberdade, jurou para si mesma que nunca mais permaneceria escondida pelas cortinas: nascera para ser protagonista, e não coadjuvante!
Desde pequena, embrenhava-se pelas cortinas do palco e passava despercebida das pessoas que, diariamente, apareciam por ali.
Não que ela sentisse medo, mas sua mãe, a lagartixa Tibérei, que viera do mundo das fadas, dissera-lhe que deveria ter muito cuidado com os humanos, para que estes não a machucassem.
Entre luzes e sombras Manu passava seus dias, encerrada em seu pequeno mundo, caçando mosquitos, moscas e outros insetos que habitavam por ali.
No verão, dona Cotinha, a encarregada da faxina, abria todas as janelas e a luz do sol e a brisa do dia inundavam todos os espaços, trazendo uma sensação agradável que fazia Manu suspirar, e sonhar.
Sonhar, era o que ela mais fazia.
Acreditava que lá fora, para além do Teatro, certamente descortinava-se um outro mundo.
Entretanto, sentia medo.
Ficava insegura pois não sabia o que poderia haver para além das cortinas, que a deixavam invisível, o que não deixava de ser confortável; de suas velhas conhecidas, as paredes, nas quais dependurava-se quando queria; dos estofados onde, no inverno, petiscava uma que outra baratinha.
Entretanto, Manu cresceu e aquela inquietação só fez aumentar, e chegou ao ápice no dia em que, deslumbrada, assistiu a um espetáculo de balé, um show de luzes e cores que fez seus olhinhos arderem, mas ela não conseguiu parar de olhar.
Colada na cortina do palco, viu toda a movimentação dos bailarinos, as entradas e as saídas, os passos, os giros, os saltos.
Escutou a música inebriante, os aplausos e a alegria ao término do espetáculo e ali, naquele instante, resolveu que desceria da cortina, caminharia até a porta e iria embora do Teatro.
Passara toda sua vida sem correr qualquer risco.
Por um lado, pensava ela, isso era muito bom: a previsibilidade dos dias.
Por outro lado, tal inércia não lhe permitia conhecer novos palcos e, via de consequência, comungar de outros espetáculos.
Quando se fecharam as cortinas, Manu permaneceu ali, quieta.
E, à primeira claridade do dia que nascia, esgueirou-se Teatro afora, e saiu.
A luz do dia quase a cegou, mas logo ela encontrou o tronco de uma árvore e, dali, abraçou o mundo.
Adaptou-se às mudanças, e quando sentiu o gosto incomparável da liberdade, jurou para si mesma que nunca mais permaneceria escondida pelas cortinas: nascera para ser protagonista, e não coadjuvante!
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Outra vez, é Primavera!
Depois de um tempo fora, período que entendi necessário para conseguir lidar com questões de difícil trato, eis-me aqui.
Eu sei que neste mundo virtual a medida do tempo é feita de forma instantânea.
Paciência.
Antes de mais nada, agradeço a minha meia duzia de fãs de gatos pingados que, insistentemente, me cobravam postagens, fato que me deixa feliz.
Mas a minha escrita é assim, geminiana como eu: dias em que está a fim, horas em que se recolhe para elucubrações e movimentos internos.
Refugia-se em algum lugar onde o acesso está interrompido e somente os pensamentos podem entrar, estes últimos nem sempre bons.
Pesados, tristes, lúgubres e sem encontrar a porta de saída, perdidos em labirintos escuros.
Em nada combinavam, tais pensamentos, com minha forma de encarar a vida.
Entretanto, há momentos em que precisamos mergulhar e ir até o fundo, onde há areia, ou sedimentos, ou pedregulho.
Ou o nada.
Ou o vazio.
Mas a descida é inevitável, um processo onde não há controle e nem deve haver, pois para que possamos novamente ver a luz, é necessário mergulhar nas profundezas.
Desnuda-se a alma, sente-se o frio da incerteza, da falta de respostas, das indefinições.
E a gente segue descendo, de início distanciando-se da luminosidade, que está logo ali, acima, mas continuamos a descida rumo às respostas que desejamos ter, ou ver.
Há um momento libertador em que, chegados ao final dessa trajetória, há dois caminhos: permanecer no escuro, ou buscar a luz.
Esse tempo de reclusão e de busca, de auto conhecimento foi fundamental para mim.
Divisor de águas.
Muito mais fácil seria permanecer em minha zona de conforto, sem questionar nada, contentando-me com a falta do riso escancarado, da alegria.
Mas quem disse que a vida é fácil?
