segunda-feira, 28 de abril de 2014

Pgraia

Quando morava em Porto Alegre, isto lá pelo ano de 1985, tinha um colega de trabalho que costumava acrescentar a letra G antes da letra R, ou, então, simplesmente engolia alguma sílaba e enfiava outra completamente diferente, nada a ver com nada, mas a letra G, essa não faltava.
Quando chegava alguém novo no escritório, ele, prontamente, se adiantava e, estendendo a mão, lascava:
Muito pragzer, Alfredgo.
O recém chegado olhava em volta, assim, meio em falso, tipo será que entendi bem? e o povo sufocava o riso.
Quando atendia o telefone, Pgrocuradogria, Alfredgo, às ordgens.
Aquilo era motivo de comentários no escritório e fora dele, nos almoços entre colegas e, a tal ponto a coisa ficou engraçada que, sempre que podíamos, começávamos a imitar o camarada. Chegamos, certa feita, a fazer um campeonato para quer quem o imitava melhor; o ganhador levaria para casa uma caixa de bombons.
Francamente...
Essa mania de fazer pouco dos defeitos alheios é algo feio, sim, mas a vontade de rir que toma conta da gente é deveras incontrolável.
A cada almoço, se ele ia junto, nem dava para almoçar direito, o Alfredo olhava o bufe e voltava, anunciando:
hoje tem salada de magnese, tem um monte de verdugras e, de sobregmesa, cregme de fgrutas. Um podegue!!!
Difícil almoçar com um barulho desses. Um bagrulho!
Certo dia, saímos, uma turma de amigos, e, entre uma caipira e outra, o pileque foi pegando e, quando nos demos conta, estávamos todos falando na língua do G, ou melhor, arremedando o pobre Alfredo que, por ser véspera de feriado, tinha declarado, solenemente, que não poderia nos acompanhar porque iria para a praia.
Ou melhor, para  a pgraia.
As gargalhadas estavam já tão altas que o pessoal das mesas nos olhava e ria também, mesmo sem saber qual a razão de tamanho estardalhaço.
Nós nos perguntávamos, uns aos outros:
E aí, não quis ir pra pgraia?
Então, me conta, porque desististe de ir pra pgraia?
Deixaste de ir pra pgraia só porque o Alfredgo foi, é?
E dê-lhe risadas e tapas na mesa e nos ombros uns dos outros.
De repente, o Auri ficou mudo. Mudinho da silva. Branqueou, depois ficou vermelho até a raiz dos cabelos, as orelhas de abano meio que arroxearam.
Um a um, fomos parando, intrigados com o silêncio do Auri.
Mas que diabos...
Do nada, surgiu, entre nós, o Alfredo.
Sério que nem guri cagado, ele nos disse, meio chorando:
Pessoal, pergdi a cagrona pra pgraia. Tanto que eu queria ir pra pgraia...eu adogro pgraia; posso ficarg aqui com vocês?
Fez-se um silêncio de sepulcro.
As pessoas das outras mesas pararam de olhar, nem te ligo, não sei de nada.
Acabou-se a noitada, um a um fomos nos levantando e saindo de fininho, ninguém ousou encarar o Alfredo, salvo o Auri que, na condição de chefe do setor, ficou pra tentar ajeitar o que não tinha conserto.
E nós, bem, nós, até hoje estamos nos perguntado se o Alfredo não escutou, se fez de louco pra passar bem, ou então, se ficou rindo da nossa cara.
Vergdadeigro mistégrio!





domingo, 27 de abril de 2014

Aspira!