Quem afirmou que viver não implica desafios constantes, e uma coragem que muitas vezes não temos e nem sabemos de onde tirar?
Eu, quando me deparo com situações complexas, me recolho.
Recolho-me a minha insignificância.
Vou até o fundo do poço, desço, me rebento toda, me debato com um sem número de fatos, com uma lista de cobranças internas as quais somente eu tenho acesso.
Como disse, esse processo faz parte do meu "eu".
Não sei vivenciar mudanças apenas movimentando móveis e adornos, pois o primeiro movimento há de ser - e é, o interior.
Feito isso, zeradas as pendências, retorno.
E, não por acaso, findou o inverno e começou a primavera.
As estações do ano, neste ano, me acompanharam.
Após um outono gris e um gelado inverno, volto na estação das flores, onde tudo renasce e floresce novamente, sob a luz mágica do sol.
Minha alma e meu coração reencontraram-se outra vez e, ao olhar para trás, dou-me conta do quanto caminhei e do esforço que fiz para nadar, nadar, e chegar outra vez na praia.
Por que sou assim: " aprendi, com as Primaveras, a me deixar cortar, e voltar sempre inteira."
Então, queridos leitores, me aguardem, pois muitas histórias virão por aí.
Um beijo em cada um de vocês!
Eu sei que neste mundo virtual a medida do tempo é feita de forma instantânea.
Paciência.
Antes de mais nada, agradeço a minha meia duzia de fãs de gatos pingados que, insistentemente, me cobravam postagens, fato que me deixa feliz.
Mas a minha escrita é assim, geminiana como eu: dias em que está a fim, horas em que se recolhe para elucubrações e movimentos internos.
Refugia-se em algum lugar onde o acesso está interrompido e somente os pensamentos podem entrar, estes últimos nem sempre bons.
Pesados, tristes, lúgubres e sem encontrar a porta de saída, perdidos em labirintos escuros.
Em nada combinavam, tais pensamentos, com minha forma de encarar a vida.
Entretanto, há momentos em que precisamos mergulhar e ir até o fundo, onde há areia, ou sedimentos, ou pedregulho.
Ou o nada.
Ou o vazio.
Mas a descida é inevitável, um processo onde não há controle e nem deve haver, pois para que possamos novamente ver a luz, é necessário mergulhar nas profundezas.
Desnuda-se a alma, sente-se o frio da incerteza, da falta de respostas, das indefinições.
E a gente segue descendo, de início distanciando-se da luminosidade, que está logo ali, acima, mas continuamos a descida rumo às respostas que desejamos ter, ou ver.
Há um momento libertador em que, chegados ao final dessa trajetória, há dois caminhos: permanecer no escuro, ou buscar a luz.
Esse tempo de reclusão e de busca, de auto conhecimento foi fundamental para mim.
Divisor de águas.
Muito mais fácil seria permanecer em minha zona de conforto, sem questionar nada, contentando-me com a falta do riso escancarado, da alegria.
Mas quem disse que a vida é fácil?
Quem afirmou que viver não implica desafios constantes, e uma coragem que muitas vezes não temos e nem sabemos de onde tirar?
Eu, quando me deparo com situações complexas, me recolho.
Recolho-me a minha insignificância.
Vou até o fundo do poço, desço, me rebento toda, me debato com um sem número de fatos, com uma lista de cobranças internas as quais somente eu tenho acesso.
Como disse, esse processo faz parte do meu "eu".
Não sei vivenciar mudanças apenas movimentando móveis e adornos, pois o primeiro movimento há de ser - e é, o interior.
Feito isso, zeradas as pendências, retorno.
E, não por acaso, findou o inverno e começou a primavera.
As estações do ano, neste ano, me acompanharam.
Após um outono gris e um gelado inverno, volto na estação das flores, onde tudo renasce e floresce novamente, sob a luz mágica do sol.
Minha alma e meu coração reencontraram-se outra vez e, ao olhar para trás, dou-me conta do quanto caminhei e do esforço que fiz para nadar, nadar, e chegar outra vez na praia.
Por que sou assim: " aprendi, com as Primaveras, a me deixar cortar, e voltar sempre inteira."
Então, queridos leitores, me aguardem, pois muitas histórias virão por aí.
Um beijo em cada um de vocês!
terça-feira, 2 de maio de 2017
Eu Quero!
A propósito do Dia do Trabalho, teço algumas considerações.