No finalzinho de junho, terminado o semestre na faculdade, me largava pra Itaqui no mesmo dia,  para as tão esperadas férias, não aguentava a saudade de casa, dos amigos, da cidade.
Mês de férias, 40 dias atirada sem pensar em nada a não ser curtir  meus pais, as festas que nossa turma fazia e, claro, esperar a chegada dos aspirantes, o pessoal do CPOR que vinha fazer estágio no quartel local..
Atualmente, isso soa ridículo mas, em 1981, a novidade servia para quebrar a monotonia dos dias e aquecer o inverno da fronteira, sempre rigoroso.
Eles costumavam chegar em grupos de 10, 12 aspirantes e logo, logo, se enturmavam.
Naquele ano não foi diferente.
Ou melhor, foi.
Para mim, foi.
Estávamos no clube com nossa turma de sempre jogando conversa fora e aquele moreno lindo me olhava, me olhava sem parar.
Perguntei a minha amiga, tô vendo bem, será? claro que eu sabia que sim, mas, aquelas coisas, os ataques de idiotice que a gente tem de vez em quando, até que ele se aproximou, sorridente, e me tirou pra dançar.
Conversa vai, conversa vem, o aspira era de Porto Alegre e, como se não bastasse, éramos praticamente vizinhos, morávamos a duas quadras de distância um do outro, e o destino quis que nos encontrássemos  em Itaqui.
O estágio terminou, ele foi embora e eu ainda fiquei mais 10 dias, esperando o final das férias e, de repente, tudo ficou feio e sem graça e aquele tempo não passava nunca, e eu queria, desesperadamente, voltar pro Portinho para encontrar outra vez aquele morenaço que, além de lindo, parecia ser um cara muito legal.
Voltei no início de agosto e, para minha felicidade, o aspira também estava loucamente apaixonado por mim, e dali engatamos um namoro que durou dois ano e meio e terminou porque eu,  vê se pode, euzinha aqui achei que, bem, estava na hora de terminar.
Às vezes me pego pensando no porquê daquela atitude tresloucada, de ter deixado um amor que era bom, alegre, o aspira era um parceiro e tanto, inteligente, culto, ambos gostávamos das mesmas coisas e nos divertíamos muito juntos.
Foi um tempo de felicidade total.
Em tempos de repensar nas coisas da vida, o fim do namoro com o aspira entrou para minha  lista de mancadas do século!

Cinquentinha

Uns meses antes de completar 50 anos fiz altos planos, um mais mirabolante que o outro: festa faraônica, viagem a lugares exóticos, um ano sabático, quem sabe?  enfim, tudo o que a mente levemente enlouquecida de uma geminiana é capaz de imaginar.
De tanto planejar, a coisa foi indo de tal forma que acabou acontecendo exatamente o que eu mais temia, ou seja, nada.
O dia dos meus 50 anos amanheceu como qualquer outro e não houve espoucar de foguetes, nem banda marcial ou orquestra para saudar o meio século de minha existência.
Apenas uma simples comemoração com meus colegas de trabalho, uma saída para jantar mais tarde, e isso foi tudo.
Uma decepção, confesso.
Mas a decepção foi, de fato, comigo mesma, por conta daquele velho hábito que insisto em afastar de mim, de esperar demais dos outros.
Meu presente de aniversário para mim mesma foi um choque de realidade e uma conversa tête a tête, sem retoques e sem nenhuma condescendência, não tive a menor chance de escapar e não vislumbrei outra saída a não ser enfrentar meus medos, abrir o armário e tirar de dentro dele todos os fantasmas que me assombravam, as realizações, os caminhos que percorri, os desvios que tomei, é, foi uma conversa e tanto, daquelas em que a gente vara a noite e vê o dia surgindo...não dá pra sair incólume de um papo desses, não mesmo.
Por que razão precisamos esperar pelos outros para fazer o que desejamos e para realizar nossos sonhos?
Esta foi a primeira questão que se impôs e que ficou ali, incômoda, me cutucando.
E descobri que eu, e somente eu, sou a responsável absoluta por estes ou aqueles feitos em minha vida, pela viagem que desmarquei, pelo erro cometido, pelo amor que deixei passar com medo de vivê-lo, pela história que cortei pela metade apenas para me sabotar, pelos acertos, pelas vitórias.
Os 50 chegaram e se, de um lado, me empurraram de forma definitiva para resolver questões há muito tempo pendentes, é bem verdade que, de outro, me trouxeram uma certa urgência em colocar do lado de fora de minha vida alguns pesos inúteis, praticamente me obrigaram  a descarregar  os fardos que se tornaram pesados demais, e a focar apenas no que realmente interessa.
Então, quase chegando nos 53 e depois daquele papo cabeça comigo mesma, a coisa ficou mais ou menos assim:
Faço somente o que gosto, desde que não prejudique ninguém;
Digo não sem a menor cerimônia, porque meu tempo de aturar amolações já era;
Fico apenas na companhia de quem gosto muito e que sei que gosta muito de mim;
Não cultivo mágoas nem rancores, de todo que me hicieran de malo, me olvidé;
Procuro viver com alegria, rezo várias vezes ao dia e agradeço imensamente a dádiva de estar aqui, de acordar pela manhã e ver o Sol que vem surgindo, de observar as estrelas, ouvir a chuva, cuidar de minhas plantas, de ser senhora de mim e de meus desejos;
Estou tentando, bravamente, comer menos e andar mais, mas sem stress ou neura;
Cultivo os amigos que tenho, procuro dar a eles o melhor de mim;
Não tenho mais bagagem, levo apenas o estritamente necessário;
Leveza,  joie de vivre...punto e basta!







quarta-feira, 23 de abril de 2014

Supermercado Mimimi

Numa das minhas tantas idas ao Portinho,  precisei ir ao super.
Até aí, normal.
Cheguei num estabelecimento lindo, enorme, enfeitado, bá, espetáculo de supermercado.
Como boa interiorana, comecei a andar calmamente pra lá e pra cá, sem pressa alguma, afinal, tinha tantas coisas para ver. O povo passava  apressado por mim e eu, nem boletas, só desviando com o carrinho vazio.
Não me deixei impressionar, e continuei meu lento caminhar por aquele sem fim de prateleiras, observando tudo.
Aliás, observar pessoas e objetos é um dos grandes prazeres que sinto quando estou no Portinho, mas isso é outro papo.
Seguindo na função do super, parei na padaria, of course, e pedi, sorridente, " dez pãezinhos, por favor".
A pessoa que me atendeu não estava em seus dias. Nem uma palavra, nem uminha palavrinha, nada! Apenas ensacou os dez pães e, estendendo o pacote através do balcão, olhou para o lado e bradou:
 " próximoooo".
Credo!
Aquilo me espantou, viu, acostumada que estou a chegar no Supermercado Duda, onde sou tratada a pão de ló, sempre recebida com atenção, carinho e o sorriso do pessoal da padaria, que me pergunta " que vamos levar hoje? ", me entregam o pacote com um" obrigada, volte sempre", ninguém acha estranho se perambulo de um lado para o outro, se paro no meio do caminho porque encontrei algum conhecido e fico conversando, todos, todos tratam a gente muito bem.
Refeita do choque, comecei a pensar seriamente em sair dali  e fui em direção ao caixa.
A menina que atendia deu um resmungo: dinheiro ou cartão? e falou tão baixo que não deu para ouvir. Perguntei: como? O mesmo resmungo, dinheiro ou cartão? desta vez, com certa impaciência na voz.
Aí, fui me emburrando. Fechei a cara. Ué, sais, mas afinal de contas...Dinheiro, falei.
A medida que as coisas iam passando, ela começou a abrir freneticamente as sacolas plásticas, plá, plá, plá...
Esperava que eu guardasse as compras.
E é claro, é " ovos", como diz minha amiga Vera, que não guardei, minha porção matuta do interior que até então se resguardara aflorou e, propositalmente, encostei-me no balcão e cruzei os braços.
Ela me olhou, fula da vida, porque viu que eu não ia guardar nada. Eu olhei pra ela, fula da vida, fuzilando com os olhos, avisando que sim, ela estava certa, eu não ia guardar nada. Afinal, aquela tarefa era dela que, além de mal educada, pretendia transferir para mim um trabalho que não era o meu.
Conclusão:
Enquanto transcorria aquela cena, eu pensava: mas que supermercado mimimi, isto é, metido a besta, cheio de noves fora zero, atulhado de coisas e loisas, todo politicamentiiiii corrréééétooo, mas em matéria de atendimento, te devo e truco!
Passei a mão nas sacolas e não me contive: " francamente, que horror isto aqui!!!
Fui para a fila do táxi caindo e levantando e ali, naquele momento,  senti uma saudade louca da minha cidade, do meu Itaqui, do super que não é meu mas é onde me sinto em casa, onde levam, pasmem, levam minhas compras até o carro, um luxo de atendimento!
Supermercado mimimi do Portinho, never more!