Após o desmando dos governos petistas, que fizeram o Brasil mergulhar numa profunda crise de identidade, a ponto de muitos repetirem ter vergonha de pertencer a este país, eis que contamos, hoje, dentre outras mazelas, a assombrosa cifra de quatorze milhões de desempregados.
Quem tem seu emprego, aferra-se a ele como única tábua de salvação; quem não trabalha com uma remuneração fixa, seja ela mensal, quinzenal ou semanal dá asas à imaginação e parte para o trabalho informal, cuja gama de atividades é ampla, de acordo com as aptidões de cada um.
Nesse vale tudo, muitos se desviam de suas profissões de origem para exercer tarefas nunca dantes imaginadas, mas que a necessidade obriga.
Não há nenhuma desonra em ter colado grau numa profissão que exigiu muito estudo, pesquisa e aporte financeiro e, por força de alguma circunstância, ver-se obrigado a ter que fazer um atalho, para poder sobreviver; mas que deve ser altamente frustrante e doloroso, não tenho dúvida que sim.
Ademais, considero injusto, porque essa pessoa, ao lado de centenas de outras, é quem está pagando a conta das falcatruas e roubalheiras perpetradas contra a coisa pública, e não somente pelos políticos:
há uma casta de que tomou conta do Brasil e há anos vêm, sistematicamente, rapinando tudo o que pode.
O resultado disso é que cidadãos e cidadãs são submetidos a verdadeiras humilhações, como por exemplo, receber o salário parcelado, as férias em dez vezes, as licenças relegadas ao esquecimento, as horas extras trabalhadas impagas, e por aí vai.
Não há dinheiro, é o que repetem os governantes, como uma espécie de mantra.
Mas há, sim, solução, propala o grande guru que, se eleito for em 2018, tornará o Brasil rico e próspero outra vez!
É de perguntar-se: a que preço?
Se o preço a pagar pelo " desenvolvimento " da nação é este que estamos pagando, agradecida, mas não quero.
Quero paz, segurança. saúde, educação de qualidade e trabalho digno com remuneração adequada.
Sobretudo, quero que a verdade contida nesse cipoal de crimes contra a administração venha à tona.
Quero um julgamento limpo.
Mas, acima de tudo, quero cada trabalhador e cada trabalhadora em seus postos de trabalho.
Sem ser aviltado, explorado e denegrido em sua imagem, por conta do "atalho" ao qual me referi anteriormente.
Quero um país normal, onde o que é certo significa certo, e o que é errado e ilícito é punido.
Tomara que, em um futuro próximo, possamos realmente celebrar o Dia 1° de Maio, não com protestos e depredações, mas com a serenidade e a alegria dos que, efetivamente, labutam por um país cada vez melhor!
Após o desmando dos governos petistas, que fizeram o Brasil mergulhar numa profunda crise de identidade, a ponto de muitos repetirem ter vergonha de pertencer a este país, eis que contamos, hoje, dentre outras mazelas, a assombrosa cifra de quatorze milhões de desempregados.
Quem tem seu emprego, aferra-se a ele como única tábua de salvação; quem não trabalha com uma remuneração fixa, seja ela mensal, quinzenal ou semanal dá asas à imaginação e parte para o trabalho informal, cuja gama de atividades é ampla, de acordo com as aptidões de cada um.
Nesse vale tudo, muitos se desviam de suas profissões de origem para exercer tarefas nunca dantes imaginadas, mas que a necessidade obriga.
Não há nenhuma desonra em ter colado grau numa profissão que exigiu muito estudo, pesquisa e aporte financeiro e, por força de alguma circunstância, ver-se obrigado a ter que fazer um atalho, para poder sobreviver; mas que deve ser altamente frustrante e doloroso, não tenho dúvida que sim.
Ademais, considero injusto, porque essa pessoa, ao lado de centenas de outras, é quem está pagando a conta das falcatruas e roubalheiras perpetradas contra a coisa pública, e não somente pelos políticos:
há uma casta de que tomou conta do Brasil e há anos vêm, sistematicamente, rapinando tudo o que pode.
O resultado disso é que cidadãos e cidadãs são submetidos a verdadeiras humilhações, como por exemplo, receber o salário parcelado, as férias em dez vezes, as licenças relegadas ao esquecimento, as horas extras trabalhadas impagas, e por aí vai.
Não há dinheiro, é o que repetem os governantes, como uma espécie de mantra.
Mas há, sim, solução, propala o grande guru que, se eleito for em 2018, tornará o Brasil rico e próspero outra vez!
É de perguntar-se: a que preço?
Se o preço a pagar pelo " desenvolvimento " da nação é este que estamos pagando, agradecida, mas não quero.