O Abraço do Pai

Sempre sinto saudade do meu Pai, sempre. Não há um dia sequer que eu não lembre dele.
Meu Pai, meu amigo, meu colega, meu companheiro de tantas manhãs e tardes de conversas e risadas, de viagens lindas, das idas para a estância do meu avô Atílio, dos banhos de mar, meu porto seguríssimo!
Hoje,  mais do que nunca,  senti a  falta de suas mãos protetoras, de sua voz de trovão e daquele abraço apertado que ele costumava me dar cada vez que nos víamos.
Invariavelmente, abria um sorrisão  e exclamava: " que tal, China querida?"
E me abraçava, me abraçava muito.
Hoje, por duas vezes, em diferentes circunstâncias que não vem ao caso, pensei nele, senti falta dele, até me pareceu, num dado momento, tê-lo visto, parado, olhando para mim. Seu sorriso era triste, como tristes eram as questões que me tocaram resolver e que, pela graça de Deus, resolvi.
Mas depois, a sensação foi a de  ter escalado uma montanha rochosa, uma subida íngreme que consumiu minha energia, meu sono, meu sossego.
Consegui chegar até o topo, e cheguei carregando uma bagagem de verdades que fui recolhendo ao longo do caminho, e nenhuma delas foi agradável.
Um duro aprendizado sobre as transformações do ser humano, a mudança de valores...
Hoje, Pai, eu queria demais poder ter o teu abraço, afinal, " cariño como ese,  jamas existió".
De uma forma ou de outra, te senti presente, e foi justamente essa presença silenciosa e invisível,  mas constante, que me deu a força necessária para continuar a subida.
Desculpem, amigos, este texto triste.
Muitas vezes, vertemos no papel as lágrimas que tentamos, valentemente, segurar, como se a página em branco fosse o abraço que tanto queremos e precisamos.
Por sorte, o amor que recebemos fica gravado, não se perde, perdura.
Sei, Pai, que se estivesses lendo este texto, dirias " mas o que é isso, China querida? O Papai não gosta de ter ver assim, com lágrimas".
E, com isso, me farias sorrir.
Obrigada, Pai, pelo amor que me deste: ele continua, intacto, no meu coração.










O Fim do Amor

Quando descobrimos que o amor acabou?
 Foi em um dia qualquer da semana, ou naquele ano em que aconteceram tantas coisas que mudaram tudo, ou,  simplesmente,  a prática reiterada de determinados comportamentos tornou tudo  tão sem sentido que concluímos que ali não existe mais nada, e só nos resta colocar o ponto e virar a página.
Aqui não me refiro somente ao amor entre duas pessoas, mas ao amor que sentimos por pais, irmãos, filhos, amigos, a todos os tipos de amor, a pessoas que são detentoras de nosso afeto. E, justamente por serem sabedoras do amor que por elas nutrimos, acreditam piamente que ele será eterno e que por mais que o pisoteiem, ele seguirá, incólume, em nosso coração.
Ledo engano.
Há tempo para amar, e há tempo para enxergar que o amor que sentíamos terminou.
Amarga decisão, a de deixar aquela pessoa que um dia amamos sair da nossa vida, ir embora. Não no sentido físico, ela até poderá continuar ali perto, ao nosso lado;  poderemos vê-la esporadicamente, não importa.
O que vale é que o fim foi decretado pelo coração e, quando isso acontece,  não tem mais volta.
Quebrou-se o elo.
Somaram-se as incontáveis desavenças e as intermináveis discussões, a crueldade foi se tornando uma constante, os anos foram passando e a mudança de sentimentos, ou a exposição dos verdadeiros motivos que levavam aquela(s) pessoa(s) a ficar perto de você foram aparecendo com uma nitidez impressionante e dolorosa.
E aí, um dia, um belo dia, você diz basta. 
Talvez  a sua decisão tenha levado um mês, um ano, dez anos. Às vezes, a vida toda.
Entretanto, nunca es tarde cuando la dicha es buena, diria minha Mãe.
Por isso, embora seja difícil apartar-se de um amor que terminou, trata-se de uma decisão de vida, de sobrevivência.
Muitas vezes, tentamos enganar a nós mesmos achando, inclusive, que a culpa pelo desfecho desta ou daquela situação é nossa, tal o grau de dependência afetiva que sentimos. O outro, aquele ser idealizado, é perfeito, jamais detentor de maus sentimentos.
Um dia, um belo dia, as máscaras caem e nos deparamos com a realidade e, por mais dura que ela seja, enfrentá-la de frente é preciso, num processo lento e diário de reconstrução.
Coragem, é a palavra que me vem à cabeça.
E, claro, João Guimarães Rosa:
" O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem."



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sinceridade Rude

Não pretendia me manifestar sobre o brutal assassinato do inocente de Três Passos, porque tenho opinião formada sobre certas coisas e essa mesma opinião desagrada profundamente os que gostam de passar a mão na cabeça de bandido, acham que quem comete um delito gravíssimo tem todo o direito de receber visitinha e ficar fazendo crochê e fabricando cesta de jornal amassado e que nós, daqui de fora, temos obrigação, sim senhor, obrigaçãoooo de ir até lá, amaciar a fera. Sei que isto é algo extremanete polêmico e possui correntes de pensamento e as mais diversas teorias, mas esta opinião é a minha. Quem se sentir incomodado, que pare de ler ou vá procurar no Google " batatinha quando nasce, esparrama pelo chão".
Sinceridade rude, como expliquei, já no título.
Calar, numa hora destas, é omissão, é medo de botar pra fora o que todo pai e toda mãe que se preze está sentindo: nojo, raiva, indignação. E não sou de me calar e muito menos de ficar quieta e ainda menos de seguir a corrente dos que fingem que não é no seu quintal que a merda foi cagada, e fingem, apenas fingem que está tudo bem obrigada, e que, afinal, nada se pode fazer, não foi na nossa cidade, não pertencem ao nosso círculo social, são pessoas que não conhecemos, então, calam-se.
A sociedade, como um todo, tem que verbalizar seu desprezo por tão ignóbil ato. Ao menos isso.
Estas leis frouxas, essa moda que vem sendo adotada de uns tempos pra cá, de vitimizar o bandido, de
tentar tapar o sol com a peneira, sinceramente, não creio que isso sirva para melhorar ninguém que cometeu um ato bárbaro. Tenho certeza que um tarado desses, depois de uma entrevista ou da  visita de algum  ser abnegado, deve rir. Rir muito.
Não acredito no arrependimento de monstros, nem em suas lágrimas de crocodilo, não mesmo!
Notem bem,  não estou criticando o trabalho que tantas pessoas desenvolvem, de forma alguma. Louvo-as e até invejo, porque jamais teria essa paciência, essa pureza de alma, tanto desprendimento, não adotaria uma atitude assim. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, diz o ditado. Só que, para determinado tipo de gente, não tem reza no mundo que resolva.
Há crimes e crimes.
Talvez para aqueles de menor potencial ofensivo funcione.Talvez.
Agora, tentar ajudar essa trinca de monstros que arquitetou friamente a morte daquele pobre gurizinho de apenas 11 anos, valha-me Deus. Sou contra, radicalmente contra.
Sim, porque arquitetaram, pensaram, pesaram, mediram.
Confabularam.
A trinca maldita deve ter se reunido diversas vezes e não tenho a menor sombra de dúvida que a sentença de morte do inocente foi prolatada dia 11 de fevereiro deste ano, imediatamente após a famigerada audiência de "tentativa de conciliação". Mas de que conciliação me hablas? O pobre guri andava pra lá e pra cá - ninguém via isso? Viam, claro, só que não levavam a sério. Não queriam se envolver. Evidente que, após a audiência, o trio de facínoras de reuniu e bateu o martelo: esse daí, só matando, pra parar de incomodar.
Todos tem direito a defesa?
É, " dizque"...así dicen los muchachos.
Gente que faz o que o trio de vagabundos fez com esse garoto indefeso não tem.
Não tem!
Que direito teve o pobre inocente?
Nenhum.
Fazia anos que pisavam, solenemente, no meio da cara daquela pobre criança.
Como ele pode se defender?
Não pode!
Aliás, esta noite, na qual perdi o sono e andava pela sala pensando nessa vítima da barbárie humana, como se meu parente fosse, cheguei a rezar e pensei, " tomara Nossa Senhora tenha protegido esse inocente e ele não tenha se dado conta do que vinha pela frente".
Tomara.
Mas, pouco provável.
O guri era esperto, atilado.
Vão omitir certos detalhes e é bom que omitam mesmo, sob pena de a população invadir o local onde estão os três vagabundos e linchá-los.
A gente fica se peguntando, como pode um cara que é médico, a outra, enfermeira, a outra assistente social, como, como?
Respondo:
Isso é o resultado de um ódio antigo, beeeeem antigo.
Ódio nutrido e alimentado pela camarada enfermeira que, logo após a morte da mãe do guri, " prontificou-se" para cuidá-lo - então tá...e mais depressa ainda, casou com o pai do garoto. Ódio nutrido pelo pai em relação à ex mulher, pela partilha dos bens.
Ódio cozinhando em banho maria e fogo baixo durante anos.
Loucos por dinheiro, pelo vil metal pior que peru por merda.
Um dia, o ódio eclodiu.
O trio de facínoras começou a urdir desde a fatídica audiência, no me cabe duda.
Como dizia meu professor de Direito Penal, quem perde é o morto, o resto do povo, sacode daqui e dali, termina por se ajeitar.
Ele, a vítima inocente, ele não.
Por isso me revolta  tanta condescendência com bandido.
Se meia dúzia mofasse na cadeia e outra meia dúzia apanhasse até ficar aleijado, quem sabe pensassem melhor antes de cometer atrocidades.
Enfim, o que sobra é um gosto amargo na boca da gente, e aquela sensação terrível de impotência, mesmo morando longe, mesmo sem saber quem são, mesmo sem conhecer.
Mataram uma criança indefesa e inocente.
Choremos por ele.
A Justiça, infelizmente, neste caso(como em tantos outros), não vai servir de consolo.