Quero paz, segurança. saúde, educação de qualidade e trabalho digno com remuneração adequada.
Sobretudo, quero que a verdade contida nesse cipoal de crimes contra a administração venha à tona.
Quero um julgamento limpo.
Mas, acima de tudo, quero cada trabalhador e cada trabalhadora em seus postos de trabalho.
Sem ser aviltado, explorado e denegrido em sua imagem, por conta do "atalho" ao qual me referi anteriormente.
Quero um país normal, onde o que é certo significa certo, e o que é errado e ilícito é punido.
Tomara que, em um futuro próximo, possamos realmente celebrar o Dia 1° de Maio, não com protestos e depredações, mas com a serenidade e a alegria dos que, efetivamente, labutam por um país cada vez melhor!
terça-feira, 28 de março de 2017
O Diamante, a Zircônia e o Ouro.
Há amores que são puros e límpidos, como o são os diamantes legítimos.
Assemelham-se às águas cristalinas das vertentes, brancas, limpas, transparentes.
Perfumadas, inclusive.
São amores que saciam nossa sede, refrescam nossa alma em tempos de seca, aplacam nosso cansaço e nos deixam com uma sensação de plenitude e de paz.
Outros vêm cheios de plumas e paetês, muito brilho, glamour e purpurina, uma visão que, primeiramente nos cega pela beleza e, a seguir, nos encanta e nos fascina, como borboletas atraídas pela luminosidade.
Entretanto, não passam de simples zircônia, aquela que parece, mas não é.
Um falso brilhante que não resiste à passagem do tempo e, na primeira oportunidade, mostra o fundo, isto é, oco por dentro.
Pura estampa, nada fina, por sinal.
Há amores que são como o ouro, o rei dos metais.
Atravessam chuvas, ventos e tempestades mas não perdem a força e o valor, ao contrário: quanto mais tempo passam juntos, mais se amoldam, pois o ouro é maleável, sem deixar de refletir a luz.
Há que ser um expert em vivências para conseguir distinguir uns dos outros: aqueles que, como os córregos, apenas passam por nossas vidas mas nos deixam com uma reserva de água pura que levaremos para usar nas piores horas; os que aparentam ser o que não são, nos enganam e nos deixam com um vazio, eis que nada nos acrescentam, mera ilusão de Carnaval que termina na Quarta Feira de Cinzas; e os que são como o ouro, e que são os que ficam.
E pensar que, por essas circunstâncias da vida, às vezes trocamos o brilhante pela zircônia, e guardamos o ouro em um compartimento de pouco uso, quase que esquecendo de seu valor.
Precisamos ficar atentos e com o coração aberto, por que ele, e somente ele, sabe reconhecer a diferença!
Assemelham-se às águas cristalinas das vertentes, brancas, limpas, transparentes.
Perfumadas, inclusive.
São amores que saciam nossa sede, refrescam nossa alma em tempos de seca, aplacam nosso cansaço e nos deixam com uma sensação de plenitude e de paz.
Outros vêm cheios de plumas e paetês, muito brilho, glamour e purpurina, uma visão que, primeiramente nos cega pela beleza e, a seguir, nos encanta e nos fascina, como borboletas atraídas pela luminosidade.
Entretanto, não passam de simples zircônia, aquela que parece, mas não é.
Um falso brilhante que não resiste à passagem do tempo e, na primeira oportunidade, mostra o fundo, isto é, oco por dentro.
Pura estampa, nada fina, por sinal.
Há amores que são como o ouro, o rei dos metais.
Atravessam chuvas, ventos e tempestades mas não perdem a força e o valor, ao contrário: quanto mais tempo passam juntos, mais se amoldam, pois o ouro é maleável, sem deixar de refletir a luz.
Há que ser um expert em vivências para conseguir distinguir uns dos outros: aqueles que, como os córregos, apenas passam por nossas vidas mas nos deixam com uma reserva de água pura que levaremos para usar nas piores horas; os que aparentam ser o que não são, nos enganam e nos deixam com um vazio, eis que nada nos acrescentam, mera ilusão de Carnaval que termina na Quarta Feira de Cinzas; e os que são como o ouro, e que são os que ficam.
E pensar que, por essas circunstâncias da vida, às vezes trocamos o brilhante pela zircônia, e guardamos o ouro em um compartimento de pouco uso, quase que esquecendo de seu valor.
Precisamos ficar atentos e com o coração aberto, por que ele, e somente ele, sabe reconhecer a diferença!