terça-feira, 15 de abril de 2014

Amigos

Considero-me um ser extremamente feliz, por ter os amigos que tenho, e falo de boca cheia que eles estão nos mais variados pontos deste mundão de Deus.
Tenho a suprema ventura de ter amigos e pessoas que me cercam em diferentes ocasiões e horas do dia, da semana, dos meses. Amigos de anos, gente que conheço desde que me conheço por gente.
Amigos de fé, que me acompanham desde sempre, que eram amigos de meus pais antes de serem meus amigos e, por tabela, meio que em adotaram.
Amigos do tempo da faculdade, do tempo do colégio - do Santa Teresa, amigos dos tempos do Felipe Néry, que ainda hoje vejo e que moram no meu bairro do coração, meu bairro maravilhoso, Cerrinho - Dois Umbus.
Passando por qualquer um deles pela rua, faço questão de acenar, de dar meu popular grito " oiiiiii, mas e aíííííí" e como isso alegra minha alma, posso ter o maior pepino para descascar, a maior bucha para desmontar, não importa, o simples sorriso de um deles me traz tranquilidade e me dá um tremendo ânimo para continuar.
Ao longo da vida, a gente vai juntando afetos, conhecendo pessoas, e não me canso de repetir que, sem meus amigos, eu nada seria, minha vida seria cinza - a cor da tristeza, para mim. Com eles por perto, meus dias são coloridos.
Esta pequena introdução para contar duas coisas que me aconteceram, ontem e hoje, respectivamente.
A primeira foi um convite que recebi de uma amiga de minha filha Marina, ambas se conhecem desde os tempos de colégio, ela mora aqui, lembrou de mim... fui parar, ontem a noite, no Teatro Prezewodwski, para uma palestra com Tânia Zambon.
Simplesmente, um espetáculo!  E nada mais vou dizer, porque o principal é que você, que agora está lendo isto, se um dia tiver a oportunidade, saia de sua zona de conforto e vá conferir de perto - é muito, muito bom: crescimento e aprendizado, assim, de cara. O resto, mova-se e descubra!
E tudo isso graças a Patrícia, amiga da Marina, que muitas vezes veio aqui em casa nos tempos da escola e da invernada do CTG, a  Patrícia, que até ontem era uma guriazinha, e que agora é uma linda mulher  muito bem sucedida em sua carreira, que sempre que me vê, me abraça, me beija. Mas é como é bom isso, meu Deus do céu!
O outro fato aconteceu hoje: estou trabalhando e eis que surge uma outra amiga de longa data das minhas filhas, que não mora mais aqui, e foi ali apenas para me dar um abraço. Abraçar a tia Lia.
A Lenara, a Lenarinha , como eu costumo chamá-la, é uma linda mulher de 25 anos, Advogada, muito bem posta na vida, graças a Deus, mas deu-se ao trabalho de ir me abraçar.
Nós, mal nos vimos, nos abraçamos longamente e choramos: simplesmente, choramos, celebrando a alegria daqueles breves momentos,  ela, com seus 25 aninhos, eu, com meus 52.
Quero dizer com estes dois fatos que a amizade, esse sentimento maravilhoso, não reconhece  idade, nem a distância, nem a classe social, ou a casa onde seu amigo mora, ela apenas enxerga seu coração, só quer o seu abraço.
Nada mais, e nem precisa.
Poder ser, assim, acarinhada, é um privilégio que agradeço a Deus todos os dias.
Obrigada, amigos, pelo tanto do tempo de vocês que passaram e passam comigo, tornando meus dias muito melhores e completos!
Minha vida tem graça porque tenho vocês para compartilhar minhas vitórias e minhas derrotas, porque as mãos de vocês sempre se estendem para me amparar quando caio, para me abraçar,  ou simplesmente para não dizer nada - amigos se entendem apenas com um olhar.
Um beijo, amo vocês!