O Feixe De Varas
Meu Avô paterno, Atílio Mondadori, descendente de italianos vindos da região de San Benedetto Po que aqui se estabeleceram no século XIX, homem de grande tino para os negócios e com toque de Midas, fez fortuna com o estabelecimento comercial que possuía, as cinco fazendas onde se plantava trigo, arroz, laranjas, e o gado povoava as terras a perder de vista.
Tudo corria muito bem, até que sobreveio a quebra da Bolsa de Valores de New York em 1929.
Meu Avô dormiu rico e acordou pobre.
Todas as suas economias e as reservas que possuía no banco não valiam mais nada.
Segundo contava meu Pai, foi um dia de extrema aflição para todos, pois meu Avô encerrou-se em seu escritório e de lá não saiu até o cair da noite.
Não permitia que ninguém entrasse, nem sequer para lhe alcançar um prato de comida.
Estava ali encerrado, pensando.
Quando saiu, minha Avó Mathilde, meu pai e meus tios aguardavam, nervosos, o que diria o chefe da família, a quem todos obedeciam e seguiam sem pestanejar.
Com a serenidade que lhe era habitual, meu Avô sentou-se à mesa e, com uma única frase, decidiu os rumos da Família Mondadori dali para a frente:
" Nós seremos como um feixe de varas. Unidos, sairemos ilesos e ainda mais fortes desta situação. Se nos deixarmos levar pelo desespero e pelas discussões vãs, nos terminaremos."
Essa lição me foi passada pelo meu amado Pai, o Dr. Edgard, meu exemplo de homem de caráter, de homem digno e de bom coração, para quem, acima do dinheiro, importava a união familiar.
Meu Pai honrava lo que tenia bajo los pantalones.
Aprendi com ele que nem tudo na vida é medido pelo dinheiro, pois há coisas infinitamente maiores que esse senhor.
Meu Avô materno, Antônio, partilhava da mesma opinião.
A boa fortuna, - e tomara o fosse, não é condição permanente, perene, imutável.
Por isso, em tempos de crise, lembro dos ensinamentos de meus antepassados e das lições de vida que me deixaram, e a maior delas foi, é, e sempre será, o amor.
O afeto.
A união, tão bem representada pelo feixe de varas.
O abraço que acolhe, afaga e acalma.
O gesto que ampara.
Para isso estamos, afinal.
E que jamais se aplique a nós aquele triste ditado: " era uma pessoa tão rica que, de tão rica, chegava a ser pobre"!
Tudo corria muito bem, até que sobreveio a quebra da Bolsa de Valores de New York em 1929.
Meu Avô dormiu rico e acordou pobre.
Todas as suas economias e as reservas que possuía no banco não valiam mais nada.
Segundo contava meu Pai, foi um dia de extrema aflição para todos, pois meu Avô encerrou-se em seu escritório e de lá não saiu até o cair da noite.
Não permitia que ninguém entrasse, nem sequer para lhe alcançar um prato de comida.
Estava ali encerrado, pensando.
Quando saiu, minha Avó Mathilde, meu pai e meus tios aguardavam, nervosos, o que diria o chefe da família, a quem todos obedeciam e seguiam sem pestanejar.
Com a serenidade que lhe era habitual, meu Avô sentou-se à mesa e, com uma única frase, decidiu os rumos da Família Mondadori dali para a frente:
" Nós seremos como um feixe de varas. Unidos, sairemos ilesos e ainda mais fortes desta situação. Se nos deixarmos levar pelo desespero e pelas discussões vãs, nos terminaremos."
Essa lição me foi passada pelo meu amado Pai, o Dr. Edgard, meu exemplo de homem de caráter, de homem digno e de bom coração, para quem, acima do dinheiro, importava a união familiar.
Meu Pai honrava lo que tenia bajo los pantalones.
Aprendi com ele que nem tudo na vida é medido pelo dinheiro, pois há coisas infinitamente maiores que esse senhor.
Meu Avô materno, Antônio, partilhava da mesma opinião.
A boa fortuna, - e tomara o fosse, não é condição permanente, perene, imutável.
Por isso, em tempos de crise, lembro dos ensinamentos de meus antepassados e das lições de vida que me deixaram, e a maior delas foi, é, e sempre será, o amor.
O afeto.
A união, tão bem representada pelo feixe de varas.
O abraço que acolhe, afaga e acalma.
O gesto que ampara.
Para isso estamos, afinal.
E que jamais se aplique a nós aquele triste ditado: " era uma pessoa tão rica que, de tão rica, chegava a ser pobre"!
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