segunda-feira, 14 de abril de 2014

Esperando as Filhas

O máximo de tempo que aguento longe de minhas filhas, dos meus três amores, é 20, 30 dias.
Esgotado esse prazo,  a corda estica demais e não dá outra, pá, rebentou. O resultado é uma cara de ferreiro e um humor ácido, digamos assim.
Claro que essa lógica vale para mim, a mãe, porque elas estão vivendo um outro tempo, como eu também já vivi,  e minha mãe me esperava e suspirava e me ligava dizendo,  " nena, estoy doente de saudade"... eu não entendia aquilo, doente de saudade? como pode?
Pois é.
Agora, a dona Lia cinquentinha viu com quantos paus se faz uma canoa,  agora apertou o sapato, agora  me vejo zanzando pelo pátio, ajeitando uma coisa e outra mas o pensamento, ah, esse não me deixa em paz e simplesmente, depois de mais de 20 dias longe das minhas cajazeirinhas eu tô, também, ficando doente de saudade.
Eu tento, valentemente sair da toca.
E saio.Não em entrego, eu me mando!  Trabalho, salão, ginástica, amigas, reunião, enfim.
Mas nadica de nada disso supre a falta que elas fazem.
É na hora do mate, do café, da janta, do almoço - do almoço, então, nem se fala! A mesa ficou muito grande e vazia, sem graça, a mesa também está de mau humor, porque não existe nada mais feliz que um almoço ao redor de uma mesa cheia de filhos com todos rindo e falando, de preferência bem alto, ao mesmo tempo - coisa de italiano, e não nego que adoro isso.
Hoje faz 27 dias que não vejo minhas gordas e agora comecei a contagem regressiva.
Há uma semana, começaram os preparativos, que seguirão até quarta feira - a Rita chegará na quinta, a Marina e a Karina, na sexta.
Arrumação, enfeites, cardápio caprichado, tudo para esperar as pessoas mais importantes da minha vida.
Feriadão, para mim, é sinônimo de muito beijo, muito abraço apertado, papos intermináveis e aquela sensação maravilhosa de união, que te dá uma força incrível e enche o coração da gente de alegria.
Quinta feira, madrugada festiva pra esperar a Ritinha, ao raiar das 6:30; sexta feira, idem, Marina e Karina.
E quem se importa com isso?
Lá pelas 6, Alberto, eu, Bibo e Chiquinha já estaremos acordados, dando os últimos retoques para que tudo esteja lindo, gostoso e acolhedor.
A segunda feira está terminando, nem se conta mais.
Só mais dois dias e,  aí, adeus, saudade medonha!




sábado, 12 de abril de 2014

Quosque Tandem Abutere...

Quosque Tandem Abutere, Catilina, Patientia Nostra?
Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?
Parte de um dos quatro discursos acusatórios pronunciados no Senado Romano pelo Cônsul Marcus Tullius Cicero - as Catilinarias, para denunciar a conspiração de Lucio Sérgio Catilina  há dois mil anos, aplica-se, ainda hoje, às mais diversas situações da vida.
Mas nunca é tão bem empregada quando alguém está no auge da indignação.
E nada nos causa mais revolta quando constatamos que estamos sendo tomados por idiotas, que a realidade está, há muito tempo plantada bem diante de nossos olhos e insistimos em não enxergar o óbvio, que nossa boa fé vem sendo continuamente solapada.
Como é difícil para o ser humano desfazer os laços, soltar as amarras, deixar o que foi construído e cultivado, muitas vezes, por toda a vida, e recomeçar.
Um belo dia, ele olha intensamente para dentro de si mesmo e conclui que nada do que parece,  é.
Dali para a frente, torna-se imperioso desfazer aquele verdadeiro nó górdio que o amarrou  - e que ele, ingenuamente, ou não, ajudou a atar.
Questão de sobrevivência, questão de honra, questão de amor próprio, llámalo como quieras, pero es necesário salir a flote para poder (tentar)resgatar o que deixou de ser vivido, e usufruir o que a vida trará.
Respirar novos ares, observar outras paisagens.
A paciência, um dia, termina.
C'est  fini!